Colonização e Emigração em Pax Iulia (Ortiz Córdoba, 2020)

Artigo de José Ortiz Córdoba (Universidade de Granada) publicado na Revista de História da Sociedade e da Cultura, vol. 20 (2020), pp. 29–52. Estuda as dinâmicas de mobilidade populacional na colónia Pax Iulia com base num corpus de 19 inscrições epigráficas que documentam 21 personagens. Identifica imigrantes (por origo expressa, tribu estranha à Galeria ou onomástica itálica) e emigrantes (por origo Pacensis fora da cidade).

Fundação e estatuto da colónia

Pax Iulia é uma das cinco colónias romanas fundadas na Lusitânia entre a ditadura de César e o início do Principado. Plínio menciona-a como Colonia Pacensis e capital conventual (NH, IV, 117); Ptolomeu (II, 5, 4) e as emissões monetárias com a abreviatura PAX IVL confirmam o nome. Estrabão (III, 2, 15) é o único a chamá-la Pax Augusta, nomenclatura que gerou longa discussão.

A colónia ergueu-se sobre um oppidum indígena da Idade do Ferro (identificado recentemente nas escavações da área do castelo medieval), transformando tanto a malha urbana — com muralha de época de Augusto (AE 1989, 368) e foro na parte alta da cidade — como o território circundante, onde foram registadas pelo menos duas centuriações. A cidade gozava do ius Italicum (Dig. L, 15, 8), privilégio de grande alcance jurídico.

Data de fundação

O autor segue a tese de F. Vittinghoff (1951) e António M. Faria: fundação por Octaviano entre 31 e 27 a.C. Os argumentos principais são:

  • Os habitantes de Pax Iulia pertencem à tribo Galeria, usada recorrentemente por Octaviano/Augusto nas promoções hispânicas;
  • A cronologia das cunhagens locais, realizadas para comemorar a deductio;
  • O epíteto Pax nunca foi usado por César e remete para a propaganda de Octaviano após Áccio — com paralelos em Forum Iulii (Fréjus) e Aleria (Córsega).

Ortiz Córdoba acrescenta: o elevado número de Caii Iulii na epigrafia pacense (IRCP 233, 239, 246, 265, 267, 291, 302, 305), que reflectiria laços de clientela com o fundador; e o ius Italicum, concedido na Hispânia apenas a colónias de fundação castrense.

Composição dos colonos fundadores

Debate em aberto: fundação militar (veteranos de Marco António, segundo A. M. Faria, o que explicaria a ausência de referências a unidades na epigrafia local — os ex-soldados de António teriam silenciado as suas legiões) versus fundação civil (Vasco Mantas: município de direito latino em 29-28 a.C., promovido a colónia em 15 ou 2 a.C.). A ausência de qualquer menção a unidades militares nas inscrições pacenses é o principal argumento de Mantas contra a origem castrense.

Estrabão (III, 2, 15) refere “cidades mistas” em Pax Iulia, Augusta Emerita e Caesar Augusta — possível coexistência de cidadãos romanos e indígenas romanizados. A inscrição CIL II, 52 menciona utrique sen[atui], sugerindo um duplo senado; a epígrafe de Asinia Priscilla (AE 1989, 370, Moura) levou José D’Encarnação a postular duas comunidades de estatuto diferente na mesma colónia.

Imigração

Primeiros colonos e descendentes (Tabela 1)

PersonagemCronologiaProvável origemReferênciaLocal de achado
C. CosconiusSéc. I d.C.ItálicaAE 1997, 768Baleizão (Beja)
L. Cornelius MitulusMeados séc. I a.C.Itálica (Puteoli)AE 1986, 279Castro Verde
Q. Peticius RufusInícios séc. I d.C.Itálica (etrusca?)IRCP 271Beja
C. Albius AlbicusIndeterminadaDescendente de itálicosIRCP 297Beja
Cornelia Avita / Cornelius Rufinus / Iulia RufinaFins séc. I / inícios IIDescendentes de itálicosIRCP 329Beja
M. Antonius Augustanus75–96 d.C.Natural de Pax IuliaCIL II, 2425Bracara Augusta

Sobre L. Cornelius Mitulus: o cognomen Mitulus está documentado apenas em Pax Iulia e em Puteoli (CIL X, 2300), o que levou Manuela Alves Dias a identificá-lo como imigrante itálico; a ausência de cognomen na inscrição e a formulação em genitivo datam o texto de meados do séc. I a.C., tornando-o um dos testemunhos mais antigos da colónia.

M. Antonius Augustanus (CIL II, 2425) é natural de Pax Iulia (origo + tribu Galeria), serviu durante 18 anos na centúria de Mamilius Lucanus da legio VII Gemina e faleceu aos 45 anos em Bracara Augusta. O nomen Antonius — único na epigrafia pacense — remeteria ao triunviro Marco António, o que reforça a hipótese de Faria sobre os colonos fundadores.

