A História da Água de Beja — Do séc. XV a 1960
Autora: Marta Páscoa
Encomendado por: EMAS (Eng. Rui Marreiros, Administrador Executivo), com colaboração da Dr.ª Maria João Macedo (CMB Turismo)
Ano: 2013 (estudo) · publicado em livro pela EMAS em 2019 (ISBN 978-989-20-9256-x; Dep. Legal 453829/19; 500 exemplares; capa: vala da conduta das Terras Frias, AMB322)
Páginas: 62
Tipo: Estudo histórico monográfico
Nota de edição: o PDF “A história da água de Beja do séc. XV a 1960” (digitalização da edição EMAS de 2019) é a mesma obra aqui descrita — não foi criada nota separada (conteúdo integralmente coberto). Existem na pasta de origem outras cópias/digitalizações do mesmo livro.
Âmbito e limites
O estudo cobre o abastecimento de água à cidade de Beja desde a primeira documentação escrita disponível (séc. XV) até 1960, ano em que terminou a primeira fase de canalização domiciliária generalizada. A autora excluiu deliberadamente:
- O período romano (mereceria estudo próprio em parceria com arqueólogos; há informação nos manuscritos sobre cloacas e balneários)
- O período pós-1960 (matéria de engenheiros, não historiadores)
Lacuna documental grave: O incêndio na Câmara Municipal de Beja em 1947 destruiu as actas de vereação do período 1854 – c. 1930.
Fontes primárias e arquivos
Arquivos consultados
| Sigla | Arquivo |
|---|---|
| ADB | Arquivo Distrital de Beja |
| AEM | Arquivo Histórico da EMAS |
| AMB | Arquivo Municipal de Beja |
| ANTT | Arquivo Nacional da Torre do Tombo |
| CMB | Câmara Municipal de Beja |
Fontes manuscritas principais
P. José Inácio de Mira (manuscritos de 1869, 1874 e s/d) — grande estudioso bejense do séc. XIX; examinou os livros mais antigos da câmara e descreveu todos os poços e fontes. Base documental de Túlio Espanca. Depositados no ADB (Fundo Mira, cx. 3).
Fr. Francisco de Oliveira (séc. XVIII) — manuscritos transcritos pela autora para a sua tese de mestrado (Fr. Francisco de Oliveira — A escrita da História no século XVIII, FLUL, 2002). Cita o Tombo dos bens do Concelho mandado fazer por D. Manuel I.
Félix Caetano da Silva — Memórias Históricas das Antiguidades da Cidade de Beja (ADB, Fundo Félix Caetano da Silva, nº 9)
P. Pedro Pires Nolasco Serrano (1732) e sobrinho P. António Pires Nolasco Serrano (resposta ao inquérito de 1755) — Fundo Mira, nº 13, cx. 1
Túlio Espanca — Inventário Artístico de Portugal, Distrito de Beja, Academia Nacional de Belas Artes, 1992, vol. I
Documentação camarária principal
- Tombo dos bens do Concelho (1643–1745) — ADB, D1.E48.P7.Cx.0031 — descreve todos os poços, chafarizes e fontes com dimensões e localização
- Livro 1.º de Posturas (1576–1604) — ADB, D1.E48.P7.Cx.0025
- Livro de Posturas (1738–1816) — ADB, D1.E48.P7.Cx.0027
- Actas de Vereação: Liv. 16 (1589), Liv. 18 (1591), Liv. 39 (1624), Liv. 40 (1625), Liv. 54 (1639), Liv. 124 (1735), Liv. 125 (1738)
- Tombo dos bens da Gafaria (1509) — Fundo Santa Casa da Misericórdia, liv. 311
- Tombo dos Bens do Hospital de Nossa Senhora da Piedade (1509) — Liv. 243
- Chancelaria de D. João I, Liv. 3, fl. 36 — doação do Poço dos Banhos ao Concelho (1432)
Parte I — Do século XV ao século XIX
Papel do Concelho
As Ordenações Afonsinas, Manuelinas e Filipinas prescreviam que os vereadores eram responsáveis por manter “os caminhos, fontes, e chafarizes, pontes, e calçadas, e poços do Concelho”. A limpeza dos chafarizes competia aos rendeiros das rendas da cidade, três vezes por ano (Abril, Julho, Novembro). Multas para infractores.
