Beja no Anno de 1845 — Primeiros Traços Estatísticos

Autor: José Silvestre Ribeiro — Governador Civil do Distrito de Beja em 1845
Editor: Typ. de A. L. da Cunha, Rua do Pinheiro N.° 1
Ano de publicação: 1847 (escrito em 1845)
Tipo: Monografia estatística e histórica
Origem: Apontamentos escritos originalmente para doação a crianças pobres das escolas primárias da Madeira; publicados em artigos sucessivos no Semana de Beja


Cap. 1 — Situação, forma e estatística urbana

Beja situada “quasi no meio do Alemtejo”, em eminência dominando vastas planícies. Dista de Lisboa 27 léguas, Évora 11, Mértola 9, Serpa 4, Moura 7, Alcácer do Sal 11. Forma elíptica, quase circular.

Estatística urbana (1845)

ItemNúmero
Ruas92
Travessas29
Becos3
Largos3
Alamedas / passeios2 + 2
Poços8
Fonte1
Chafarizes5
Mercados2
Açougues2
Pescadarias2
Estalagens3
Casas de hospedagem7
Tabernas194
Boticas6
Lagares de azeite22
Fábricas de sola2
Fábricas de telha e tijolo2
Litografia1

Construção

Casas de taipa (terra muito comprimida + camadas de cal + pedras + tijolo) — preferida por falta de pedra nas vizinhanças. Pavimentos de tijolo em vez de madeira (fria no inverno). Muitos arcos sobre os quais se construíram casas.

Elementos notáveis

  • Rua da Moeda — recebeu o nome por aí terem sido lavrados Espadins de Ouro no reinado de D. João II (valor: 300 réis; legenda: Joannes Secundus R. Portug. Algarb. Dominus Guineae…)
  • Praça antiga — Largo de Santa Maria da Feira (Paços do Concelho)
  • Praça actual — mandada construir por D. Manuel I; “mui regular, assaz espaçosa, paralelogrammo”
  • Chafariz da Praça / Poço dos Banhos — chafariz de D. Manuel; água do Poço dos Banhos; Álvará de 6 Nov 1567 (Cardeal Infante) obrigava o Senado a pagar 4.000 réis/ano à pessoa que tirasse água para o chafariz; já desaparecido em 1845
  • Pelourinho de Beja — “peça digna de ser conservada”; braços de ferro cortados; conservava a esfera — empresa de D. Manuel I
  • Cabeças de touroAndré de Resende encontrou 10 em tempo de D. Sebastião; em 1845 restavam 7 (2 atrás da Igreja de S. João Baptista, 1 na Torre do Relógio, 1 na Câmara, 1 na Rua do Touro, 1 na muralha fronteira à Igreja do Carmo, 1 no Chafariz do Cano junto aos lagares)

Cap. 2 — Muros e Torre de Homenagem

Muralhas de Beja

  • Muros romanos reedificados por D. Afonso III após destruição pelos Godos, Árabes e naturais
  • Quase 40 torres e outras tantas cortinas (muito arruinadas)
  • 3 portas romanas: Porta de Avis, Porta de Mértola, Porta antiga de Évora (só o pórtico tapado, junto da Torre de Homenagem)
  • Portas modernas: Moura (Lés-Nordeste), Aljustrel (Sudoeste), Évora moderna (Noroeste) + Postigo de N.ª Sra. dos Prazeres / Corredoura (entre Évora e Aljustrel)
  • Muralha exterior (séc. XVII): mandada construir em 1664 (guerra da Aclamação de D. João IV); Marquês de Marialva governava a Província; consultados eng.-mor Luís Serrão Pimentel e outros; contrato com quartel-mestre Luís de La Sellerie; obras começadas 1666, suspensas depois, dinheiro desviado; resultaram: 5 baluartes construídos + 3 apenas delineados em terra

Torre de Homenagem

Mandada construir por D. Dinis. Junto à Porta de Évora, quase ao poente. (Descrição do Panorama N.° 52, 24 Dez 1843):

