Porta de Avis

Porta histórica do perímetro amuralhado de Beja. O arco actual resulta de uma reconstrução realizada em 1939, depois da demolição do conjunto anterior em 1893. Fontes do século XIX classificavam a Porta de Avis como romana, mas M. Conceição Lopes considera que a estrutura actual não corresponde à porta romana original.1

Em 1879, durante obras de desaterro “nas imediações da Porta de Avis”, foi descoberta uma inscrição monumental romana atribuída ao imperador Augusto e datada de 3-2 a.C. A inscrição documenta o oferecimento das muralhas, torres e portas à Colonia Pacis Iuliae, mas o local do achado não demonstra que o arco conhecido como Porta de Avis fosse uma das entradas romanas originais.2

Cronologia

  • 3-2 a.C. - Augusto oferece muralhas, torres e portas à Colónia (inscrição monumental)2
  • 1635 - António Lopes Baião constrói a Capela de Nossa Senhora da Guia sobre o arco; terá também trasladado o arco romano para ali1
  • 1845 - José Silvestre Ribeiro incluiu-a entre as três portas que considerava romanas3
  • 1879 - descoberta de fragmento epigráfico nas imediações, durante desaterros; removido para a Câmara Municipal e depois desaparecido2
  • 1893 - demolição do arco e da Capela da Guia; aduelas e blocos transportados para a “pescadaria” do Largo dos Duques de Beja1
  • 1939 - restauro/reposição do arco no local original (extremo do Terreirinho das Peças), por CMB + DGEMN; faltou reconstituir uma das duas torres1

Etimologia: a “ave” romana (manuscrito de 1868-9)

Um manuscrito anónimo da colecção do P. José Inácio de Mira explica o topónimo: no cunhal da porta (à direita, ao entrar) estava embutida uma pedra com uma ave/águia romana em relevo - símbolo do poder romano. O nome “Avis” viria do latim avis (ave), e não da vila de Avis (longe demais para baptizar uma porta de Beja). No cunhal fronteiro, à mesma altura, havia um letreiro de várias linhas, já ilegível pelo desgaste (possivelmente relacionável com a inscrição de Augusto). Ver Muralhas de Beja (transcrição de Marta Páscoa, 2023).

Hipótese: arco transladado / desalinhado

Segundo a crónica de 2005, o arco poderá não ser romano in situ: as aduelas têm cornijamento em ambas as faces e a entrada não se alinha com o cardo/decumanus da cidade imperial (ao contrário das portas de Évora, Vipasca/Rua Brito Camacho e Mértola).

Classificação oitocentista

José Silvestre Ribeiro, em 1845, e um manuscrito anónimo de 1864-69 enumeraram Avis, Mértola e a antiga porta de Évora como as três portas romanas de Beja. Esta classificação constitui um testemunho da leitura histórica feita no século XIX; não equivale à identificação arqueológica actual das portas de Pax Iulia.34

Capela de N.ª Sra. da Guia

Ver Capela de Nossa Senhora da Guia (1635-1893), que se erguia sobre o arco. Félix Caetano da Silva descreveu um grande edifício ou cidadela próximo da porta.

Iconografia (anterior à demolição)

Sem fotografias conhecidas; existem 2 gravuras (2.ª metade séc. XIX), desenhos de Rosa Mendes (1860) e Rosa Júnior (1894), e a litografia de A. F. R. Graça (1850).

Fontes

Tags

Arqueologia História militar

Notas

  1. A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes) 2 3 4

  2. Inscrição Monumental de Pax Iulia (José D’Encarnação) 2 3

  3. Beja no Anno de 1845 (José Silvestre Ribeiro) 2

  4. Muralhas de Beja (transcrição de Marta Páscoa, 2023)