Distinção da época entre equipamentos:
- Poços e fontes → para beber pessoas
- Chafarizes → para as bestas (animais)
- Porcos → proibidos em todos; encaminhados ao ribeiro das hortas / rio Verdelho
Problemas recorrentes: lavagem de roupa, lançamento de imundícies, furagem dos chafarizes pelos hortelões para regar as hortas, uso de caldeirões para tirar água com rapidez prejudicando o nível.
D. Manuel I mandou fazer o Tombo dos bens do Concelho. O tombo original não chegou até nós mas foi lido por Fr. Francisco de Oliveira no séc. XVIII.
Inovação do séc. XIX: introdução de bombas de água em vários poços → resistência violenta dos aguadeiros (açacais), que viviam da venda de água.
Catálogo de Poços e Equipamentos
POÇOS URBANOS (coração da cidade — todos desaparecidos)
Chafariz da Praça e Poço dos Banhos
- Localização: lado direito da Praça da República (frente à Misericórdia)
- Origem: termas/banho romano + poço muito antigo
- 1432: D. João I doa ao Concelho o poço e casa “em que soíam estar banhos” (Chancelaria D. João I, Liv. 3, fl. 36)
- D. Manuel mandou construir o chafariz na abertura da praça; funcionava com nora mourisco coberto com telhado de quatro águas sobre arcos de tijolo; arcada de 6 colunas redondas lisas
- 1513: provisão reclama da doação da “casa do poço dos banhos” a Álvaro Fernandes
- 1516: provisão de D. Manuel I dando a Duarte Martins o encargo do chafariz
- 1619: redução do chafariz (demasiado saliente em relação aos edifícios vizinhos)
- 1625: obra do engenho do poço e portas do touril
- 1639: Câmara manda limpar e arranjar; proposta de instalação de guarda/aferidor
- 1654: Tombo — “nora mourisco coberta com telhado de quatro águas sobre arcos de tijolo”; 10 varas menos um palmo de comprimento, 2 varas e um palmo de largo
- 1729: ainda em uso
- 1738: chafariz sem água (Livro de Posturas)
- 1869: Câmara cede chafariz a Francisco Mateus Palma; cantaria usada no Tanque da Suratesta
- Estado actual: poço num quintal particular atrás das casas da praça; vegetação exuberante
- Também: Poço do Arrabalde da Graça / Poço de Nossa Senhora da Graça
- Localização: Largo de Santo Amaro, lado direito da Rua Nova (saída pela Rua de 11 de Outubro / ant. Portas de Évora)
- 1509: referência no Tombo dos bens da Gafaria (junto à Rua das Adegas)
- 1616: Câmara manda obras — pedras “com seus gatos de ferro chumbado”; adjudicada a Estevão Rodrigues por 4500 réis
- Tapado após morte por afogamento; P. Mira crê que depois de 1824
- Nota: possível ligação ao assentamento de cristãos-novos da judiaria de Santiago Maior
- Localização: pequeno triângulo da Rua Ancha, junto a Passo da Via Sacra
- Tapado e entulhado em 1843 na visita da Rainha D. Maria II a Beja; percurso do cortejo passava por ali
- P. Mira não encontrou informações nos Livros da Câmara
- Localização: meio da Rua do Esquível, perto da Travessa da Gata / Travessa do Esquível
- Água doce, pequena nascente
- Nome: família “Correias” que ali morou (fins séc. XVIII / início XIX); ao tempo de P. Mira, família Pinheiro
- Inutilizado por volta de 1860; substituído por marco fontanário no séc. XX
- P. Mira: veio diferente do poço da família Pinheiro (não se exauriam mutuamente)
- Possivelmente o mesmo que Fr. Francisco de Oliveira chama “poço novo da rua do Esquível”
Poço do Ouro ou de S. Gregório
- Localização: confluência da travessa de S. Gregório com a Rua de S. Gregório
- “Era de pequena nascente e quase se inutilizou por si próprio”
- 1509: Tombo da Gafaria — aforamento de casas “acima do Poço do Ouro”
- 1683: menção em actas de vereação
- Tapado c. 1840 quando a rua foi calcetada
- Terá servido a antiga Judiaria (traseiras de Santiago Maior até à Porta de Avis)
- Localização: Rua do Ulmo (desce do Largo dos Duques de Beja para a ant. Rua da Capelinha), no encontro das duas ruas
- Bocal redondo, todo de alvenaria; pequena nascente
- 1658: menção como “Poço da Rua de João Gomes” em livro de vereações (P. Mira)
- Inutilizado em 1843
- Localização: junto à Porta de Avis, na antiga Judiaria
- Confrontava com ruas da Guia, do Forno e do Sarilho
- Referido por Fr. Francisco de Oliveira como um dos 6 poços ao serviço da cidade (séc. XVI)
- Tombo dos bens da Gafaria: Câmara aforou chão para Manuel Vieira construir casa
- Localização: entre edifício dos Correios e mercado municipal; junto à cerca do Convento de S. Francisco