  • Forma: quadrada na base, 3 corpos
  • Altura total: 180 palmos do chão às ameias
  • 1.º corpo: 55 palmos de largura, 128 palmos de altura até o terrado; 2 salas de abóbada sobrepostas (inferior oitavada, superior quadrada com 23 palmos × 4 janelas — a do Norte em forma de varanda, as outras três com coluna ao meio e 2 arcos ogivais góticos)
  • 2.º corpo: 34,5 palmos alto; sala com uma porta para o terrado
  • 3.º corpo: terrado de 12 × 5 palmos; escadinha de pedra do lado do Ocidente
  • Escada de caracol embutida na parede: 83 degraus + 70 = 183 degraus total; permite duas pessoas a par
  • 1.ª sala serviu de calabouço ao 15.º batalhão
  • Vestígios de casas quase subterrâneas comunicando com outros edifícios — possível Paço de D. Dinis
  • Vista do alto: Guadiana, Castelo de Palmela a 18 léguas, muitas vilas e serras
  • Episódio histórico: Lançarote Peçanha (Almirante de Portugal, partidário de D. Leonor Teles e D. João I de Castela) esteve aqui preso; foi morto cruelmente pelo povo de Beja (Fernão Lopes, Crónica de D. João I)

Cap. 3 — Topografia geral e salubridade

Salubridade

Beja considerada uma das mais saudáveis do Alentejo pela sua elevação e ventos que “lavam” a cidade. Porém:

  • Mito desmentido: os “ares benéficos para moléstias crónicas do peito” são exagerados — os tísicos morriam em Beja todos os anos
  • Rodrigo de Castro (médico antigo) tinha os ares de Beja como proveitosos para tísicos — erro seguido “sem exame até hoje”
  • Médico local (1845): “As agoas de Béja são puras, leves, e pouco abundantes de saes; não teem virtudes que as façam empregar em medicina”
  • Aldeia de Quintos: febres intermitentes endémicas
  • Recomendações do autor: maior asseio das ruas; remoção das esterqueiras dos arredores; limpar os poços ou tapá-los com bombas; arborizar os campos

Cap. 4 — Edifícios Religiosos

Igrejas Paroquiais

IgrejaNotas
Igreja do SalvadorCatedral actual (1845); desadequada para pontifical
Igreja de Santa Maria da FeiraPossivelmente mais antiga; talvez Catedral visigótica ou Mesquita árabe
Igreja de S. Tiago
Igreja de S. João Baptista

Conventos (histórico)

ConventoFundaçãoNotas
Convento de S. Francisco1268 (Lopo Esteves + Diogo Fernandes Esteves + Vasco Martins); D. Afonso III deixou esmola em testamento 1271Fora Porta de Mértola; convertido em quartel do Reg. 11 Infantaria + Teatro (refeitório) em 1834
Convento de S. António1592A norte dos muros; convertido em Hospital Militar
Convento do Carmo1526 (Carmelitas Calçados)S. Miguel da Tapada; Nordeste; vendido ao Ten. Cor. Oliva em 1834
Convento de Santa Clara1340 (D. Afonso IV + D. Beatriz lançaram 1.ª pedra)Estrada de Alcácer; ladrões em 26 Mai 1840 → religiosas transferidas para Esperança; cerca → Cemitério Municipal
Convento da Conceiçãoc. 1460–61 (Infantes D. Fernando + D. Brites, pais de D. Manuel)Dentro da cidade; D. Fernando e D. Brites jazem ali; D. Manuel recomendou-o ao filho D. João III
Convento da Esperança1541 (D. Leonor Collaca; revelação da Senhora da Esperança a D. Leonor)Entre Porta de Mértola e Postigo; Carmelitas Calçadas

S. Sisenando — Mártir de Beja

  • Natural de Beja; Diácono em Córdoba; martirizado em 851 por Abderramen (IV)
  • 1601: relíquia (braço) trazida de Córdoba pelo pedido dos Bejenses ao Bispo D. Francisco de Reinoso; recebida com grande veneração; colocada na Igreja do Salvador
  • 1670: Jesuítas vieram em missão, pregaram na Misericórdia → convidados a ficar
  • 1673: recebem a Igreja de S. Sisenando em doação; obrigam-se a reger Gramática Latina e Moral
  • 1695: D. Maria Sofia de Neuburg (por voto a S. Francisco Xavier) funda o Colégio dos Jesuítas; consignadas rendas
  • Obras do Colégio e Igreja: 1695–1759 (ano da expulsão dos Jesuítas)

Bispado de Beja

  • Criado em 1770 por D. José I — desmembrado do Arcebispado de Évora
  • Edifício dos Jesuítas → Paço Episcopal; Igreja dos Jesuítas → Sé Catedral (em construção ainda)
  • Compreende todo o Distrito de Beja + Santiago do Cacém, Sines (depois do Distrito de Lisboa) + Aguiar (Distrito de Évora)

