A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes, 2000)

Tese de doutoramento de Maria da Conceição Lopes, apresentada em 2000. Estudo monumental e exaustivo sobre Pax Iulia — a cidade romana de Beja — abrangendo o núcleo urbano e o território rural da civitas desde o século I a.C. até ao século V d.C.

Nota de edição: a tese foi publicada (sem alterações de fundo, salvo actualizações bibliográficas) como livro — A Cidade Romana de Beja. Percursos e debates acerca da “civitas” de Pax Ivlia, colecção Conimbriga/Anexo 3, Instituto de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (1.ª ed. impressa Dezembro 2002, 700 ex.; 2.ª ed. digital Março 2009; ISBN 972-9004-16-1). O PDF de 2003 (306 pp.) corresponde a esta edição publicada e tem o conteúdo já sintetizado nesta nota.


Capítulo 1 — Introdução e metodologia

A autora situa o trabalho na arqueologia das paisagens históricas, com metodologia estratigráfica aplicada ao conhecimento da cidade: camadas de vestígios visíveis, estruturas escavadas, achados avulsos, morfologia actual da cidade e, no nível superior, as propostas de reconstituição de Jorge de Alarcão e Vasco Mantas.

Investigadores de referência anteriores:

  • Abel Viana — arqueólogo; escavações nos anos 1930–40; inventariou o património romano; a sua morte encerrou um ciclo de atenção sistemática
  • Félix Caetano da SilvaMemórias Históricas das Antiguidades de Beja (1792); descreve estruturas entre as Ruas de S. Gregório e da Guia, Travessa Funda
  • D. Fr. Manuel do Cenáculo Vilas Boas — séc. XVIII; fervor coleccionista; planta sumária da cidade com portas
  • José D’EncarnaçãoInscrições Romanas do Conventus Pacensis (IRCP, 1984); fonte epigráfica central
  • Jorge de Alarcão — proposta de reconstituição urbanística (1990)
  • Vasco Mantas — proposta de reconstituição por teledetecção/fotografia aérea (1996)

Capítulo 2 — Território da civitas

  • Área: ~2.500 km²
  • Sede: oppidum de Pax Iulia (Beja)
  • Civitates vizinhas: Évora, Serpa, Mértola, Alcácer do Sal
  • Estradas romanas documentadas; fontes medievais confirmam a extensão do território

Capítulo 3 — Ocupação pré-romana

Vestígios de oppidum indígena (Idade do Ferro II) identificados em três locais:

LocalVestígios
Rua do SembranoMuros indígenas; cerâmica Idade do Ferro II
Praça de Armas do CasteloCerâmica Idade do Ferro II; forja islâmica
Logradouro do Conservatório Regional do Baixo AlentejoCamada pré-romana sob estruturas romanas
  • Debate sobre Conistorgis (identificação com Beja) — inconclusivo
  • Campo romano a ~3 km a Oeste da cidade

A confirmação de que Pax Iulia se fundou sobre um povoado indígena é dado de capital importância: a instalação da civitas não eliminou formas de coexistência com o elemento anterior.


Capítulo 4 — A cidade romana: vestígios e estrutura urbana

4.1 Fundação

4.2 Muralha

  • Perímetro: ~2 km; área intramuros: ~30 ha
  • Última restauração sistemática: anos 1940 (Direcção-Geral dos Monumentos Nacionais)
  • Trecho demolido após 1790 para fornecer material à construção da Sé Catedral
  • Ver Muralhas de Beja

4.3 Portas romanas

PortaEstadoNotas
Porta de ÉvoraArco romano preservado; águias transferidas para o MuseuNecrópole Flávio-Tibéria a Leste
Porta de AvisNão original — Ermida N.ª Sra. da Guia (1635) demolida 1893, reconstruída 1939Félix Caetano da Silva nota grande edifício/cidadela próximos
Porta de MértolaDemolida 1876A mais imponente; provável entrada principal; patte d’oie monumental
Porta da Rua Brito CamachoControversa — Alarcão propõe porta romana; Lopes discordaTorreão com arco em círculo; obstruída por edifícios romanos posteriores; ignorada por Félix Caetano e por documentos quincentistas