- Bocal redondo, guarnecido de pedra, “sendo o mais de alvenaria”; água salobra
- Séc. XVI: já referido; 1645 Tombo confirma localização
- Servia para dar de beber a animais
- Esteve sempre destapado dia e noite — “desgraças” ocorreram
Poços concelhios em pátios particulares
- Terreiro de Santa Maria: casa “do Machado” e “Dr. Nobre” (não abertos ao público)
- Fr. Francisco de Oliveira lista: 1. Romão da Costa; 2. Fundo da Rua de Aljustrel; 3. D. Filipa; 4. Vigário Geral
- O nº 4 (Vigário Geral) possivelmente o da casa de Miguel Jácome Esquível
- Localização: fora dos valados das Alcaçarias, freguesia do Salvador, lado nascente, declive para via-férrea
- Tanque quadrado; água vinha de “pedras escorregadias” por um “delgado canudo de ferro”
- Azulejos com Nossa Senhora da Piedade (séc. XIX)
- 1613: Câmara manda reparos no tanque e encanamento
- Décadas 1860: empresa da via-férrea mandou arranjar a fonte e o caminho
- Séc. XX: linha do Algarve deixou a fonte “entalada” entre as duas linhas; a Travessa da Fonte Santa perdeu a saída
- Estado actual: constitui anexo a uma casa particular; sem azulejos; local descaracterizado
POÇOS E CHAFARIZES DAS ENTRADAS DA CIDADE (arrabaldes)
Modelo decorativo dos chafarizes (séc. XVI–XVII): parede atrás com ameias, armas reais e cabeça de touro (armas do concelho). A água jorrava pela boca da cabeça de touro.
- Localização: junto à horta e Convento de Santa Clara (a cerca é hoje o cemitério municipal); fim da Rua de Lisboa (estrada para Alfundão)
- Já tombado no tempo de D. Manuel I (início séc. XVI)
- 1639: obra dada a Manuel Lourenço, pedreiro
- 1643 Tombo: “todo de pedraria”; parede com ameias, armas reais e cabeça de touro; “18 varas de comprimento, duas varas menos um palmo de largo”; água de arca d’água subterrânea encontrada ainda no séc. XIX
- A água vinha de nascente do lado oposto da estrada; hortelão obrigado a manter o chafariz cheio
- 1878: obras municipais reduziram o tanque em altura; colocado obelisco de calcário de Trigaches
- Túlio Espanca: edificado nos princípios do séc. XVI; mediria 15 m
- Estado actual: local ocupado por vidraria e anexos; chafariz despercebido
Poço de Aljustrel ⭐ (o mais importante)
- Localização: lado poente, a c. 800 m da cidade, junto à estrada para Aljustrel, dentro da freguesia de S. João Baptista
- O mais afamado de Beja — “preciosa e cristalina água”, abundantíssima
- 1509: referência no Tombo do Hospital da Piedade
- 1589: aguadeiros proibidos de lá ir por falta de água temporária
- 1638: obra de limpeza; 1639: Câmara manda limpar
- 1643 Tombo: poço com bocal de pedraria “com suas lajes à volta”; entre estrada de Aljustrel e estrada do Algarve
- Chafariz junto à estrada (c. 1 tiro de fuzil do poço): “todo de pedraria”, parede com ameias, armas reais e cabeça de touro; 16 varas menos um palmo de comprimento; modelo para o chafariz do Pelame
- 1738: chafariz demolido; pedras usadas na construção da Igreja do Carmo
- 1738: acórdão proibindo tirar água para cavalgaduras (prejudicava consumo humano)
- 1872: Câmara coloca bomba e fecha o poço; aguadeiros queimam a casa de madeira da bomba e deitam petróleo no poço; detenção de um suspeito
- Séc. XX: principal fonte de abastecimento da cidade; poço artesiano de 25 m de profundidade e 0,15 m de diâmetro; nível da água a 5 m abaixo da superfície; motor-bomba a ar quente (10.000 l/hora)
- Estado actual: área do actual Bairro da Força Aérea (chafariz e horta)
Poço Largo ou do Vale de Mértola
- Localização: ao fundo da Rua Cidade de Díli, dentro de uma casa (não visível da rua); à direita da antiga estrada para Mértola
- Lenda: D. Sancho teria aqui vencido os Mouros
- 1509: referido como “Poço de Mértola” no Tombo do Hospital da Piedade
- 1639: mandado reparar por estar arruinado
- 1643 Tombo: tinha uma pia pequena onde o gado bebia
- Início séc. XX: abastecia matadouro e jardim público
- 1936: obras, substituição das tubagens
- Nota: a antiga estrada de Mértola não corria ao longo da muralha (confusão com a Rua das Portas de Mértola); ia na direcção dos Correios e bifurcava — estrada de Serpa para o Tanque dos Cavalos, estrada de Mértola passava por este poço. O caminho ainda existe mas perdeu uso no séc. XX ao ser cortado pela linha de caminho-de-ferro.
