Villae Romanas do Território Pacense
Rede de estabelecimentos rurais romanos no território da civitas de Pax Iulia (~2.500 km²).
Tipologia
- Villae: nas melhores terras agrícolas; pars urbana e pars rustica; espelho da riqueza do proprietário1
- Casais: solos menos aptos; actividades complementares (floresta, pastorícia, caça)1
- Pequenas instalações dispersas: subordinadas às villae1
Estabelecimentos identificados1 2
| Local | Notas |
|---|---|
| São Cucufate | Primeira villa sistematicamente escavada e publicada em Portugal |
| Villae de Pisões | Culto de Atégina (IRCP 287); escravo de Gaio Atílio Cordo (IRCP 290); pequena peça inscrita FE 801, de função incerta; estrutura periférica e sistema hidráulico34 |
| Monte da Cegonha | Vidigueira; escavada por Lopes/Alfenim (1994) |
| Represas | Inscrição honorífica de Lúcio Vero (IRCP 291) |
| Monte da Chaminé - Santa Vitória | A inscrição de Marco Júlio Avito passou por uma colecção neste monte; o local exacto do achado é desconhecido5 |
| Fonte dos Frades | Sala com ábside, mosaicos, peristilo e termas; Gaio Coscónio, finais séc. I a.C.6 |
| Fonte Figueira | Cerca de 12 000 m² de dispersão de materiais, paredes romanas visíveis e placa funerária de meados do séc. I7 |
| Monte da Robala | Estruturas monumentais visíveis à superfície; extensa necrópole da Antiguidade Tardia cerca de 100 m a sul e tampa paleocristã com epitáfios de 484 e 5668 |
| Herdade do Paço do Conde | Duas cupae funerárias romanas; a identificação do estabelecimento como villa ou vicus é apenas uma hipótese9 |
| Monte do Montinho | Villa ocupada de finais do séc. I a.C. ao séc. VI, com torcularium, termas, ninfeu, mosaicos e um fragmento de dolium inscrito10 |
| Torre da Cardeira | Uma das mais importantes villae da civitas, com continuidade até à Antiguidade Tardia e Alta Idade Média e vestígios de culto cristão11 |
| Monte Estrela 3 | Sítio de Baleizão possivelmente correspondente a uma villa romana; um tijolo de interpretação discutida terá coberto uma sepultura destruída12 |
| Villa Romana da Rua do Poço Novo (Trigaches) | Área termal com praefurnium, hypocaustum e canalização; restantes sectores e cronologia romana exacta desconhecidos13 |
| Vale de Barrancas (Pego da Lã) | Casal agrícola modesto com cerca de 500 m², habitação, forno, silo, fossas e dependências agro-pecuárias14 |
| Cidade das Rosas · Cidade dos Pilares · Apolinárias · Suratesta | Outras villae inventariadas (Lopes, 2007) |
Na área rural entre a Quinta do Paço do Conde, o Vale de Alcaide e o Monte do Olival dos Frades são referidos vários assentamentos romanos. As três peças conservadas no último monte não têm, porém, proveniência arqueológica conhecida e não podem ser atribuídas a uma villa específica.15
A Ara Romana do Monte da Atouguia, encontrada na área rural de Baleizão, poderá também ter pertencido a uma villa próxima. Trata-se apenas de uma hipótese baseada no contexto geral: não foram identificadas estruturas nem uma associação estratigráfica que permitam reconhecer o estabelecimento de origem.16
A Pedrinha com Inscrição da Villa de Pisões, recolhida à superfície em 1997, acrescenta um objecto de possível uso quotidiano ao conjunto conhecido da villa. A ausência de contexto estratigráfico e a leitura incerta impedem associá-la com segurança a uma actividade produtiva ou a uma fase cronológica.3
