Sociedade Pacensis

A sociedade da civitas de Pax Iulia, conhecida principalmente através das 137 inscrições epigráficas do Conventus Pacensis (IRCP, José D’Encarnação, 1984).

Composição social

Grupo% (séc. I)Evolução
Cidadãos~49,9%Estáveis; inscrições honoríficas
Libertos~30% do conventusCrescem no séc. II; actividades comerciais
Escravos~35,6% do conventusDiminuem no séc. III
Indígenas18,9% (só campo)Desaparecem no séc. II

Dinâmica sócio-espacial

  • Séc. I: população urbana e rural ainda distinguíveis1
  • A partir do séc. II: “simbiose perfeita” - distinção apaga-se1
  • Séc. III: diminuição geral das inscrições1

Romanização onomástica

A placa da Fonte Figueira, de meados do século I, identifica uma mulher com o gentilício romano Iulia e filiação pelo nome único do pai, Lupino. Os editores interpretaram a combinação como vestígio da adaptação de uma indígena aos modelos romanos. O cognome da defunta permanece incerto entre Tusca e Fusca.2

A inscrição FE 483 poderá ter registado uma mulher chamada Cássia Patrícia, mas ambos os nomes resultam de uma restituição incompleta. A possibilidade de se tratar de uma liberta foi colocada com base na identificação por dois nomes, sem prova conclusiva.3

A inscrição FE 636 conserva provavelmente o nome Iulia Chresima. O gentilício Iulia é muito frequente em Pax Iulia e o cognome grego levou os editores a propor uma origem servil e a condição de liberta, sem que o fragmento declare directamente esse estatuto.4

Escravatura e relações familiares

A estela de Ruga, de meados do século III ou pouco depois, documenta um escravo de dez anos de Quintus Iulius Gallus. A provável mãe, Amoena, dedicou-lhe o monumento com a fórmula filio piissimo. O epitáfio mostra que os vínculos familiares das pessoas escravizadas podiam ser publicamente afirmados através da epigrafia funerária.5

A Cupa de Vero, da segunda metade do século II, recorda um jovem de 19 anos e a mãe que mandou colocar o monumento. Os nomes podem ser lidos como Verus ou Vetus e Muste ou Exuste. Possíveis paralelos africanos do segundo nome e uma eventual condição servil ou libertina foram discutidos pelos editores, mas não são demonstrados pelo epitáfio.6

Infância e onomástica

A Cupa de Livínio Eutique, dos séculos II-III, conserva o epitáfio de uma criança falecida aos seis anos. O raro gentilício Livinius e o nome grego Eutiches ampliam o repertório onomástico conhecido de Pax Iulia. Ao contrário do epitáfio de Ruga, a inscrição não indica o estatuto jurídico ou social da criança, pelo que não permite classificá-la como escrava ou liberta.7

Cultos

Júpiter · Atégina · Salus · Isis · Mitra · Cíbele (culto esotérico nos arredores, IRCP 289) · Apolo

Marco Aurélio, cidadão da tribo Galéria, percorreu uma carreira que reuniu o duunvirato, o flaminato de Tibério e a prefeitura dos artífices. A CIL II 49 mostra a ligação entre magistraturas, sacerdócio e promoção social na elite da colónia. A passagem posterior para a ordem equestre era possível, mas não está documentada para este indivíduo.8

A árula FE 950 regista uma forma particular de cumprimento votivo: Publius F(…) R(…) executou a promessa de Marco Ágrio Macrino. A inscrição não esclarece a relação entre ambos. A amizade, outro parentesco ou uma prestação remunerada foram propostas como possibilidades, mas a diferença entre os gentilícios exclui uma relação de pai e filho ou de irmãos.9

Perfil económico

Manuela Alves Dias (1981): Pax Iulia tinha perfil sociocultural de cidade comercialmente activa, deduzido dos cultos praticados.

Mobilidade populacional

Estudo sistemático por Ortiz Córdoba (2020) com base em 19 inscrições (21 personagens):10

Imigração - modesta: colonos itálicos fundacionais (Gaio Coscónio de Baleizão, L. Cornelius Mitulus de Puteoli, Q. Peticius Rufus, família Cornelius Rufinus/Iulia Rufina) + apenas três imigrantes posteriores (Marco Júlio Avito de Olisipo, Iulia Quintilla de Ebora, C. Blossius Saturninus de África Proconsular - este último passou de incola de Balsa a cidadão de Pax Iulia adoptando a tribo Galéria). Gaio Coscónio é provavelmente um dos colonos iniciais ou um dos seus primeiros descendentes, mas a sua identificação como proprietário da villa da Fonte dos Frades permanece hipotética.11 A publicação original do epitáfio de Marco Júlio Avito não comprova que a peça tenha sido achada no Monte da Chaminé, apenas que passou por uma colecção ali existente.12

Emigração - mais expressiva: Augusta Emerita (Claudia Maria, Cretonia Maxima, Q. Baebius Florus); Mirobriga (C. Attius Ianuarius, medicus Pacensis); Roma (M. Iulius N(a)evianus, guarda pretoriana, coh. V praetoria). Mobilidade transitória: L. Márcio Piervs como sevir augustal em Pax Iulia e Ebora.

Asínia Priscila, falecida aos 31 anos, foi sepultada junto ao Castro dos Ratinhos, no concelho de Moura. O epitáfio qualifica-a como Pacensis. A possível expansão das letras seguintes como civis Romana foi usada para discutir a coexistência de grupos com estatutos diferentes em Pax Iulia, mas compete com a leitura coniux rarissima e deve permanecer hipotética.13

Fontes

Tags

Romano

Notas

  1. A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes) 2 3 4

  2. Placa Funerária de Santa Maria (D’Encarnação e Lopes, 2001) 2

  3. Inscrição Funerária Romana nas Muralhas de Beja (D’Encarnação e Serra, 2013) 2

  4. Cupa do Torreão das Portas de Mértola (D’Encarnação e Serra, 2018) 2

  5. Estela Funerária de Ruga (Manuela Alves Dias, 1982) 2

  6. Cupa da Herdade do Passo do Conde (D’Encarnação e Feio, 2019) 2

  7. Cupa de Eutiches, Beja (Dias e Gaspar, 2013) 2

  8. Um Flâmine de Tibério em Pax Iulia (D’Encarnação e Feio, 2014) 2

  9. Árula a Júpiter de Beja (Campos e Feio, 2026) 2

  10. Colonização e Emigração em Pax Iulia (Ortiz Córdoba, 2020) 2

  11. Placa Funerária da Fonte dos Frades (Alfenim e D’Encarnação, 1997) 2

  12. Epitáfio de Marco Júlio Avito (Manuela Alves Dias, 1983) 2

  13. Ara Funerária de Asínia Priscila (Rafael Alfenim, 1988) 2