- Localização: perto do Bairro do Pelame, na estrada que ligava à Porta Nova (junto ao quartel da GNR); hoje Rua Sebastião Jesus da Palma
- Nome: fábrica de curtumes antiquíssima (“Pelame” ou “Pelome” nos docs. mais antigos); zona sombria junto à antiga Mouraria das Alcaçarias
- 1501: referência mais antiga — roubo de couro nos pelames, junto ao Chafariz
- 1504: D. Manuel I autoriza Nuno Velho a construir lagar de azeite aproveitando a água do chafariz
- 1614: multa para quem levasse peles ao Pelame e voltasse com água de beber
- 1639: obra — “por cima da pia do Pelame fazer uma parede de pedra e cal e no meio dela uma pedra lavrada com as Armas (…) na conformidade em que está no chafariz do poço de Aljustrel”
- 1643 Tombo: tanque com 9 varas de comprido e 2,5 de largo
- 1654: multa para quem usasse os mesmos caldeirões no Pelame e no poço dos curtimentos
- P. Mira (1874): fábrica de curtumes já desaparecida, substituída por armazém de vinhos e moinho a vapor
- Chafariz descrito: tanque pequeno (pia) + espaldar com cano/bica + tanque grande para cavalos; espaldar com cabeça de boi e escudo das cinco chagas; data gravada: 1639
- Séc. XX: poço tapado, bombas instaladas, lavadouro melhorado
- Localização: Rua da Lavoura; tanque de lavagem de roupa de 1924 ainda existe
- Água salobra; servia cavalgaduras; água enchia tanque nas costas e depois ia para a Horta do Cano
- 1515: referência mais antiga (P. Mira)
- 1589: postura proibindo buscar água ali durante os lagares
- Referido por Fr. Francisco de Oliveira e Tombo de 1643
- Debate do P. Mira: havia uma teoria popular de que a água do Poço dos Banhos ia para o Chafariz do Cano por encanamento subterrâneo — P. Mira refuta (os dois chafarizes funcionaram em simultâneo; não há vestígios do encanamento)
- Localização: junto à quinta do mesmo nome, saída de Beja para Évora
- Nome: Soeiro Testa (séc. XVII)
- Origem antiga; localizada numa villa romana — área hoje Monumento Nacional
- Já referida no Tombo de D. Manuel I
- 1591: postura proibindo lavagens e lançamento de imundícies (pena: prisão e coima)
- 1624: reparações por estar muito danificado
- 1643 Tombo: junto à estrada para a Cuba; “12 varas de comprimento, duas varas e dois palmos de largo”; junto à horta de Jorge Raposo
- Água vinda de nascente incerta (ferragiais ao lado das hortas do Calvário e dos Frades)
- 1869-70: Câmara manda fazer grande tanque para lavagem de roupas com pedras do Chafariz da Praça
- P. Mira: “há por aquele sítio edifícios enterrados”; quando possuída pelos Veigas, o proprietário fez escavações e o Bispo do Cenáculo incentivava — mas ambição interrompeu (o bispo pretendia levar as peças para Évora)
- Estado actual: tanque de lavagem desaparecido; resta apenas um mais baixo como bebedouro de animais
- Localização: ao fundo da Rua Prof. Bento de Jesus Caraça (ant. estrada da Salvada); ponto de bifurcação da antiga estrada — em frente para a Salvada, à esquerda para Serpa por Quintos
- Água não de poço mas de nascente (“nascente poderoso, que não se tem ressentido da falta de água, ainda nos anos secos”)
- Referido no Tombo do séc. XVI
- 1591: cadeia e multa para quem lavasse nos chafarizes