Série de Bispos (1770–1845):

  1. D. Fr. Manuel do Cenáculo Vilas Boas — sagrado 28 Out 1770
  2. D. Fr. Francisco Leitão de Carvalho
  3. D. Fr. Francisco do Rosário
  4. D. Luís da Cunha d’Abreu e Melo — †8 Ago 1833 (dias da Cólera-morbus)
  5. D. Manuel Pires d’Azevedo Loureiro — entrada em Beja 16 Mar 1844 (actual em 1845)

Outras igrejas

  • Igreja da Misericórdia — na Praça principal
  • N.ª Sra. da Piedade — junto ao Hospital, Porta de Évora
  • N.ª Sra. da Graça / S. Amaro — fora da Porta de Évora, recinto da nova muralha
  • N.ª Sra. dos Prazeres — junto ao Postigo da Corredoura
  • S. Gregório Papa — entre Santa Maria e S. Tiago, perto da Porta de Avis
  • N.ª Sra. da Guia — sobre os arcos da Porta de Avis
  • N.ª Sra. do Carmo — a sul, local da antiga Ermida de Santa Catarina
  • N.ª Sra. do Pó da Cruz — fora da Porta de Moura; local de antigo Hospital da Santa Vera Cruz; sagrada 1778
  • S. Sebastião e S. Marcos — junto ao Convento de S. António
  • Igreja de Santo André — fundada em memória da reconquista de Beja por Fernão Gonçalves em 30 Nov 1162

Cap. 5 — Descrição Histórica

Origens

  • Fundação pelos Celtas antes de Cristo
  • Romanos: Júlio César → Pax Iulia; depois Pax Augusta; Colónia Romana; assento do Convento Jurídico Pacensis (um dos 3 da Lusitânia)
  • Godos: Pacca → Árabes: Bexa / Béja (“não podendo os Árabes pronunciar bem Pax Julia, disserão Baxú, que se corrompeo em Béja”)
  • André de Resende (séc. XVI) estabeleceu a identificação de Béja com Pax Iulia

Reconquista

  • 1.ª vez: D. Afonso Henriques, Dezembro 1159 — abandonada 4 meses depois
  • 2.ª vez (definitiva): Fernão Gonçalves em 30 de Novembro de 1162 (dia de S. André) — daí a Igreja de Santo André

Ducado de Beja

DuqueReinadoNotas
Infante D. FernandoD. Afonso VFilho de D. Duarte, pai de D. Manuel
D. João e D. DiogoFilhos do anterior
D. ManuelIrmão, depois Rei
Infante D. LuísD. João IIIIrmão do Rei
(vago 1554–1654)
Infante D. PedroD. João IV11 Ago 1654; depois D. Pedro II
(Casa do Infantado)D. Pedro IICidade dada ao Infante D. Francisco (com Moura, Serpa, Alconchel)
Infante D. JoãoD. Maria IICarta Régia 17 Abr 1842; 3.° filho da Rainha
  • D. Manuel I dá foral de Cidade em 1517
  • Voto em Cortes — 3.° banco com Faro, Lagos, Leiria, Guimarães, Estremoz, Olivença
  • D. José I restaura Cadeira Episcopal em 1770

Inscrição Romana (na parede da Câmara, há ~300 anos)

L. AELIO AURELIO COMMODO. IMP. CAES. T. AELI HADRIANI ANTONINI AVG. PII PP. FILIO. COL. PAX. IVLIA. D.D. Q. PETRONIO MATERNO. C. IVLIO. IVLIANO. II.VIR.

“A Colónia de Pax Iulia gravou aquela memória ao imperador Lúcio Aurélio Cómodo, filho do Imperador Adriano Antonino Pio, Augusto, Pai da Pátria, sendo Duúmviros Quinto Petróneo Materno e Caio Júlio Juliano.”
Encontrada no sítio da Lobeira (a 1/4 de légua a Oeste da cidade) — André de Resende menciona-a nos Diálogos de Fr. Amador Arraes, Cap. 8.°


Cap. 6 — Instrução Pública (1845)

EstabelecimentoNotas
Escola de Ensino Mútuo (Igreja de S. Sisenando)Aberta 31 Out 1842; 165 alunos; iniciativa de João Francisco de Vilhena (Administrador Geral 1841)
Escola de Ensino Simultâneo
Escola de MeninasProfessora hábil mas superlotada
Aula de LatimProfessor distinto, poucos alunos
Aula de LógicaProfessor distinto, poucos alunos
Aula de FrancêsPaga pela Câmara
1 particular de Latim + 4 de primeiras letras

Financiamento da escola de S. Sisenando: Governo (300.000 rs) + Celeiro Comum de Beja (400.000) + moradores (329.275).