Imigração posterior à fundação (Tabela 2)

Apenas três inscrições documentam imigração pós-fundacional:

  • M. Iulius Avitus (IRCP 296, séc. I d.C.) — olisiponense; o local de achado do seu epitáfio, o Monte da Chaminé — Santa Vitória, a meio caminho entre a zona mineira de Vipasca e Pax Iulia, sugere que podia ser mineiro. A sua presença pode também relacionar-se com o sodalicium bracarorum documentado em Pax Iulia e ligado à actividade mineira.
  • Iulia Quintilla (IRCP 295, séc. II d.C.) — natural de Ebora; morreu em Pax Iulia aos 42 anos; o epitáfio foi dedicado pelo filho, Q. Petronius Maternus.
  • C. Blossius Saturninus (IRCP 294, sécs. II-III d.C.) — oriundo de Iulia Neapolis (África Proconsular); residiu primeiro em Balsa como incola; mudou-se depois para Pax Iulia, onde adoptou a tribu Galeria em substituição da sua original (Arniensis de Iulia Neapolis). A mudança de tribu, que exigia autorização decurional, indica plena integração cívica — e provavelmente actividade comercial.

Emigração

Para as províncias hispânicas

Augusta Emerita recebeu três pacenses:

  • Claudia Maria (CIL II, 517, fins séc. I d.C.) — epitáfio dedicado por Ti. Claudius Artemidorus (provável liberto);
  • Cretonia Maxima (AE 1971, 147, sécs. I-II d.C.) — morreu aos 80 anos em Mérida; casou com um Aplanius, adoptando a tribu Papiria (caso raro no mundo feminino); o filho P. Aplanius Marcianus nasceu já em Mérida e morreu antes da mãe;
  • Q. Baebius Florus (CIL II, 516, meados séc. II d.C.) — o epitáfio foi dedicado pelos pais P. Iulius Hermetion e Iulia Daphne (cognomina gregos → libertos); possivelmente filho adoptivo de um pacense.

Norba Caesarina: L. Fabius Verecundus (AE 1991, 960, segunda metade séc. I d.C.), morreu aos 60 anos.

Mirobriga: C. Attius Ianuarius (IRCP 144, séc. II d.C.) — designado medicus Pacensis na inscrição. Debate historiográfico: o adjectivo Pacensis qualifica o médico como natural de Pax Iulia (posição de Ortiz Córdoba) ou como médico público da colónia (posição de D’Encarnação)? Ianuarius fez uma dedicatória a Esculápio em Mirobriga e legou no seu testamento verba para celebrar Quinquatrias (festas de Minerva, padroeira dos médicos). O seu herdeiro, Fabius Isas, executou o legado.

Zona de Moura (território provavelmente fronteiro com Pax Iulia):

  • Modesta (CIL II, 970, 2.ª metade séc. I d.C.) — filha de Modestus; morreu aos 12 anos; o epitáfio tem fórmula rara no conventus: te rogo praeteriens dic sit tibi terra levis;
  • Asinia Priscilla (AE 1989, 370, séc. II d.C.) — epitáfio dedicado pelo marido; a abreviatura PACCR é debatida: Pac(ensis) c(oniux) r(arissima)? ou Pac(ensis) c(ivis) R(omana)?

Mobilidade transitória: L. Marcius Pierus (IRCP 241) foi sevir augustal em Pax Iulia e em Ebora, deslocando-se entre as duas cidades para cumprir as suas obrigações no culto imperial. Os amici de Ebora homenagearam-no aere conlato ob merita eius; ele recusou os gastos (honore contentus impensam remisit).

Para além da Península

M. Iulius N(a)evianus (CIL VI, 32682, fins séc. I / inícios II d.C.) é o único pacense documentado fora da Hispânia. Serviu 16 anos na centúria de Gavius da cohors V praetoria; morreu em Roma aos 35 anos sem honesta missio — portanto ainda em serviço activo.

Conclusões do autor

A imigração em Pax Iulia foi modesta. A primeira fase colonial trouxe um grupo de itálicos (identificados pela onomástica) que formou o núcleo da nova civitas, com eventual integração de indígenas romanizados (sugerida pelos numerosos Caii Iulii). Após a deductio, a chegada de estrangeiros reduziu-se a três casos.

Como centro emissor, Pax Iulia foi mais activa: a emigração concentrou-se em Augusta Emerita (capital provincial) e em outras cidades da Lusitânia, motivada por alianças matrimoniais, mobilidade laboral (mineiros, médico), obrigações religiosas (sevir augustal) e serviço militar.

Pax Iulia distingue-se de outras colónias lusitanas porque o serviço militar não foi a principal causa de emigração dos seus habitantes.

Como citar

Ortiz Córdoba, J. (2020). Colonización y emigración en Pax Iulia. Revista de História da Sociedade e da Cultura, 20, 29–52. https://doi.org/10.14195/1645-2259_20_2

Fontes relacionadas