Estudo Etnográfico, Cultural e Linguístico da Cidade de Beja (Mariana Correia, 2009)
Dissertação de mestrado (Estudos Artísticos, Culturais, Linguísticos e Literários) de Mariana do Carmo Ribeiro Correia, Universidade da Beira Interior, Covilhã, 2009. Orientadores: Prof. António dos Santos Pereira e Prof. Paulo Osório.
⭐ Fonte panorâmica e transversal — a única até agora que cobre Beja desde os povos pré-romanos até ao séc. XX em três planos: histórico-patrimonial, etnográfico-cultural e linguístico. Apoia-se largamente em Casteleiro de Goes (Beja — XX Séculos de História de uma Cidade).
CAPÍTULO I — Património Histórico
Origem do nome
Evolução fonética (segundo André de Resende e Casteleiro de Goes): Báka > Bága > Bágia > Béjia/Beegia > Beia > Beja. Pax → sonorização do /p/ em /b/ (influência árabe); Augusta caiu em desuso (como em Bracara e Emerita). Gentílicos árabes: Al-Bagi, Albageo, Albegian. Existe uma Beja homónima na Tunísia (antiga Vacca romana → Bágia → Beja).
Os povos do Sudoeste
- Cúneos/Cónios (capital Conistorgis), povo pré-indo-europeu da costa algarvia e planície sul; debate sobre a identificação de Conistorgis com Pax Iulia
- Influência orientalizante (fenício-púnica) muito marcada no séc. VIII–V a.C.; Guadiana como porto de saída do minério de Aljustrel
Beja Romana
- Colónia de Júlio César / Octaviano; inscrições no Museu (incl. a de L. Élio Aurélio Cómodo = IRCP 291, achada na Herdade da Sobreira em 1547; a de Sérapis Pantheo junto às Portas de Avis); culto imperial (flamines, pontífices); cultos orientais (Cibele, Ísis, Serápis, Mitra). Ver Pax Iulia — Roma em Beja
- Villae e casais; o Monte Alentejano como reprodução da estrutura villa (pars urbana / pars rustica)
A Presença Visigótica ⭐ (novo)
- Leis visigóticas (Liber Iudiciorum/Fuero Juzgo, 654, Chindasvinto; Breviário de Alarico, 506) vigoraram até ao séc. XIII — base das autonomias municipais; os concilia visigóticos dão origem aos concelhos
- Posturas camarárias de Beja (séc. XVII–XVIII, ex.: Regimento do Couto das Vinhas) reproduzem disposições jurídicas romano-góticas
- Ver Beja Visigótica
A Arte Visigótica ⭐
- Estilo decorativo de raízes orientais/bizantinas; estilizações geométricas, cruz inscrita em círculo, símbolos eucarísticos
- Núcleo da arte visigótica de Beja na Igreja de Santo Amaro (anexa ao Museu Rainha D. Leonor) — o mais importante acervo de pedras esculpidas visigóticas do país; oficina hipotética em Pax Iulia (mármores de Trigaches e S. Brissos)
O Bispado Visigótico ⭐
- Cátedra episcopal pacense desde S. Afríngio (escritor erudito, c. 530 d.C.); sucessão de bispos: Palmácio (Concílio de Toledo, 589, conversão de Recaredo), Lauro, Mondário, Teodoreto, até Isidoro (último, 754, ainda em 711)
- Ver Bispado Visigótico de Beja
Beja Muçulmana ⭐ (novo)
- Conquistada para o Islão por Abdelaziz (Abd Al-Aziz), filho de Musa Ibn Nusayr, em 713
- Beja = cidade das azeitonas (az-zaytun), por oposição à Beja tunisina (do trigo)
- Capital de uma Kura/Cora (distrito administrativo governado por valis); rebeliões graves (763, rebeldes egípcios do Jund); derrota de uma frota normanda ao largo da costa alentejana (844–845, sob Abderramão II)
- Ver Beja Muçulmana
Os Foros Pacenses
- Foral Afonsino: dado por D. Afonso III em Leiria, 16 Fev 1254 (perdido; conhecido por translado); Costumes de Beja (Direito Costumeiro, compilados após 1339)
- Cargos: alcaide (al-qaid), alvazis (juízes), almotacés, etc.; Confraria dos Cavaleiros de Beja (28 Jul 1297)
- Forais Novos de D. Manuel I: recolha por Fernão de Pina (1497–1521); o Foral Novo de Beja foi feito a partir do de Évora (adaptação do de Ávila); Beja era a 1.ª da lista “de antre Tejo e Odiana”; também desapareceu
- Ver Foros e Forais de Beja
Beja e a Infanta D. Beatriz ⭐ (novo)
Infanta D. Beatriz (1429–) — Duquesa de Beja, mãe de D. Manuel I, sogra de D. João II, tia de Isabel a Católica. Grande benfeitora de Beja: fundou o Convento da Conceição, criou pisões para o burel, trouxe oficiais mecânicos, importou cereais da Madeira em tempos de crise.