- 1645 Tombo: entre horta da Abóbada (Francisco da Costa Alcoforado) e hortas do Tanque; chafariz de pedraria com 15 varas; recebia água de arca chamada “Fonte Santa”; tanque dos cavalos — 15 varas × 12; tanque de lavagem de roupa — 12 varas × 10,5; tudo em rossio do Concelho
- P. Mira: “A arca d’água donde vai ao chafariz. (…) uma pequena pia ou bacia onde vaza o encanado d’águas lança as águas no chafariz donde (…) cai para um depósito grande, quadrado, onde as cavalgaduras recebem banho.” Tanque mais fundo — mais alto que um homem
- 1867-68: Câmara manda fazer lavadouro de roupa aproveitando as águas dos tanques
Tradição da “Cavalgada da manhã do Baptista”:
- Senado da Câmara saía a cavalo na manhã de São João Baptista até ao Tanque dos Cavalos; depois ao Chafariz de Santa Clara; as freiras recebiam-nos com doces e iguarias
- P. Mira: era uma “vistoria” à qualidade das águas
- 1673: provisão régia mandando manter a tradição; já em decadência
- Última cavalgada: 1835, sem aparato
- Tradição mais antiga: ir à Fonte do Areeiro (depois privatizada pelo licenciado Jerónimo de Leão)
- P. Mira alvitra “tradição mourisca”; autora sugere ligação a rituais do Solstício de Verão “cristianizados” em São João Baptista
ABASTECIMENTO RURAL
- Localização: junto ao Poço de Aljustrel, mais adiante à direita da estrada para Aljustrel
- 1509: “Pia Quebrada” no Tombo da Gafaria
- Fr. Francisco de Oliveira: “poço da Pia Quebrada com sua terma ou banho romano”
- 1589: postura proibindo lavar roupa
- 1591: obras no tanque junto à calçada
- 1645 Tombo: bocal de tijolo e pedraria, pia de pedra grande para o gado
- P. Mira: poço descoberto com bocal arruinado, vale onde “os porcos chafurdavam”
- Calçada presumivelmente romana ainda reparada no séc. XVI
- Estado actual: nada resta; apenas memória de local de interesse arqueológico
Poço dos Frangos (ou Frangãos, Francos)
- Localização: perto da Rua Afonso III, passando a Quinta d’El Rei, após um pequeno barranco com ponte
- Nome corrompido de “Francos” → “Frangos” ao longo do tempo
- 1645 Tombo: “Um poço a que chamam dos Francos sito na estrada que vai desta cidade para Moura antes de chegar em a ermida de S. Pedro, um tiro de mosquete pouco mais ou menos”
- Água boa mas pouco procurada por medo das sanguessugas
- Séc. XIX: Câmara manda fazer tanque de lavagem de roupas
- Túlio Espanca: do Poço dos Francos foram retiradas pias de pedra para a construção da cadeia filipina
- Estado actual: nem poço nem tanque existem
- Localização: a meio caminho entre a cidade e o Convento do Carmo / Tapada de S. Miguel (actual Bairro da Esperança)
- 1645 Tombo: “na estrada que vai desta cidade saindo pela porta d’Avis para Selmes, caminho do convento do Carmo”
- Água boa, rivalizava com a do Poço de Aljustrel; mas volume a diminuir
- P. Mira: bocal “quadrilongo, de alvenaria coberta com pedra mármore” (vinda da cruz da ermida de Santo André, retirada c. 1853)
- Colocação de bomba → resistência dos aguadeiros; avarias causadas; a Câmara resolveu e situação “moderou-se”
- Estado actual: não existe
Poço de Pero Mateus ou de Nossa Senhora das Neves
- Localização: junto à Igreja de Nossa Senhora das Neves; servia romeiros
- 1625: Câmara manda desentupir e abrir o poço para a romagem
- Obra: 25 palmos de altura, 20 já cavados + 5 a rebaixar; bocal de 4 palmos em tijolo e cal; pedreiro Manuel Fernandes
