Hospital de Nossa Senhora da Piedade

Hospital histórico de Beja, o “Hospital Velho”. Iniciativa do infante D. Fernando; o filho D. Manuel I redimensionou-o e deu-lhe o nome definitivo de Nossa Senhora da Piedade, com construção a começar em 1490.1

Concentrou num só edifício as várias casas de assistência dispersas — a Gafaria de São Lázaro, o Hospital de São Brás, o Hospital dos Palmeiros e o Hospital dos Meninos (enjeitados).1

Organização (Regimento de 1511)1

  • Tombo primitivo de 1490; Regimento editado por D. Manuel em 1511 (manuscrito por André Pires)
  • Edifício à volta de um claustro: igreja, enfermaria, casa dos orates (grades de ferro), casa do torno (enjeitados), celeiro, botica, ~40 camas
  • Geria-o um Provedor; o físico do Convento da Conceição visitava os doentes duas vezes ao dia
  • Apontado como o primeiro dos grandes hospitais modernos de Portugal (anterior ao de Todos-os-Santos, 1492)

Arquitectura (segundo Borrela)

  • Cisterna de portal manuelino ao centro; claustro com deambulatório, enfermarias de dois sexos, portaria, botica e capelas; enfermaria de duas naves (antigo Recolhimento dos Orates, “raro em Portugal”).2
  • Heráldica real dispersa pelo edifício: esferas armilares, cruzes de Cristo, escudo de D. João II (castelos invertidos, pré-reforma de 1485) e de D. Manuel I.2
  • Abel Viana destacou o edifício: “em Beja, segundo penso, terão ocorrido os alvores desta transformação da primeira arte” (do gótico para o manuelino).2

A Misericórdia e a administração do Hospital

A Santa Casa da Misericórdia de Beja foi criada por carta régia de D. Manuel em 1500; não tinha edifício próprio e estabeleceu-se na Igreja de Santa Maria da Feira. O edifício da Igreja da Misericórdia (na Praça) resultou da conversão dos açougues do Infante D. Luís, por deliberação da Câmara em 4 de Junho de 1550. Em 1554 o Hospital passou à administração da Confraria.3

Borrela sustenta que o edifício deve chamar-se “Hospital de N.ª Sra. da Piedade” — a “Misericórdia” designa a Confraria administradora, não o hospital. Alvará original de D. Manuel: 20 pobres em contínuo; 9 moios de trigo/ano; 5 réis de conduto/dia; pessoal: capelão (2.000 réis/ano), provedor (6.000), enfermeiro (6.000 + 1 moio de trigo), cozinheira (3.000 réis, com obrigação de administrar enemas), casal de escravos (80 alqueires de trigo + roupas).3

Igreja de Nossa Senhora da Piedade — análise arquitectónica

O estudo arquitectónico de Leonel Borrela (1987) revela camadas construtivas ocultas pela reforma de meados do século XVIII.4

O portal principal da igreja é obra barroca do final do século XVII ou inícios do XVIII. O brasão de D. Manuel I que o encima é, na verdade, um fecho de abóbada reutilizado (60 cm de diâmetro, para oito nervuras), com traços de pintura avermelhada, proveniente de uma abóbada estrelada desaparecida — provavelmente do Convento de S. Francisco ou da Conceição. Dois contrafortes de cantaria ladeiam o portal; um óculo gótico de 1,4 m de diâmetro (com quatro “bexigas natatórias de peixe”) jaz oculto na ábside original entre os velhos contrafortes.

O auto de medição de 1681 regista a igreja primitiva com 6,75 × 6 varas (c. 7,4 × 6,6 m); a expansão para 9 × 6,75 varas implicou demolir a abóbada original e construir uma nova, transversal à anterior.

A talha dourada barroca que reveste as paredes interiores não é original da Igreja da Piedade: proveio da capela dos Terceiros de S. Francisco e da capela-mor da Igreja de S. Francisco, transferida em 1855 quando aquela ordem foi extinta. O solo junto ao altar-mor conserva azulejos de aresta sevilhanos similares aos da Sala Capitular da Conceição.

Em Dezembro de 1986, Borrela descobriu (com José Lourenço e Francisco Alvito), por detrás do altar do Sagrado Coração de Maria, uma capela-mor totalmente pintada a óleo, dedicada a Nossa Senhora da Piedade. A pintura — barroquismo de finais do século XVII — inclui motivos de acanto e instrumentos do martírio de Cristo, com a inscrição Qui vult venire post me, tolat crucem suam et sequatur me. Ficou oculta desde 1855 pela talha franciscana.

Os contrafortes siglados da igreja têm traçado semelhante aos da capela-mor da Conceição, datados o mais tardar de 1495, confirmando a contemporaneidade das obras.4

Fecho de abóbada da enfermaria — “Milagre de São Bartolomeu”

Na enfermaria gótica (nave adossada à muralha), o 4.º tramo tem um fecho de abóbada figurativo em mármore acinzentado de Trigaches/São Brissos (30 cm de diâmetro): uma criança acorrentada pelo pescoço e um homem barbado que a controla — interpretado por Borrela como o milagre de São Bartolomeu a aprisionar o demónio, um gesto de protecção dos doentes.5

Outros fechos da enfermaria incluem: cruz da Ordem de Cristo; vaso/árvore da vida; cinco pombas; lua cheia.5

Nota cronológica: a fundação é atribuída a 1490 (D. Manuel enquanto duque), mas alguns pormenores construtivos apontam para 1469 (primeiro ducado do infante D. Fernando, pai de D. Manuel).5

Do “Hospital Velho” ao novo hospital

  • Administrado pela Santa Casa da Misericórdia de Beja; no séc. XX os Monumentos Nacionais impediam obras1
  • Funcionou até à inauguração do Hospital José Joaquim Fernandes em 19701
  • Em 1845 ainda servia a cidade com enfermaria e botica6
  • 1990: instalação do Instituto Superior de Serviço Social de Beja e da Universidade Moderna; 2006: classificação como Monumento Nacional7

Pinturas atribuídas a André Reinoso

Os alçados interiores têm pinturas a óleo da primeira metade do séc. XVII atribuídas a André Reinoso.7

Fontes

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Footnotes

  1. Hospital José Joaquim Fernandes — 50 Anos de História Falada (Florival Baiôa Monteiro, 2025) 2 3 4 5

  2. Hospital da Misericórdia de Beja (Leonel Borrela, 1997) 2 3

  3. Do Espeto à Misericórdia de Beja (Leonel Borrela, 2006) 2

  4. Hospital Grande de Nossa Senhora da Piedade — A Igreja (Leonel Borrela, 1987) 2

  5. O Misterioso Fecho de Abóbada do Hospital Velho (Leonel Borrela, 2012) 2 3

  6. Beja no Anno de 1845 (José Silvestre Ribeiro)

  7. Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Beja (Isabel Mendonça, 1993) 2