O Último Grande Edifício Romano de Beja (Leonel Borrela)
Dois artigos consecutivos (I e II) de Leonel Borrela no Diário do Alentejo (Junho-Julho de 2006), em que o autor propõe uma tentativa de reconstituição arquitectónica de um grande edifício romano de Pax Ivlia — provavelmente um arco triunfal — a partir dos elementos pétreos dispersos pelos museus e pela cidade. Assumidamente “uma achega deliberada e polémica”.
Tese central
Borrela reúne um conjunto de elementos arquitectónicos romanos que considera pertencerem a um único programa construtivo, pela coerência de material, escala e cinzelado:
- Capitéis coríntios de folhas lisas (não naturalistas), em mármore de Trigaches/S. Brissos, ~90-105 cm de altura;
- O grande capitel compósito/coríntio de dois blocos descoberto n’Os Infantes (Rua dos Infantes) em Dezembro de 1982, datado de fins do séc. I / inícios do II;
- Um segundo capitel coríntio de folhas lisas, inédito, achado na Rua do Touro em Julho de 2005;
- cabeças de touro (incluindo uma inédita da Rua do Touro, Agosto de 2005) — elementos decorativos de um friso/entablamento;
- Fustes lisos (~90 cm de diâmetro), cornijas fragmentadas, capitéis compósitos de coluna.
O arco triunfal conjectural
- O conjunto teria, da base do podium à cornija, ~14,4 m de altura; o arco, ~16 m de largura, com vão de ~5 m de diâmetro (intradorso).
- Seguindo as regras de Vitrúvio e de Vignola, Borrela compara com o fórum de Trajano (acesso por arco triunfal de um só vão) e atribui a obra ao período dos Flávios — Vespasiano, Tito e Domiciano —, época de maior expressão da ordem compósita, “a mais barroca e exuberante de Roma”.
- Em II, analisa os três lados do capitel (compósita + coríntia) para deduzir como estava montado: lado 1 (coluna adossada) envolvido por construção; lado 2 (pilastra) livre, no alçado principal; lado 3 (coríntio de pilastra, ~20 cm mais baixo) recebendo o arco.
- Compara com monumentos de ordem compósita: Ninfeu e Biblioteca de Celso (Éfeso, Trajano), agora de Mileto, Arco de Tito (~70 d.C.), arcos de Septímio Severo e dos Argentários.
Localização do fórum e dos eixos viários
Borrela discute onde estaria o fórum: sugere que pode estar mais a norte, no quarteirão entre o Museu Regional e a Praça da República, dado que as obras dos edifícios do município e das finanças (anos 50) — na “área convencional” do fórum — nada deram, ao passo que entre as ruas dos Infantes e do Touro os achados são abundantes.
- Localiza o Cardo máximo entre a porta romana de “Vipasca” (Rua Brito Camacho) e o recanto da Rua dos Pintores (entre Porta de Avis e Portas de Moura), passando pela torre da Travessa do Cepo e Torre de Santa Maria.
- Discorda de Vasco Mantas, que (julgando romanas as portas de Aljustrel, na verdade medievais e demolidas em 1863) traça dali o Cardo máximo.
- O Decumanus viria das Portas de Mértola pela antiga Rua do Touro (onde em 2005 se observou calçada romana numa vala junto ao cine-teatro Pax Júlia).
Culto e cabeças de touro
Anuncia (para artigos futuros) a relação entre as cabeças de touro, a lápide dedicada a Serápis Panteo (“deus dos deuses”) do Museu Regional, o culto de Ísis e Serápis e o culto mitraico — ver Cabeças de Touro de Beja.
Reaproveitamento medieval
Com a remodelação cristã (torre de menagem, igrejas, palácios, restauro da muralha), as grandes estruturas em opus quadratum foram desmontadas e reutilizadas; sobraram capitéis, fustes, cornijas e cabeças de touro — que o padre Pires Nolasco (1734) julgava de “um palácio muito antigo”.
Entidades mencionadas
Leonel Borrela · Pax Iulia — Roma em Beja · Capitéis Romanos de Beja · Cabeças de Touro de Beja · Forum de Pax Iulia · Rua dos Infantes · Rua do Touro · Museu Rainha D. Leonor · Praça da República (Beja) · Porta de Avis · Portas de Moura · Porta de Mértola · Vasco Mantas · Antonieta Ribeiro · Abel Viana · Jorge de Alarcão · Tito Flávio Vespasiano · P. Pedro Pires Nolasco Serrano · Teatro Pax-Júlia
Documentos relacionados
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- A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes)
- Urbanismo Romano de Pax Iulia
Como citar
Referência (APA): Borrela, Leonel (2006). O Último Grande Edifício Romano de Beja. Diário do Alentejo (Iconografia Pacense).