- Junho 1625: pedreiro cavou 5 palmos mas não encontrou água; vedor reconheceu erro e mandou cavar mais 100 palmos — pedreiro recusou por não ser contratado
- Nome derivado de Mor Giralda (antiga proprietária); corrompido para Mongeralda / Mangeralda / Mangiralda
- 1632: referência a “vinha no sítio de Mor Giralda”
- 1639: Câmara manda consertar; obra adjudicada a Pero Vaz, pedreiro; construída de abóbada como a Fonte do Mouro; bica de pedra; espigão nas costas para cortar a fúria da água; junto à via-férrea, entre N.ª Sr.ª das Neves e Porto Peles
- Uma das mais antigas; tombada no Tombo de D. Manuel I
- 1639: referida como “de abóbada”, servindo de modelo para a Mangeralda
- Localização: perto da antiga estrada para Selmes (Bairro da Esperança), à esquerda, junto ao monte (hoje arruinado) com o mesmo nome
- Lenda: princesa moura e príncipe cristão que se apaixonaram; proibidos de casar, transformaram-se em fontes — ela a Fonte do Mouro, ele a Fonte da Cobra (do outro lado da estrada; possivelmente a “fonte de Rui Martins” de Fr. Francisco de Oliveira). De noite, uma serpente vinha beber à Fonte do Mouro.
- 1878: obras municipais; 1993: “melhoramentos” que a descaracterizaram completamente
- Estado actual: mesas de piquenique inúteis, sem sombra; completamente descaracterizada
- 1509: referência no Tombo do Hospital da Piedade
- Fr. Francisco de Oliveira: caminho da Vidigueira
- 1643 Tombo: junto à herdade de Estêvão da Costa e Domingos Fernandes; horta e “charqueirão” para lavagem de roupa
Fonte da Abrunheira (documentação mais antiga: Fonte da Burrinheira)
- 1643 Tombo: junto à horta do Pombal de Francisco Cardoso de Tornejo; bocal de pedra redondo; “em um baixo”
Fontes e Poços particulares:
- Poço de Pai Bichinho — 1509; perto do Monte da Cabeça de Pau, nascente da cidade
- Fonte Faleira — grande antiguidade; Tombo de D. Manuel I; “a mais copiosa de todas”; provavelmente = Fonte das Cavadas (estrada Penedo Gordo – Santa Clara do Louredo); configuração actual de 1879
- Poço do Água Doce — no meio do actual parque industrial; não referido nos documentos mais antigos; hoje subsistem restos do poço e do engenho
Fontes referidas no Tombo de D. Manuel I (via Fr. Francisco de Oliveira):
- Caminho da Vidigueira: Fonte Figueira, Fonte Coberta (no coito)
- Para o Carmo: Fonte do Vale do Bispo, Fonte do Mouro, Fonte de Rui Martins, Fonte da Vinha sem Vinho, Fonte do Bom Pinheiro
- Para Moura: Fonte da Arca
- Para o Pelame: Fontainhas
- Para Serpa: Fonte de Beja a Pequena, Fonte do Areeiro (= Fonte do Tanque), Fonte de Almada
- Para Aljustrel: Fonte da Pia Quebrada, Fonte Faleira (“a mais copiosa e abundante de todas”)
- Para Beringel: Fonte dos Frades, Fonte da Borrinheira
- Para S. Brissos: Fonte da Atouguia
- Fonte de Pero Mateus (perto da Senhora das Neves)
Parte II — O século XX: O Abastecimento Municipalizado
Contexto
No final do séc. XIX, quase todos os poços urbanos já estavam entulhados. Com a República surgiu o impulso modernizador — demolições massivas: portas da cidade (algumas com arcos romanos), torres da muralha, conventos femininos. A lógica era o “Progresso” republicano e anticlerical contra o “obscurantismo medieval”.
