Muralhas de Beja

Sistema defensivo de Beja com múltiplas camadas históricas - romanas, medievais e do século XVII.

Muralha romana / medieval

  • 3-2 a.C. - o próprio Imperador Augusto ofereceu as muralhas, torres e portas à Colonia Pacis Iuliae - comprovado por inscrição monumental encontrada em 1879 junto à Porta de Avis (ver Inscrição Monumental de Pax Iulia (José D’Encarnação))1
  • Muros romanos reedificados por D. Afonso III após destruição sucessiva2
  • Quase 40 torres e outras tantas cortinas (muito arruinadas em 1845)3
  • Em 1845, José Silvestre Ribeiro classificava como romanas as portas de Avis, Mértola e a antiga porta de Évora, então tapada junto da Torre de Homenagem. Trata-se da interpretação oitocentista do autor, não de uma identificação arqueológica actual.3
  • O mesmo autor distinguia como modernas as Portas de Moura, a Porta de Aljustrel, a porta nova de Évora e os postigos da Corredoura e de N.ª Sra. dos Prazeres.3
  • 1509-1514 - o tombo concelhio regista casas, azinhagas e antigos terrenos municipais encostados ou confinantes com o muro; em 1514, Gomes de Carvalho recebeu um chão para casa entre o “hospital novo” e a muralha4

Anatomia (manuscrito anónimo de 1868-9)

A descrição mais detalhada vem de um manuscrito da colecção do P. José Inácio de Mira (ver Muralhas de Beja (transcrição de Marta Páscoa, 2023)):

  • Dois lanços concêntricos: muralha principal (lanço superior) sobre uma barbacã/contra-muro (lanço inferior), que formava um terrado defensivo em torno da base2
  • 36 cortinas + 36 baluartes nos vértices de um polígono quase regular, mais 4 baluartes maiores (~40 no total); varandas com frestas e setteiras; fossos em redor2
  • Critério romano vs. afonsino: o romano é maciço; a “fábrica afonsina” tem só paramentos de pedra com taipa (terra batida) no interior - marca da pressa da reedificação de Afonso V (ou III)2

Muralha exterior (séc. XVII)

  • 1664 - D. João IV ordena construção de nova cintura defensiva (contexto: Guerra da Restauração)5
  • Marquês de Marialva governa a Província; eng.-mor Luís Serrão Pimentel consultado5
  • 1666 - obras começadas; quarteirão-mestre Luís de La Sellerie superintende5
  • Obras suspensas (dinheiro desviado); resultado: 5 baluartes construídos + 3 apenas delineados em terra5

Portas atribuídas ao período romano

A identificação e a restituição das portas de Pax Iulia permanecem desiguais e, em alguns casos, discutidas. A classificação oitocentista de três portas não deve ser tomada como inventário arqueológico moderno.

Materiais romanos reutilizados

No Torreão Sul das Muralhas da Rua Dom Manuel I, uma intervenção de 2004 revelou a provável placa funerária FE 483, embutida no aparelho exterior. Na mesma área observaram-se blocos de opus caementicium e um fragmento de fuste de coluna em gabro-diorito, também reaproveitados na construção medieval.8

No Parque Vista Alegre, a intervenção de 2015-2016 identificou os fragmentos FE 594 na face externa da muralha, além de numerosos blocos de opus caementicium, elementos arquitectónicos romanos, pilastras visigóticas e uma cabeça de touro incorporados no aparelho medieval. Os dois fragmentos de cupae permaneciam embutidos próximos um do outro no sector este.9

No Torreão Norte das Portas de Mértola, junto à Caixa Geral de Depósitos, encontra-se a cupa FE 636. O fragmento epigrafado de mármore de Trigaches foi integrado num cunhal do aparelho medieval e permanece embutido na face oriental.10

No logradouro do Centro UNESCO de Beja, a reabilitação de 2018 deixou visível uma pequena área do paramento interior onde Miguel Serra identificou o fragmento FE 694. O bloco de mármore de Trigaches conserva aros de aduela, mas perdeu o campo epigráfico.11

A inscrição CIL II 49, criada provavelmente para o fórum no reinado de Tibério, foi vista por André de Resende reutilizada nas muralhas. A ordem da descrição permite situá-la, com reserva, entre as Portas de Moura e a Porta de Mértola. Mais tarde, a pedra foi levada para a Quinta da Mangiralda, onde foi reencontrada em 2014.12

Uso militar em 1808

As muralhas ainda eram defensáveis na Guerra Peninsular: no Saque de Beja de 1808, a cidade apresentava-se “cercada de altas muralhas com as portas barricadas”, arrombadas a machado pelas tropas de Maransin.13

Dados gerais

  • Perímetro: ~2 km; área intramuros: ~30 ha6
  • Última restauração sistemática: anos 1940 (Monumentos Nacionais)6
  • Trecho demolido após 1790 para materiais da Sé Catedral6

Ligações

Tags

Arqueologia Romano Medieval

Notas

  1. Inscrição Monumental de Pax Iulia (José D’Encarnação)

  2. Muralhas de Beja (transcrição de Marta Páscoa, 2023) 2 3 4

  3. Beja no Anno de 1845 (José Silvestre Ribeiro) 2 3

  4. Tombo dos Bens do Concelho de Beja (João Pedro Vieira, 2018) 2

  5. Beja na Guerra da Restauração - ver La Frontera del Alentejo durante la Guerra de Restauración (Ana Teresa de Sousa) 2 3 4

  6. A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes) 2 3 4 5 6 7

  7. Porta Romana Inédita em Beja (Leonel Borrela)

  8. Inscrição Funerária Romana nas Muralhas de Beja (D’Encarnação e Serra, 2013)

  9. Fragmentos de Cupae nas Muralhas de Beja (Miguel Serra, 2017) 2

  10. Cupa do Torreão das Portas de Mértola (D’Encarnação e Serra, 2018) 2

  11. Novo Fragmento de Cupa na Muralha de Beja (Miguel Serra, 2019) 2

  12. Um Flâmine de Tibério em Pax Iulia (D’Encarnação e Feio, 2014) 2

  13. As Movimentações Militares do Exército Napoleónico no Alentejo 1807-1808 (José Luís Assis)