Nota do autor: decadência das letras desde o Bispo Cenáculo — “chamamos sobre este estado de decadência a atenção dos Bejenses”.


Cap. 7 — Naturais de Beja ilustres em Letras

NomeDatasNota
António de Gouveia†Turim 1565Jurista; conselheiro do Duque de Saboia Manuel Felisberto; estimado por Cujácio
Diogo de Gouveia†8 Dez 1557Reitor da Universidade de Paris
Doutor João Afonso de Bejafl. menoridade D. Sebastião”Maior letrado do seu tempo”; parecer devastador sobre a Bula do Subsídio (15 Ago 1585)
D. Fr. Amador Arraes†1 Ago 1600Carmelita; Esmoler-mor do Cardeal D. Henrique; Bispo de Portalegre; Os Diálogos
Jacinto Freire de Andrade†13 Mai 1657Panegirista de D. João de Castro; clássico português
José Agostinho de Macedo†1832Orador; Poema da Meditação; polémico; desacreditou Camões
D. Francisco Alexandre Lobo†9 Set 1844Bispo de Viseu; memórias eruditas

Cap. 8+ — Organização Governativa (1834–1845)

Receita fiscal do Distrito (ano económico 1844–45)

  • Cobrança total: Rs. 75:057$038
  • Receita total (incluindo existência): Rs. 93:988$113
  • Despesa total: Rs. 50:953$940
  • Principais impostos: Décimas, Sizas, Contribuições diversas, Sellos
  • Alfândegas menores: Moura, Serpa, Mértola

Governadores Civis (1834–1845)

  1. Bacharel D. José Félix da Câmara (1834)
  2. Bacharel Justino Máximo Baião Matoso (1837–1840)
  3. Bacharel Henrique d’Azevedo Faro (1840–1840)
  4. Bacharel José das Neves Barbosa (Mar 1842–Ago 1842)
  5. Bacharel António Henriques Porta (1842–1844)
  6. Francisco Romão de Goes (interino, Set 1844–Jan 1845)
  7. Bacharel José Silvestre Ribeiro (desde 27 Jan 1845 — em exercício até Dez 1845)

Nota sobre Félix Caetano da Silva

O autor afirma ter visto o manuscrito das Memórias Históricas das Antiguidades da Cidade de Beja de Félix Caetano da Silva, mas decidiu não usá-lo (explica no último capítulo — não recuperado no texto digitalizado). Refere-o como “um homem immensamente laborioso, natural de Béja” que “reunio com admiravel perseverança uma crescida soma de apontamentos”.


Fontes citadas no documento

  • André de ResendeAntiguidades da Lusitânia, Liv. 4.°
  • Fr. Amador ArraesDiálogos, 3.° diálogo, Cap. 5.° e 8.°
  • Duarte Nunes de LeãoDescrição de Portugal, Cap. 8.°, fl. 21
  • Fernão LopesCrónica de D. João I
  • Crónica Seráfica — sobre a fundação do Convento de S. Francisco (Liv. 4.°, Cap. 10, p. 170)
  • Fr. Joaquim de Santo AgostinhoMemória sobre as Moedas do Reino
  • Félix Caetano da SilvaMemórias Históricas das Antiguidades da Cidade de Beja (manuscrito)
  • Panorama N.° 52, 24 Dez 1843 — descrição da Torre de Homenagem
  • João Baptista de CastroMapa de Portugal

Como citar

Referência (APA): Ribeiro, José Silvestre (1847). Beja no Anno de 1845 (monografia estatística e histórica).

Tags

1845 estatística José Silvestre Ribeiro muralhas Torre de Homenagem conventos igrejas Ducado de Beja Pax Iulia reconquista D. Dinis D. Manuel D. João IV instrução pública naturais de Beja Cenáculo S. Sisenando Bispado de Beja armas de Beja cabeças de touro pelourinho Rua da Moeda inscrição romana Félix Caetano da Silva André de Resende