Muralhas de Beja (transcrição de Marta Páscoa, 2023)
Transcrição paleográfica por Marta Páscoa de um manuscrito anónimo intitulado Muralhas de Beja, escrito entre 1864 e 1869 e pertencente à colecção do P. José Inácio de Mira (que reunia testemunhos sobre a história da cidade). É uma descrição minuciosa do sistema defensivo de Beja num momento em que a muralha já estava arruinada — distinguindo a obra romana da medieval.
🧱 Fonte de eleição para a anatomia das Muralhas de Beja e das suas portas. O autor deixou espaços em branco para direcções e medidas (talvez para completar depois).
A muralha romana (anatomia)
- A muralha era o objecto de antiguidade romana mais notável de Beja, hoje “uma sombra do que foi”
- Dois corpos/lanços concêntricos: o lanço superior (muralha principal) sobre um lanço inferior (barbacã / contra-muro), formando um terrado em torno da base
- 36 cortinas correspondentes aos lados de um polígono quase regular + 36 baluartes nos vértices, mais 4 de dimensões superiores (~40 no total; 39 ainda contáveis por entre as edificações)
- Baluartes de “bom trabalho e acabamento”, com cunhas/pedras faceadas, varanda guarnecida de parapeitos com frestas e setteiras; acesso por escada estreita virada para o interior
- Argamassa romana com grande quantidade de pedra britada — tão tenaz que “parece continuação das pedras”
- Fossos em redor (hoje adivinhados em “covas alongadas” e ruas pouco fundas)
Romano vs. afonsino (como distinguir)
O critério mais seguro: o que é romano é tudo maciço; o que é “fábrica afonsina” tem só uma parede de pedra por fora e por dentro, com terra batida (taipa) no interior — sinal da pressa da reedificação.
- A muralha foi reparada 3 vezes: no tempo de D. Afonso III, no do “monarca agricultor e literato”, e durante as lutas liberais entre os filhos de D. João VI
- D. Afonso V (corrigido em nota: provavelmente Afonso III) reedificou as muralhas e estabeleceu as mourarias — em Beja, o bairro dos mouros deu origem ao arrabalde do Pé da Cruz (ver Mouraria de Beja); as portas fechavam-se sobre eles à noite
As portas
- Três portas romanas: Porta de Avis e Porta de Mértola (ainda abertas) e a antiga Porta de Évora (tapada de alvenaria, dando para um quintal; talvez fechada no tempo de D. Dinis, ao construir-se o castelo e a Torre de Homenagem)
- Porta de Avis — o nome viria de uma ave/águia romana gravada em pedra num cunhal (símbolo do poder romano; do latim avis = ave, daí “Avis”, e não a vila de Avis); no cunhal fronteiro, um letreiro de várias linhas ilegível pelo desgaste
- Porta de Mértola — mesmo risco, aberta entre dois baluartes gigantescos
- Portas de Moura — o autor duvida da origem romana: não têm baluartes flanqueadores e abrem-se numa cortina junto de um baluarte comum; derrubadas nos anos 1850; o nome talvez dado por Afonso V por delas saírem os mouros para o Pé da Cruz
- Porta de Aljustrel e o postigo dos Prazeres — do tempo de D. Dinis (quando refez o lanço entre as portas de Évora e de Mértola), conhecidos de uma lápide
- Porta Nova — postigo aberto c. 1560-1565 por licença do Cardeal Infante D. Henrique (cartas de 1560 e 1565 à Câmara), para o mestre Manuel Gonçalves trazer materiais para as obras da Igreja do Salvador
Entidades mencionadas
- Pessoas: Marta Páscoa (transcritora) · P. José Inácio de Mira (colecção) · Manuel Gonçalves (mestre de obras)
- Locais: Muralhas de Beja · Porta de Avis · Porta de Mértola · Porta de Évora · Portas de Moura · Porta de Aljustrel · Porta Nova · Torre de Homenagem · Igreja do Salvador
- Temas: Mouraria de Beja · Pax Iulia — Roma em Beja · Urbanismo Romano de Pax Iulia
Documentos relacionados
- Inscrição Monumental de Pax Iulia (José D’Encarnação) — a inscrição de Augusto sobre as muralhas, torres e portas (achada junto à Porta de Avis); o “letreiro ilegível” deste manuscrito pode relacionar-se com ela
- O Imperador Augusto deu a Beja um Grande Presente! (José D’Encarnação, 2022)
- Beja no Anno de 1845 (José Silvestre Ribeiro) — descrição quase contemporânea das mesmas muralhas
Como citar
Referência (APA): Páscoa, Marta (transcr.) (2023). Muralhas de Beja [transcrição de manuscrito anónimo, c. 1864-69, col. P. Mira].