Património Arquitectónico
- Centro histórico: construções sobre 3 m de entulho (restos romanos, visigóticos, árabes, judaicos); muralha medieval (D. Afonso III) sobre a romana; 40 torres iniciais → 28
- Torre de Menagem: D. Dinis, séc. XIV, gótica, 40 m, 183 degraus, 4 cantos aos pontos cardeais, janela árabe
- Praça da República (Beja): terreiro de D. Manuel (Praça Nova → Praça D. Manuel I → Praça da República); fachadas Arte Nova; touril
- Pelourinho de Beja manuelino; Largo de Santo Amaro (antiga necrópole de todas as civilizações)
- Largo de S. João: criado pela demolição da igreja de S. João (1919); Cine-Teatro Pax Júlia (1928, no local da Igreja de Santo António)
- Rua do Sembrano: termas romanas (frigidarium, caldarium, tepidarium); espaço museológico com azulejos de Rogério Ribeiro
- Avenida Miguel Fernandes: 135 silos (aqui datados “época romana”); antiga Rua da Corredoura (mercado de gado)
A Mouraria ⭐ (novo)
Bairro mouro a leste (entre as muralhas, a rua das Portas de Moura e o largo do Salvador); criado por D. Afonso III ao ampliar as muralhas para o incluir (daí a Porta de Moura). Mouros agricultores, curtidores, sapateiros, ferreiros; tinham foro próprio e alcaide; alcaçarias (curtumes) a leste da Porta de Moura. Ver Mouraria de Beja
A Judiaria ⭐ (novo)
Criada por D. Pedro I; situar-se-ia na actual Rua da Guia / Dr. Aresta Branco (antigas ferrarias). Tributos: judenga (30 dinheiros), peita; vinho cosher/judengo. Famílias importantes: Abravanel, Abraão Zacuto (conselheiro de D. Manuel), Rabi Abraão de Beja (enviado por D. João II), Dr. António Bom-Dia (médico do Convento da Conceição). Perseguição pela Inquisição de Évora (8.194 vítimas, o maior número de Beja; 1.º judeu vitimado de Beja em 1567) → Beja como “cidade sem fé nem sé”. Ver Judiaria de Beja
Monumentos religiosos
Dois anos após a Reconquista (1255), Beja já tinha 4 igrejas: Santa Maria da Feira, Santiago, S. Salvador, S. João Baptista. A Igreja de Santa Maria da Feira (a mais antiga; origem visigótica; mesquita na ocupação árabe; sede da Misericórdia da Rainha D. Leonor) e a Igreja de Santo Amaro (basílica paleo-cristã/moçárabe) são descritas em detalhe.
CAPÍTULO II — Cultura e Tradições Pacenses ⭐ (novo)
Gastronomia
Carne de porco, ensopados de borrego, doçaria conventual (azevias do Natal, filhozes e bolinhóis do Entrudo, folares da Páscoa, favas fritas de S. João); açordas, sopas, pão com azeite; magustos de bolota nos Santos/S. Martinho. Tabu: aves sagradas (andorinhas, cegonhas, cucos, grous).
