Torre de Homenagem
Torre medieval de Beja, mandada construir por D. Dinis.1 Situa-se junto à Porta de Évora, quase ao poente do recinto amuralhado.
Descrição (1845)2
- Forma quadrada na base; 3 corpos; 180 palmos de altura total
- 1.º corpo: 55 palmos de largura; 2 salas sobrepostas com abóbada (a inferior oitavada, a superior quadrada com 4 janelas góticas)
- Escada de caracol embutida na parede: 83 + 70 = 183 degraus totais
- Vista do alto: avista-se o Guadiana, o Castelo de Palmela (18 léguas), inúmeras vilas e serras
Episódio histórico
Lançarote Pessanha (Almirante de Portugal, partidário de D. Leonor Teles) esteve aqui preso; foi morto cruelmente pelo povo de Beja (Fernão Lopes, Crónica de D. João I).2
Abóbada polinervada do 2.º piso
A abóbada do 2.º piso (planta octogonal) forma uma estrela de 8 pontas de terceletes entrecruzados — considerado caso único na arquitectura portuguesa por Pedro Dias. As mísulas apresentam motivos antropomórficos (figuras em posição de atlantes, inspiradas em iluminuras). Provável construção na época de D. Manuel (séc. XVI, inícios).3
Arte mudéjar4
Portais em alfiz, janela de arco de ferradura sob o machicoulis, abóbada oitavada de fecho único com trompas e mísulas — “um dos melhores exemplos da conjugação medieval entre as arquitecturas gótica e muçulmana”.
Origem islâmica ou dionisiana?5
Borrela (1996) questiona a atribuição a D. Dinis: não existe qualquer prova heráldica nem epigráfica da fundação dionisiana. As 4 faces são desiguais entre si; sem simetria interior. Todos os vãos principais seguem a tradição islâmica do alfiz: portal de entrada; escada de caracol ao 2.º piso (originalmente ameado com frestas); janela de arco de ferradura entre 2.º e 3.º piso; três trompas com mísulas alveoladas tipo estalactites. Borrela conclui: se D. Dinis construiu uma torre, ou não se concluiu ou foi demolida para dar lugar à actual — “muito mais islâmica do que dionisiana”.
Restauro e iconografia6
Um dos três elementos da “trilogia” identitária de Beja (com o brasão e Mariana Alcoforado). Num postal da I República, o remate “denteado” foi reconstituído virtualmente antes das obras reais da DGEMN (~20 anos depois).
Fontes
- Beja no Anno de 1845 (José Silvestre Ribeiro) — descrição do Panorama N.° 52, 24 Dez 1843
- Muralhas de Beja
- Uma Trilogia de Beja (Leonel Borrela)
- Castelo de Beja — Série 1996 (Leonel Borrela)
- Castelo de Beja (Isabel Mendonça, 1993) — IPA, abóbada polinervada, 6 inscrições, cronologia completa