4.4 Sítios arqueológicos urbanos

Logradouro do Conservatório Regional

  • Área de provável forum: estrutura E5 (3,3 m de altura, paredes robustíssimas)
  • Pavimento em opus signinum: 16,5 m de extensão
  • “Templo” de Abel Viana (29×16,5 m) — interpretação questionada por M. Conceição Lopes
  • Forum proposto por Alarcão: rectângulo 80×160 m, entre Largo dos Prazeres, Convento da Conceição, Praça da República e Ruas dos Escudeiros e do Sembrano

Praça de Armas do Castelo

  • Muro romano E1 (1,6 m de largura; pós-augustano)
  • Cerâmica Idade do Ferro II; forja islâmica sobreposta

Rua do Sembrano

  • Provável thermae (banhos públicos)
  • Muro indígena Idade do Ferro II; muros romanos desenvolvem-se sob as casas
  • Obra embargada para escavação pontual — vestígios da vala destruídos sem registo

Pousada de S. Francisco / Necrópole romana

Convento da Conceição / Palácio do Infante

  • “Casas subterrâneas” descritas nas fontes
  • Colunas de tijolo, mosaicos, canalizações romanas
  • Ver Convento da Conceição

Rua de S. Sebastião

  • Urna cinerária encontrada casualmente → necrópole não escavada

Cabeças de touro (protomas)

4.5 Abastecimento de água

  • Problema topográfico: Beja situa-se a ~300 m de altitude; cota semelhante só na Serra de Portel (~30 km)
  • Sem evidência de aqueduto romano (desaparecido ou nunca existiu)
  • Documentação medieval refere muitos poços (Poço do Ouro, Poço da Cisterna, Poço de Aljustrel, etc.) — maioria na freguesia de S. Salvador
  • O subsolo de Beja tem água suficiente para auto-abastecimento por poços
  • Ver Abastecimento de Água

4.6 Propostas de reconstituição urbanística

Proposta de Jorge de Alarcão (1990)

  • Portas romanas: Évora, Mértola e Rua Brito Camacho
  • Cardo maximus: Porta de Moura → Rua do Conde da Boavista
  • Forum: 80×160 m; templo, basílica e cúria; tipo do forum de Feurs; datação: último terço do séc. I d.C.
  • Teatro: entre Rua da Guia, Rua Funda e Igreja de Santiago
  • Proposta anterior à confirmação de ocupação pré-romana → não contempla sobrevivência de estruturas indígenas

Proposta de Vasco Mantas (1996)

  • Baseada em teledetecção/fotografia aérea estereoscópica
  • Cardo maximus: eixo Porta de Aljustrel — Porta de Avis (Rua da Moeda, Rua dos Mercadores, Beco da Camá, Travessa Funda)
  • Decumanus maximus: eixo Porta de Évora → Jardim Público; outro eixo: Porta de Mértola → Largo da Trindade
  • Módulo das insulae: 120×180 pés romanos
  • Proposta por Vasco Mantas: nova porta junto à Igreja da Esperança (= provável Porta Nova/S. Sisenando, demolida 1897)
  • M. Conceição Lopes critica a metodologia: teledetecção sem escavação não fornece cronologia absoluta

Posição de M. Conceição Lopes

  • Renuncia a elaborar proposta de planta da cidade: vestígios demasiado fragmentários e descontextualizados
  • “Os vestígios revelam conhecimento desfocado e incerto
  • Aguarda escavações sistemáticas para clarificação

Capítulo 5 — A Sociedade de Pax Iulia

Análise baseada em 137 inscrições epigráficas (IRCP), repartidas: 51 da cidade, 21 cidade ou arredores, 65 espaço rural.

