Inscrição Funerária do Castelo de Beja (Jorge Feio, 2023)

Artigo de Jorge Feio sobre a Placa Funerária do Castelo de Beja (FE 863), monumento romano identificado durante trabalhos arqueológicos na barbacã nordeste do Castelo de Beja. A peça foi publicada como inscrição 863 do Ficheiro Epigráfico n.º 255.

Localização e reutilização

A placa encontrava-se reaproveitada na base das escadas situadas à direita da porta de entrada na Praça de Armas do Castelo. Foi identificada durante o acompanhamento arqueológico da recuperação da barbacã nordeste, quando se levantavam elementos funerários romanos incorporados nos panos da muralha e na barbacã.

O artigo relaciona esta reutilização com a proximidade da Necrópole Noroeste de Pax Iulia, embora a incorporação no castelo não permita recuperar o local exacto da sepultura original. Outros monumentos funerários foram igualmente reutilizados na fortificação, na Torre de Homenagem e na Sé Catedral.

A placa

O fragmento, em mármore de Estremoz ou Vila Viçosa, conserva provavelmente cerca de dois quintos de uma placa funerária moldurada. Mede 28 cm de altura conservada por 23 cm de largura; a espessura não foi determinada. A moldura de gola directa, limitada por um filete, tem 5,5 cm de largura.

A leitura proposta é:

[D(iis) M(anibus)] S(acrum) / (...) TERTI / (...) [F(ilii)] AN(norum) XXX / [H(ic) S(itus) E(st) S(it)] T(ibi) T(erra) L(evis) (hedera)

O texto consagrava o monumento aos deuses Manes, indicava a idade de trinta anos e terminava com a fórmula “aqui jaz; que a terra te seja leve”. Uma folha de hera cordiforme, com o pecíolo voltado para cima, fecha a inscrição. Jorge Feio salienta a elegância deste sinal, invulgar na epigrafia de Pax Iulia.

As letras, com 3,5 cm, são actuárias, próximas do monumental quadrado e rematadas por serifas. A pontuação usa pontos triangulares. A invocação aos Manes, a fórmula final e a paleografia sustentam uma datação provável na segunda metade do século I.

Identidade incompleta

A sequência TERTI não permite identificar com segurança a pessoa sepultada. Pode ser o início do cognome masculino Tertius, do feminino Tertia ou o genitivo Terti, “de Tércio”. O espaço perdido poderá ter contido um nome como Iulius ou Iulia, por extenso ou abreviado.

O sexo, o nome completo e a relação familiar indicada pelo possível [F(ilii)] permanecem desconhecidos. A inscrição documenta uma pessoa de trinta anos, mas não permite atribuir-lhe uma identidade onomástica segura.

A necrópole noroeste

Jorge Feio delimitou em 2023 uma área aproximada de 2,90 hectares entre a Rua de Olivença e o Largo de Santo Amaro, a muralha e o topo norte da Avenida Miguel Fernandes, a Rua do Padre António Vieira e a Rua das Pedras, e o alinhamento da Rua João de Deus. Uma síntese posterior, publicada em 2025, ampliou a estimativa da necrópole noroeste para mais de quatro hectares.

Entre os indícios funerários, o artigo recorda a Sepultura de Incineração da Rua de São Sebastião n.º 1, onde M. Conceição Lopes recolheu uma urna, uma tigela e fragmentos de um unguentário. Refere ainda cerâmica comum e terra sigillata galorromana observadas, fora de contexto, nas raízes de uma árvore caída.

Entidades mencionadas

Documentos relacionados

Como citar

Referência (APA): Feio, Jorge (2023). Inscrição funerária do Castelo de Beja. Ficheiro Epigráfico, (255), inscrição 863, 9-13.

Tags

Arqueologia Epigrafia Romano