A estrutura periférica de Pisões, encontrada cerca de 100 m além do núcleo central conhecido, poderá documentar uma área mais extensa do estabelecimento. A interpretação como parte da pars rustica ou da pars frumentaria é apenas uma hipótese. O mesmo acompanhamento identificou outro troço do canal de abastecimento, relacionado com a barragem e com a ampla rede hidráulica da villa.4
O Monte do Montinho documenta uma ocupação rural prolongada e diversificada. O torcularium atesta uma componente produtiva, enquanto as termas, os mosaicos e o ninfeu pertencem ao sector residencial. O dolium FE 813 acrescenta um testemunho da armazenagem, embora a sua capacidade de 922,2 litros seja apenas uma estimativa.10
Na Herdade das Barbas de Lebre 1, em Baleizão, a dispersão de materiais confirma uma ocupação romana ou tardo-romana, mas a vala acompanhada em 2022 não revelou estruturas ou camadas conservadas. A identificação do local como um possível pequeno estabelecimento rural permanece, por isso, uma hipótese.17
A Torre da Cardeira documenta a transformação religiosa de uma villa de longa duração. A Ara Anepígrafa da Torre da Cardeira poderá ter sido adaptada a suporte de altar cristão, e o fuste conserva encaixes posteriores de transennae. A interpretação cristã é provável, mas o edifício onde as peças foram reutilizadas não foi identificado.11
O Monte Estrela 3 foi identificado como possível villa, mas não dispõe de um contexto escavado que confirme essa classificação. O tijolo FE 867, atribuído oralmente a uma sepultura destruída, poderá documentar a cristianização de um estabelecimento rural no século IV ou nos inícios do V. Tanto a leitura cristã dos sulcos como a cronologia permanecem discutidas.12
A Villa da Fonte dos Cântaros, CNS 6035, fica a cerca de 300 m do edifício paleocristão do Monte do Arcediago. A dispersão de materiais alcança as fundações, mas não permite saber se a villa e o espaço cristão foram contemporâneos ou se este ocupou uma propriedade já abandonada.18
A villa da Rua do Poço Novo é conhecida sobretudo pela sua área termal. A extensão da pars urbana para norte, a localização das dependências agrícolas a oeste, a equivalência com Trigaches 1 e a associação a uma possível necrópole rural são propostas dos escavadores, não conclusões demonstradas.13
O Vale de Barrancas (Pego da Lã) mostra uma escala inferior à das villae monumentais. A escavação reduziu a área efectiva das ruínas de cerca de 2 ha de dispersão superficial para aproximadamente 500 m² e identificou um casal agrícola familiar. O caso demonstra o risco de classificar assentamentos rurais apenas pela extensão dos materiais revolvidos pelas lavouras.14
Hierarquia dos estabelecimentos rurais
- Villae - topo da hierarquia; conforto (estuques, mármores, mosaicos, importados); melhores solos2
- Casais - exploração familiar; solos médios/fracos; actividades complementares; alguns até 0,3 ha2
- Pequenos sítios - apoio às villae; armazenamento, estábulos, moinhos; taipa e colmo; 100-600 m²; sem residência permanente2
Conclusões
- Inexistência de latifúndios da ordem dos 1800 ha (contra Gorges, 1979)1
- Estrutura hierárquica articulada com a qualidade dos solos1
- Morfologia agrária (parcelários) - ainda por estudar sistematicamente1
Fontes
- A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes) - cap. 6
- A Civitas de Pax Iulia (M. Conceição Lopes, 2007) - síntese da rede rural
- Epitáfio de Marco Júlio Avito (Manuela Alves Dias, 1983) - proveniência documental da inscrição associada ao Monte da Chaminé5
- Placa Funerária da Fonte dos Frades (Alfenim e D’Encarnação, 1997) - arquitectura e epigrafia da villa de Baleizão6