Calendário festivo
- Presépios Vivos (Natal; o de S. Matias; figura do “cabreiro alarve”; últimas representações 1953)
- Entrudo (Morte do Velho/Inverno; marchas com aro flamejante; Quinta-feira de Compadres; Enterro do Bacalhau; Queima da Velha)
- Endoenças (Semana Santa: Quarta-feira de Trevas, Padeirinha/Verónica, Enterro do Senhor)
- Maias (1 de Maio; menina-Maia coberta de flores)
- Dia da Espiga (Quinta-feira da Ascensão; ramo de espigas, oliveira e flores)
- Corpo de Deus / Santíssimo Sacramento — instituído pela Infanta D. Beatriz (milagre do incêndio em Santa Maria da Feira); esplendor até 1910; Jantar dos Presos (cabaz aos presos, instituído pela Infanta)
- S. João (a festa mais querida; água e fogo purificadores; adivinhações de casamento; Cavalgada até 1835); ver também Relíquias de S. Brás de Beja
- Touradas: desde D. Afonso V; D. Manuel transferiu-as para a Praça (1513); 1.ª tourada com touros embolados em Portugal (presente D. Sebastião); saltar touros à vara (último praticante: José Maria Urbano, “el Lagartixa”, †1981)
Actividade agrícola
Base económica de todos os povos; olivais do Couto das Vinhas; secularização de 1834 → grandes latifúndios. Classes: lavradores foreiros, rendeiros, seareiros; trabalhadores sazonais (galegas das Beiras na azeitona/mondas; algarvios nas ceifas; “ratinhos” não vinham a Beja). Mecanização (anos 60–70) → desemprego e emigração. Ver Classes Agrícolas do Alentejo
CAPÍTULO III — O Falar de Beja ⭐ (novo, distintivo)
Abordagem sociolinguística
Baseada em Paulo Osório (orientador): variação linguística por motivações internas (sistémicas) e externas (geográficas, sociais, políticas, culturais); corrente laboviana.
Análise do dialecto pacense
O falar alentejano é “cantante, arrastado, dolente” e varia de terra para terra. Substrato árabe no léxico (nomes concretos), gramática latina. Traços do falar de Beja identificados no terreno:
- Verbos terminados em líquida (/r/, /l/): no concelho de Beja pronunciam-se com /e/ ([kãtar] cantar, [trbaʎar] trabalhar); em Moura/Serpa/Baleizão com /a/
- Pretérito perfeito /ei/ → /i/: ami (amei), canti (cantei)
- Formas arcaicas: sõ (sou/são), pêra (para), creo/crea, leo/chea
- /é/ tónico muito aberto (Béja); /á/ tónico → /ê/ (burêco por buraco)
- Ditongação (igreija, deseija) e redução de ditongos
- Uso de 2.ª pessoa do plural pelo singular (falastes); gerúndio com /s/ (em sabendos)
- Tratamento afetivo: mano(a), primo(a), tio(a), compadre
Fonte principal: M. J. Delgado, A Linguagem Popular do Baixo Alentejo e o Dialecto Barranquenho. Ver O Falar de Beja
O Cante Alentejano
O Cancioneiro Alentejano (recolhas de A. Marvão desde 1920, na Amareleja) é o maior do país. Divulgação por João Ranita da Nazaré (RDP/RTP). A divulgação massiva fez perder espontaneidade: as modas antigas usavam o “soluço eclesiástico” (corte da palavra a meio para respirar). Ver Cante Alentejano
Entidades mencionadas
Pessoas
- Mariana do Carmo Ribeiro Correia (autora) · Casteleiro de Goes (fonte principal) · Infanta D. Beatriz · André de Resende · D. Fr. Amador Arraes · José D’Encarnação · M. Conceição Lopes · Jorge de Alarcão · D. Fr. Manuel do Cenáculo Vilas Boas
Locais
- Igreja de Santo Amaro · Mouraria de Beja · Judiaria de Beja · Igreja de Santa Maria da Feira · Torre de Homenagem · Praça da República (Beja) · Rua do Sembrano · Convento da Conceição · Museu Rainha D. Leonor
Temas
- Beja Visigótica · Beja Muçulmana · Bispado Visigótico de Beja · Foros e Forais de Beja · Mouraria de Beja · Judiaria de Beja · Tradições Pacenses · O Falar de Beja · Cante Alentejano · Classes Agrícolas do Alentejo · Pax Iulia — Roma em Beja · Reconquista de Beja
Documentos relacionados
- Beja no Anno de 1845 (José Silvestre Ribeiro) — citado pela autora (festa do Corpo de Deus); mesma cobertura histórica panorâmica
- A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes) / A Civitas de Pax Iulia (M. Conceição Lopes, 2007) — o período romano e o território da civitas
- Relatorio das Couzas Notáveis desta Cidade de Beja (Marta Páscoa) — igrejas, conventos, feira, S. João
- As Movimentações Militares do Exército Napoleónico no Alentejo 1807-1808 (José Luís Assis) — a Guerra Peninsular referida a propósito do restauro das muralhas
- Beja Medieval — Os Silos da Avenida Miguel Fernandes (Martins, Neves, Aldeias) — silos e economia cerealífera
Como citar
Referência (APA): Correia, Mariana do Carmo Ribeiro (2009). Estudo etnográfico, cultural e linguístico da cidade de Beja [Dissertação de mestrado, Universidade da Beira Interior].
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