Cronologia dos Serviços Municipalizados
| Data | Evento |
|---|---|
| 1911 | Câmara tenta adjudicar serviços de água e electricidade a empresa privada (sem candidatos) |
| 1 Nov 1920 | Decisão de municipalização |
| 1921 | Constituição do Conselho de Gerência (Marcos Adriano da Silva Bentes + José Joaquim de Matos + Ezequiel do Soveral Rodrigues); encomenda estudo ao Eng. Ernesto da Maia |
| 1 Dez 1923 | Início da exploração |
| Abr 1924 | Distribuição domiciliária começa — 7 munícipes; no fim do ano, 30 |
| 1924 | 1.º Regulamento para o Abastecimento e Consumo de Água |
| 1924 | 1.º Relatório do Conselho de Gerência |
| 31 Ago 1926 | Golpe militar → novo Conselho (militares): ten.-coronel António Henriques Meneses Soares + tenentes Joaquim Gonçalves Duarte da Silveira + António Neves Graça |
| Abr 1927 | Decreto nº 13350 → redesignação como Comissão Administrativa dos SM |
| 1927 | Inauguração marco fontanário de Santo Amaro; novas canalizações |
| 1931 | Nova Comissão: Dr. Sebastião José Raposo + João de Santa Maria Monteiro Seia + António Costa Marvão |
| 1931 | Novo director técnico: Eng. M. Vassalo e Silva |
| 1934 | Novo Regulamento dos SM |
| 1937 | Órgão volta a chamar-se Conselho de Administração |
| 1952 | Novo regulamento do serviço de água |
| 11 Fev 1959 | Decisão: encerrar todos os marcos fontanários e terminar venda ao domicílio — água canalizada passa a ser a norma |
| 1960 | Conclusão da 1.ª fase de canalização |
Condições da concessão proposta em 1911:
- Mínimo: 500 m³/dia (nunca inferior a 50 l/dia/habitante)
- Preço máximo: 250 réis/m³ nos primeiros 10 anos, depois 200 réis
- Gratuito para: combate a incêndios, jardins municipais, matadouro, escolas, mercado, marcos fontanários, lavagem de esgotos
- Análises bacteriológicas 3×/ano
- Obrigação de criar balneário público (banhos de 1.ª e 2.ª classe + piscina comum, máx. 50 réis/pessoa)
Consumo per capita em 1924: apenas 7-8 litros/dia (vs. 100-200 litros nas principais cidades europeias)
Os Marcos Fontanários
Estrutura de transição entre os antigos poços e a canalização generalizada. Construídos e demolidos sem que nenhum reste.
Localizações conhecidas:
- Terreirinho das Peças
- Jardim da Alcaçarias
- Santo Amaro (inaugurado 1927, demolido 1953)
- Largo de Santa Catarina (jardim do Bacalhau) — em funcionamento até pelo menos 1947
- Fonte Nova (junto ao Jardim dos Aliados / actual Estação de Correios)
- Terreiro dos Valentes (demolido Mar 1947)
- Santa Maria (demolido 1933)
- Rua Alexandre Herculano
- Traseiras dos Correios (nº 9)
- Carmo
- Pelame
- Largo Duarte Pacheco
Gestão: vendedoras com chaves dos marcos; em 1928, chave extra para os Bombeiros. Em 1932: venda por senhas, 5% de margem para vendedores.
11 Fev 1959: encerramento de todos os marcos. Água canalizada obrigatória.
Captação e Armazenamento
Poço de Aljustrel — fonte principal em toda a época:
- 1920: poço artesiano, 25 m profundidade, 0,15 m diâmetro; nível da água a 5 m; motor-bomba 10.000 l/h; água transportada em carroças de pipa até à cidade; custo: 00/m³
- 1945: construção de estação de captação no “Fim da Mina” junto ao poço
- 1944: crise grave de abastecimento no verão → racionamento, tarifas por escalões, Bombeiros forneciam água à feira de Agosto; pesquisas de novas fontes
Poços e estação elevatória das Terras Frias:
- Set 1945: escavação e revestimento do 1.º poço das Terras Frias
- Jan 1947: abertura de mais dois poços
- 14 Out 1948: contrato de empreitada (José Pinto Caeiro, 234.372$05) para estação elevatória + conduta
- 1955: Johann Keller — medição de caudais dos furos
Reservatórios:
- Previsto em 1920 (Eng. Ernesto da Maia)
- Construído sobre a Igreja da Misericórdia (propriedade do Município); altura de 2 m de água; 15 m de extensão
- Inaugurado: 10 Jun 1927
- 1933: Igreja classificada como Monumento Nacional → necessidade de remover o depósito
- 1941: esvaziamento ordenado; 1944: abandono efectivo
- Construído nas dependências do Convento da Conceição (demolidas parcialmente desde 1893)
- Para a parte baixa da cidade (matadouro, jardim, quartel)
Reservatório da Praça da República:
- Construído na área da antiga cadeia filipina (comprada em 1939 por 39.003$00); edifício terminado 1941
- Out 1939: arqueólogo Abel Viana chamado ao local (muralhas encontradas); nova localização escolhida como menos lesiva
- Demolido em 2016
- 1956: decisão de construir dois compartimentos cilíndricos de 1000 m³ cada, junto ao Asilo Sousa Tavares (Rua Infante D. Henrique)
- Maio 1958: abertura de concurso para as empreitadas
A Canalização e Distribuição
Projecto de 1920: tubagem de ferro fundido “de canhão” em juntas de corda e chumbo; válvulas em caixas de alvenaria. Rede inicial: Poço de Aljustrel → depósito da Conceição → depósito da Misericórdia.
