Hospital da Misericórdia de Beja (Leonel Borrela, 1997)

Dois artigos da Iconografia Pacense dedicados ao Hospital de Nossa Senhora da Piedade (Hospital Velho / Hospital da Misericórdia), com síntese histórico-arquitectónica baseada no Tombo e no estudo publicado pelo autor no Arquivo de Beja (vol. IV, 2.ª série, 1987).

Resumo

Artigo I — Fundação, arquitectura e recheio

  • O Hospital Grande de Nossa Senhora da Piedade foi mandado construir em 1490 pelo duque D. Manuel (futuro D. Manuel I), sendo concluído c. 1510. Ao longo da construção D. Manuel teve três títulos: Duque de Beja (1484–1491), Príncipe herdeiro (1491–1495) e Rei de Portugal.
  • Edifício intramuros, de transição gótico-manuelino, adossado em parte à muralha, entre as ruas de D. Dinis e de D. Manuel I (antigas rua do Gato e rua de Santo Estêvão).
  • O tombo confirma que foram anexados dois hospitais do arrabalde de S. Francisco: o Hospital dos Palmeiros (ainda activo no final do séc. XV) e o Hospital de São Brás (já desactivado).
  • Principais encarregados régios: Antão de Oliveira (1.º provedor), Gonçalo Vaz (2.º provedor), Rui Pires (vedor das obras do dormitório) e o desembargador Dr. Álvaro Fernandes (autor do tombo dos bens).
  • Confraria da Misericórdia (com sede na Igreja de Santa Maria, instituída em 8 Dez 1500) tornou-se administradora do hospital a partir de 3 Dez 1554.
  • Arquitectura destacada: contrafortes siglados (à semelhança da Conceição), portais, janelas, abóbadas nervuradas, antiga enfermaria de duas naves, cisterna e arco de cruzeiro.
  • A fachada virada para a Torre de Homenagem tem janelas de padieira marmórea com arcos conopiais anunciando a ornamentação manuelina; Abel Viana citado: “terão ocorrido os alvores desta transformação da primeira arte”.
  • Interior da Igreja de Nossa Senhora da Piedade: talha barroca vinda c. 1855 da extinta Capela dos Terceiros do Convento de S. Francisco; três telas atribuídas à escola de Reinoso; óculo e nicho de sacrário góticos.
  • A antiga câpela-mor seiscentista (com tribuna pintada ao gosto barroco) esteve oculta mais de 100 anos pela talha dourada do altar-mor; o edifício em 1982 perdeu as casas sobrepostas ao eirado do cemitério dos pobres por demolição e construção de sanitários públicos.
  • Possível fundação original por Infante D. Fernando em 1469 (segundo alguns autores).

Artigo II — Cisterna, siglas e decadência das Misericórdias

  • A cisterna de portal manuelino era o coração do hospital; o claustro, deambulatório, enfermarias (homens e mulheres), portaria, botica e capelas giravam à sua volta.
  • O hospital tinha uma escadaria interior (ainda “entaipada” na espessura da parede), paralela a outra mais larga do final do séc. XVIII; no início havia um oratório (“Santo Cristo da Escada”), referido no livro de despesas de 1788/89.
  • Borrela afirma ter visto e fotografado mármores romanos reaproveitados nas fundações, há cerca de 10 anos (1987), incluindo possivelmente a soleira da antiga entrada.
  • Sinais heráldicos identificados no edifício: esferas armilares, cruzes de Cristo, heráldica de D. Manuel I e D. João II; o escudo de D. João II apresenta os castelos invertidos e os escudetes laterais orientados para o interior (anterior à reforma heráldica de 1485).
  • Siglas diversas nas nervuras, mísulas, portais e janelas — dos obreiros e confrarias do final de Quatrocentos.
  • A segunda metade do séc. XVIII marca o início da decadência: terramoto de 1755, invasões francesas e liberalismo. Em 1866 a desamortização afectou bens das irmandades e misericórdias.
  • Desde meados do séc. XIX, comissão conjunta (civil + Misericórdia) administra o hospital; escudo de armas de D. Maria I (1794) sobre o arco de entrada, recordando investimentos seus.
  • A enfermaria de duas naves (antigo Recolhimento dos Orates) é descrita como “raro em Portugal”.

Entidades mencionadas

Locais: Hospital de Nossa Senhora da Piedade · Hospital dos Palmeiros · Hospital de São Brás · Santa Casa da Misericórdia de Beja · Convento de S. Francisco · Convento da Conceição · Torre de Homenagem · Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres

Pessoas: D. Manuel I · D. Fernando, 1.º Duque de Beja · Abel Viana · D. João II · D. Maria I

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Como citar

Borrela, Leonel (1997). Hospital da Misericórdia (I e II). Diário do Alentejo — Iconografia Pacense, n.º 800–801, 22 Ago–4 Set 1997.

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