Composição social (dados epigráficos)

GrupoSéculos I–IINotas
Cidadãos~49,9% do totalMaioritários no séc. I; conhecidos sobretudo por inscrições honoríficas
Libertos~30% do conventusCrescem no séc. II; ligados a actividades comerciais
Escravos~35,6% do conventusAbundantes no séc. I; diminuem no séc. III
Indígenas18,9% (circunscritos ao campo)Desaparecem totalmente no séc. II
ImigrantesItálicos, norte-africanos, peninsularesFamília Iulia em destaque

Destaques epigráficos

  • IRCP 241: homenagem pelos amici a um Augustal da colónia pacense e de Évora (filho de liberta)
  • IRCP 240: libertos públicos homenageiam Décimo Júlio Saturnino
  • IRCP 246: Níger, Augustal da colónia — inscrição funerária
  • IRCP 291: homenagem a Lúcio Vero pelos decuriões (duúnviros) — encontrada em villa de Represas (não no forum como seria esperado)
  • IRCP 292: inscrição imperial na Ponte dos Frangãos — localizada hoje perto de Beja, não de Quintos como se pensava anteriormente
  • IRCP 339: liberto, magister do sodalício dos Brácaros; dedicação a Mitra; edifício com crátera
  • IRCP 287: voto a Atégina por dois indígenas (de Pisões)
  • IRCP 289: culto de Cíbele — esotérico e secreto; associava cidadãos e libertos nos arredores da cidade

Evolução diacrónica

  • Séc. I: população rural e urbana ainda distinguíveis
  • A partir do séc. II: distinção rural/urbana apaga-se → “simbiose perfeita” entre os dois espaços
  • Séc. III: diminuição geral das inscrições (17 monumentos apenas)

Cultos

  • Atégina (indígena) · Salus · Isis · Mitra · Cíbele · Apolo
  • Manuela Alves Dias: perfil sociocultural de cidade comercialmente activa (1981)

Capítulo 6 — O Mundo Rural

  • Rede hierárquica de estabelecimentos: villae + casais + pequenas instalações dispersas
  • Villae: nas melhores terras agrícolas
  • Casais: zonas de solos menos aptos → actividades complementares (floresta, pastorícia, caça)
  • Villae de Pisões — villa excavada; referência epigráfica a Atégina
  • São Cucufate — primeira villa escavada sistematicamente no território; publicação com propostas interpretativas; demonstrou inexistência de latifúndios da ordem dos 1800 ha (contra proposta de Gorges, 1979)
  • Monte da Chaminé — Santa Vitória — referência: Marco Júlio Avito (olisiponense), séc. I, IRCP 296
  • Fonte dos Frades — referência: Coscónio, séc. I (ALFENIM, 1997)
  • Represas — villa; inscrição honorífica de Lúcio Vero (IRCP 291) encontrada aqui

Morfologia agrária: indispensável para a compreensão das relações fundiárias, mas ainda por estudar sistematicamente. Os polígonos de Thiessen e outros métodos tradicionais não garantem dimensões correctas dos domínios.


Capítulo 7 — Conclusões

“A ideia de uma cidade de periferia, de uma cidade deprimida social, económica e culturalmente não tem aplicação prática na cidade romana de Pax Iulia.”

  • Pax Iulia: capital do Conventus Pacensis (um dos 3 conventos jurídicos da Lusitânia)
  • Funcionamento activo: último quartel do séc. I a.C. – meados do séc. V d.C.
  • A cidade desenvolve mecanismos próprios de dinamismo económico, social e cultural
  • A epigrafia fornece apenas uma amostra: o reaproveitamento maciço de materiais romanos em construções posteriores destruiu muito mais

Limitações do conhecimento actual:

  • Fragmentaridade dos vestígios e desconhecimento dos contextos originais
  • Desarticulação entre locais de achado de elementos arquitectónicos e locais de estruturas edificadas
  • Impossibilidade actual de propor planta da cidade romana

Agenda para o futuro:

  • Escavações sistemáticas nos eixos propostos (cardines, decumani)
  • Rua do Sembrano — continuação das escavações
  • Estudo do parcelário agrário das villae
  • Morfologia agrária do território

Entidades mencionadas

Locais

Pessoas

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Como citar

Referência (APA): Lopes, Maria Conceição (2000). A Cidade Romana de Beja: percursos e factores de mudança [Tese de doutoramento, Universidade de Coimbra].

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roma arqueologia pax-iulia urbanismo epigrafia territorio sociedade beja