1924: primeiros 7 munícipes com água canalizada; no fim do ano, 30.
Preços em 1945:
- Mínimo: 2 m³/mês — 4$00
- Aluguer contador: 4$00/mês
- Marcos fontanários: 4$00/m³
Expansão progressiva:
- 1934-35: rede chega ao Bairro das Alcaçarias
- 1940s: Bairro da Apariça (classes desfavorecidas) — sem contadores; avença mensal fixa; fornecimento só manhã e noite; corrigido em 1948
- 1943: aumento de tarifas pela 2.ª Guerra Mundial; compra de contadores usados
- 1945: c. 1.300 ligações domiciliárias e 7 postos de venda
- 1954: projecto de ampliação (eng. Civil António Manuel de Vasconcelos)
- Mar 1956 em diante: obrigação de ligação domiciliária em ondas sucessivas (listas de ruas específicas)
- 1956: alargar rede à “zona inferior” nascente para inaugurar o Bairro da Conceição (empreiteiro João Gomes da Costa)
17 Fev 1959: todos os habitantes com rendimento colectável ≥ 100$00 obrigados a ligar-se no prazo de 60 dias; Serviços Municipalizados executariam compulsivamente.
O Balneário Público
- 1946: proposta da Direcção Geral dos Serviços de Urbanização
- 1947: aprovada a obra
- 10 Mar 1948: adjudicada a Artur do Rosário Dias — 352.770$00
- 19 Jul 1950: construção terminada; aberto ao público; dois funcionários (casal) residiam no edifício
- Banhos quentes e frios; banhos de imersão; toalha/lençol e sabonete incluídos no pagamento; aberto todos os dias (domingos só manhã)
- 10 Mar 1951: Portaria do ministro do Interior aprovando a municipalização
- Dez 1951: aumento de preços (exploração deficitária)
- Estado actual: encerrado, a degradar-se; autora propõe reabilitação para fins culturais/turísticos
Conclusão (da autora)
“A cidade vivia à volta destes pontos de água, que lhe tiravam a sede e a alimentavam, através das hortas que junto a eles cresciam.”
- Dos poços urbanos nada resta — pragmatismo de uma cidade onde o espaço é precioso
- Os equipamentos dos arrabaldes mostram a permanência de espaços rurais
- Em 2013 a autora elaborou Roteiros da Água (disponíveis online) para incentivar visitas turísticas a estes equipamentos
- O balneário público e os antigos equipamentos deveriam ser preservados e adaptados para fruição cultural
Documentos relacionados
- Beja no Anno de 1845 (José Silvestre Ribeiro) — regista o estado da rede de água em 1845: 8 poços, 1 fonte, 5 chafarizes; confirma o Chafariz da Praça de D. Manuel (alimentado pelo Poço dos Banhos) com referência ao Álvará de 1567; já desaparecido em 1845. Menciona o Chafariz do Cano como local de uma cabeça de touro romana.
- Relatorio das Couzas Notáveis desta Cidade de Beja (Marta Páscoa) — da mesma autora; transcrição do manuscrito de 1734 de P. Pedro Pires Nolasco Serrano, que descreve o Poço de Aljustrel, a Fonte do Tanque e as “estradas encubertas” (canalizações romanas).
Como citar
Referência (APA): Páscoa, Marta (2013). A História da Água de Beja do séc. XV a 1960. EMAS.
Tags e conceitos-chave para pesquisa
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