O Convento de S. Francisco de Beja (Leonel Borrela, 1995)
Série de três crónicas da Iconografia Pacense (Diário do Alentejo, 20 Out–3 Nov 1995) sobre a história, arquitectura e vicissitudes do Convento de S. Francisco, a mais antiga casa monástica de Beja.
Resumo
Artigo I — Posição na rede franciscana e vicissitudes pós-extinção
- O Convento de S. Francisco foi a primeira casa monástica de Beja, situada extramuros junto às Portas de Mértola. A sua jurisdição franciscana superintendia em todos os mosteiros e hospícios subsequentes — Convento de Santa Clara, Hospício de Santo António, Convento da Conceição e Convento de S. António — até c. 1525, data a partir da qual se fundaram o convento carmelita feminino da Tapada de S. Miguel (Convento do Carmo) e, em 1541, o Convento da Esperança.
- Extinção em 1834; adaptação a pousada em 1994. Entre estas datas passou pelas “mais diversas e humilhantes vicissitudes”: soldados no coro alto a apupar os fiéis durante as missas; túmulos abertos e vandalizados com permissão do poder político-militar — “as arcas esvaziadas da lembrança dos mortos serviram de bebedouro aos cavalos”.
- A capela dos túmulos — impropriamente chamada de S. Luís, bispo de Tolosa — esteve associada ao milagre de S. Pedro de Pomares (Baleizão), quando S. Luís terá intervindo em favor do rei D. Dinis contra um urso. Após o despojamento das relíquias, serviu de palheiro.
- Borrela apresenta três interpretações iconográficas da capela dos túmulos, repositório de siglário tardo-medieval dos sécs. XIV–XV, análogo à Torre de Homenagem, Igreja da Piedade e Convento da Conceição.
Artigo II — Arquitectura estratificada e crítica às obras da pousada
- Fundado em 1268 por Lopes Esteves (alcaide-mor), Diogo Fernandes Esteves e Vasco Martins (vereadores); secularizado em 1852.
- O edifício conserva vestígios de períodos distintos do séc. XIII ao XIX. A igreja actual (concluída em 1723, estilo maneirista) substituiu a anterior igreja manuelina; antes desta havia possivelmente uma igreja gótica de três naves (transepto, sapatas de contrafortes de abside polifacetada, arcaria ogival do claustro, porta regral).
- Escavações de emergência 1993–94 (Museu Regional + IPPAR): necrópole romana de incineração (séc. I), estruturas de pequena capela na sala capitular (ala nascente do claustro).
- Críticas às obras da pousada: perda de janela geminada in situ no braço do transepto; escadaria do refeitório não desentaipada; exterior da capela dos túmulos totalmente rebocado, ocultando aparelho de mármore coberto de siglas medievais; portal ogival do transepto não reposto na sua posição original (entrada da sala capitular).
- Aspecto positivo: espólio arqueológico recolhido, do período romano ao séc. XVIII (urnas romanas, vidros, vasos, lucernas cerâmicas).
Artigo III — Siglas e painel de azulejos
- Borrela publica reconstituição do transepto e da janela geminada, com posição relativa das arcadas góticas, sala capitular, capela dos túmulos e torre sineira.
- Documentação de siglas (símbolos de confrarias de obreiros medievais) em três locais: janela geminada do transepto, sala capitular e aparelho exterior da capela dos túmulos.
- Painel de azulejos do séc. XVIII (azul e branco), com representação do convento, dispersou-se durante as obras de adaptação a pousada.
- (Nota: este artigo inclui também uma digressão literária sobre o poeta António de Macedo Papança e a sua obra Musa Alentejana (1908), sem relação directa com o convento.)
Entidades mencionadas
Locais: Convento de S. Francisco · Porta de Mértola · Convento de Santa Clara · Convento da Conceição · Convento do Carmo · Convento da Esperança · Convento de S. António · Hospital de Nossa Senhora da Piedade
Pessoas: D. Dinis · D. Afonso III · Conde de Monsaraz
Documentos relacionados
- Beja no Anno de 1845 (José Silvestre Ribeiro) — dados da fundação e cronologia
- Conventos de Beja — contexto da rede conventual
Como citar
Borrela, Leonel (1995). Convento de S. Francisco (I, II e III). Diário do Alentejo — Iconografia Pacense, 20 Out–3 Nov 1995.
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