- Placa Funerária de Santa Maria (D’Encarnação e Lopes, 2001) - vestígios e epigrafia da villa da Fonte Figueira7
- Duas Inscrições Funerárias Paleocristãs de Nossa Senhora das Neves (D’Encarnação e Feio, 2016) - continuidade funerária cristã junto da villa do Monte da Robala8
- Cupa da Herdade do Passo do Conde (D’Encarnação e Feio, 2019) - duas cupae e hipótese de um estabelecimento romano na herdade9
- Epígrafes do Monte do Olival dos Frades (Jorge Feio, 2021) - três monumentos romanos e limites da atribuição aos assentamentos rurais de Baleizão15
- Ara Romana do Monte da Atouguia (Jorge Feio, 2021) - ara anepígrafa rural e hipótese não demonstrada de proveniência de uma villa16
- Pedrinha com Inscrição da Villa de Pisões (D’Encarnação e Lopes, 2022) - pequeno objecto inscrito de função e leitura incertas, recolhido à superfície em Pisões3
- Fragmento de Dolium com Inscrição do Monte do Montinho (Jorge Feio, 2022) - estruturas, materiais e cronologia da villa do Monte do Montinho10
- Tijolo com Grafito da Herdade das Barbas de Lebre (Miguel Serra, 2022) - ocupação romana ou tardo-romana e hipótese de um pequeno estabelecimento rural em Baleizão17
- Ara Anepígrafa da Torre da Cardeira (Jorge Feio, 2023) - continuidade e provável cristianização de uma villa de Baleizão11
- Possível Monograma em Forma de Crux Decussata do Monte Estrela 3 (Jorge Feio, 2023) - possível villa, sepultura destruída e hipótese de cristianização rural12
- Monte do Arcediago - Um Possível Monasterium (Feio e Costa, 2025) - relação incerta entre a Villa da Fonte dos Cântaros e um edifício cristão rural18
- Novos Dados para o Conhecimento da Villa Romana de Pisões (Miguel Serra, 2007) - estrutura periférica, canal de abastecimento e possível ampliação da área conhecida de Pisões4
- Intervenção de Emergência numa Villa dos Arredores de Pax Iulia (Serra e Porfírio, 2009) - área termal e interpretação de uma villa rural junto a Trigaches13
- Trabalhos Arqueológicos no Vale de Barrancas (Jesus et al., 2001) - casal agrícola de Mombeja e limites da classificação por dispersão superficial14
Tags
Arqueologia Mundo rural Romano
Notas
-
A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes) ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7
-
A Civitas de Pax Iulia (M. Conceição Lopes, 2007) ↩ ↩2 ↩3 ↩4
-
Pedrinha com Inscrição da Villa de Pisões (D’Encarnação e Lopes, 2022) ↩ ↩2 ↩3
-
Novos Dados para o Conhecimento da Villa Romana de Pisões (Miguel Serra, 2007) ↩ ↩2 ↩3
-
Epitáfio de Marco Júlio Avito (Manuela Alves Dias, 1983) ↩ ↩2
-
Placa Funerária da Fonte dos Frades (Alfenim e D’Encarnação, 1997) ↩ ↩2
-
Placa Funerária de Santa Maria (D’Encarnação e Lopes, 2001) ↩ ↩2
-
Duas Inscrições Funerárias Paleocristãs de Nossa Senhora das Neves (D’Encarnação e Feio, 2016) ↩ ↩2
-
Cupa da Herdade do Passo do Conde (D’Encarnação e Feio, 2019) ↩ ↩2
-
Fragmento de Dolium com Inscrição do Monte do Montinho (Jorge Feio, 2022) ↩ ↩2 ↩3
-
Ara Anepígrafa da Torre da Cardeira (Jorge Feio, 2023) ↩ ↩2 ↩3
-
Possível Monograma em Forma de Crux Decussata do Monte Estrela 3 (Jorge Feio, 2023) ↩ ↩2 ↩3
-
Intervenção de Emergência numa Villa dos Arredores de Pax Iulia (Serra e Porfírio, 2009) ↩ ↩2 ↩3
-
Trabalhos Arqueológicos no Vale de Barrancas (Jesus et al., 2001) ↩ ↩2 ↩3
-
Epígrafes do Monte do Olival dos Frades (Jorge Feio, 2021) ↩ ↩2
-
Tijolo com Grafito da Herdade das Barbas de Lebre (Miguel Serra, 2022) ↩ ↩2
-
Monte do Arcediago - Um Possível Monasterium (Feio e Costa, 2025) ↩ ↩2