Castelo de Beja

O conjunto defensivo que envolvia a cidade medieval de Beja, implantado no extremo noroeste do outeiro sobre o qual se estende a malha urbana. Constitui o monumento nacional mais emblemático da cidade e é composto por castelejo, Torre de Homenagem, barbacã, e pelo vasto circuito de muralhas medievais com as suas portas e torres.

O castelejo

Planta pentagonal irregular. A Torre de Homenagem - com c. 40 m de altura (considerada a mais alta de Portugal) - projecta-se no vértice noroeste e tem 3 pisos:

  • 1.º piso: cúpula poligonal de nervuras sobre meias colunas, com trompas de ângulo.
  • 2.º piso (octogonal): abóbada polinervada de combados formando estrela de 8 pontas com terceletes entrecruzados - considerado caso único na arquitectura portuguesa por Pedro Dias; mísulas com figuras antropomórficas em posição de atlantes.
  • 3.º piso: abóbada de cruzaria de ogivas.

A Casa do Governador tem janelas maineladas de arco cairelado em tijolo, de feição manuelino-mudéjar.

A cerca muralhada

A muralha medieval que rodeava a cidade era reforçada por 40 torres e rasgada por 7 portas. Subsistem parcialmente:

  • Porta de Évora (Arco Romano): arco de granito de volta perfeita com máscara humana no vértice; calçada romana por baixo; destruída no séc. XIX e reconstruída pela DGEMN em 1938.
  • Porta de Avis: arco redondo de impostas molduradas semelhante ao da Porta de Évora; arco demolido em 1893 com a Ermida de Nossa Senhora da Guia.
  • Portas de Moura: arco elevado com dois medalhões (cordeiro pascal + escudo cego); reconstruída em 1867.
  • Porta de Mértola: subsistem as 2 torres flanqueantes.
  • Postigo da Corredoura / de N.ª Sra. dos Prazeres.
  • Porta de Aljustrel.

Inscrições epigráficas

Seis inscrições documentadas:1

  1. 1619 - “A Virgem Maria Nossa Senhora foi Concebida Sem Pecado Original 1619” (granito)
  2. Homenagem a João das Dores Graz[…] - Combate de Mancua, 18 Ago 1915 (séc. XIX)
  3. Tampa funerária gótica: “aqui jaz Diogo […] criado do bispo d[…]”
  4. Inscrição judaica (CEMP n.º 10) - cipo; documenta a vizinha Judiaria de Beja (“para os lados da Porta de Avis, Rua dos Sarilhos”)
  5. 1347 (Era Hispânica: “Era Mil e CCC LXXXV anos”) - obras pelo vedor João Domingues de Beja e Afonso Mendes (CEMP 612)
  6. 1507 - Tampa em calcário negro da Meuse (tipo idêntico ao da Sé do Funchal): “Aqui jaz Afonso Vaz Viegas […] faleceu a nove dias de Março de 1507”

Materiais romanos reutilizados

Na alcáçova são visíveis algumas dezenas de fragmentos de cupae romanas, reconhecíveis pelas decorações laterais em meia circunferência com arcos interiores e por aros de uma ou duas aduelas. O conjunto permanece por inventariar sistematicamente e testemunha a reutilização de monumentos funerários na fortificação medieval.2

Durante a recuperação da barbacã nordeste foi identificada a Placa Funerária do Castelo de Beja (FE 863), reutilizada na base das escadas à direita da entrada na Praça de Armas do Castelo. A inscrição recorda uma pessoa de trinta anos, mas a sequência TERTI não permite determinar o nome completo ou o sexo.3

Cronologia

  • Séc. III/IV (conjectural) - muralhas romanas de “Pax Julia”, incluindo o Arco Romano / Porta de Évora
  • 1253 - D. Afonso III inicia a reconstrução da fortaleza “muito arruinada”1
  • 1307 - construção de torre da muralha (inscrição num silhar com decoração visigótica; MRB n.º MRB.1.53)
  • 1310 - D. Dinis manda construir a Torre de Homenagem1
  • 1347 - obras pelo vedor João Domingues de Beja e Afonso Mendes (inscrição n.º 5)1
  • Séc. XVI, inícios - grandes obras de beneficiação por D. Manuel; provável construção da abóbada polinervada do 2.º piso
  • 1664 - projecto de reforço com baluartes por Nicolau de Langres, aprovado por Luís Serrão Pimentel e pelo general Agostinho de Andrade Freire1
  • 1669/1679 - execução superintendida por João Coutinho, Diogo de Brito de Castanheda e Manuel Almeida Falcão1
  • 1790 - demolição de parte da muralha para a nova igreja do Colégio dos Jesuítas e Paço Episcopal
  • 1867 - reconstrução das Portas de Moura
  • 1869 - demolição da Porta Nova de Évora
  • 1893 - demolição da Ermida de Nossa Senhora da Guia e do arco romano da Porta de Avis
  • 1938 - DGEMN reconstrói o Arco Romano / Porta de Évora
  • Déc. 1960 - arranjo paisagístico das muralhas pelo arq. paisagista António Viana Barreto
  • 2014, Nov - encerramento da Torre de Menagem (queda de varandim)1
  • 2016, 19 Jul - reabertura ao público1

Fontes

Tags

Arqueologia História militar Património Medieval

Notas

  1. Castelo de Beja (Isabel Mendonça, 1993) 2 3 4 5 6 7 8 9

  2. Fragmentos de Cupae nas Muralhas de Beja (Miguel Serra, 2017) 2

  3. Inscrição Funerária do Castelo de Beja (Jorge Feio, 2023) 2