A Via Romana de Pax Iulia a Mirtilis (Francisco Bilou)
Artigo de Francisco Bilou sobre a via romana de Pax Iulia (Beja) a Mirtilis (Mértola) — o iter XXII do Itinerário de Antonino — e uma tentativa de fixar o seu traçado. Ver o tema Via Romana de Pax Iulia a Mirtilis.
🛣️ A grande ligação terrestre entre Beja e o porto fluvial de Mértola (a saída do interior cerealífero e mineiro alentejano para o mar, pelo Guadiana).
Nota de edição: o autor desenvolveu a mesma tese, vista do lado de Mértola, no artigo “Mértola: caminhos antigos entre a terra e o mar” (revista Monumentos, n.º 36) — mesma obra, não foi criada nota separada. Daí provém a proposta de traçado abaixo.
A via (iter XXII)
- Beja era a caput viae (cabeça da via); distância de 36 milhas romanas (~53 km) até Mértola
- Traçado incerto em boa parte (poucos miliários, troços de calçada ou pontes conhecidos); Bilou recorre à toponímia, ao cadastro, à geomorfologia e à cartografia antiga (levantamento geodésico de 1875)
- Origem fundacional/militar: foi a via que estruturou a ocupação do espaço intermédio, e não o contrário
- Atravessava a ribeira de Terges (melhor passagem junto à actual ponte de 1861, perto da confluência com a ribeira de Cobres); a estrada nacional 122 retoma o eixo antigo
O miliário de Santa Clara do Louredo
- O único miliário conhecido da via foi encontrado junto a Santa Clara do Louredo, estudado e datado por José D’Encarnação do ano 293 d.C. (IRCP); fica a pouco mais de 4 km de Beja, o que resolve a leitura equívoca das “36 milhas”
- O topónimo “calçada” nas imediações reforça a passagem da via
Três vias antigas a sair de Beja
O cotejo documental mostra que saíam de Beja pelo menos três vias antigas para Sul/Sudoeste, sobrepostas à saída da cidade e depois divergentes:
- A que passava junto a Santa Clara do Louredo (a do miliário)
- Uma intermédia dirigida a Mértola por Mosteiro (eventualmente por Cabeça Gorda, Passarão, Légua, Corte Gafo)
- Outra dirigida a Serpa, por Quintos
- O arcebispo Cenáculo já notara a “estrada romana principal de Beja a Julia Myrtilis” com duas estradas paralelas mais estreitas a oriente
- A via servia o transporte de materiais pesados — nomeadamente o mármore de Trigaches, usado na Myrtilis romana, transportado em carros de tração animal
Traçado proposto (à saída de Beja)
Bilou propõe como iter principal: saída pela Porta de Mértola em direcção ao “monte” homónimo e à antiga “estrada do Vale de Mértola”, pelas imediações dos topónimos Misericórdia, Falcões e Picamilho, ao longo do limite de freguesia até Marco Quebrado (possível miliário), depois por Alfarrobeira e Montinho, juntando-se à actual EN122 até Mértola — pouco mais de 50 km (próximo das 36 milhas romanas)
Entidades mencionadas
- Pessoas: Francisco Bilou (autor) · José D’Encarnação · M. Conceição Lopes (Conceição Lopes) · Santiago Macias · Cláudio Torres · Duarte de Armas
- Locais: Mértola (Mirtilis) · Santa Clara do Louredo · ribeira de Terges
- Temas: Via Romana de Pax Iulia a Mirtilis · Pax Iulia — Roma em Beja · Urbanismo Romano de Pax Iulia
Documentos relacionados
- As Antiguidades da Lusitânia (André de Resende) — conteúdo de Beja — o Itinerário de Antonino (Esuri → Pax Iulia por Myrtilis)
- A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes) — Pax Iulia e o seu território
Como citar
Referência (APA): Bilou, Francisco (s.d.). A Via Romana de Pax Iulia a Mirtilis.