Ara Anepígrafa da Torre da Cardeira (Jorge Feio, 2023)
Artigo de Jorge Feio sobre a Ara Anepígrafa da Torre da Cardeira, monumento romano proveniente da Torre da Cardeira, em Baleizão, concelho de Beja. A peça foi publicada como inscrição 848 do Ficheiro Epigráfico n.º 248 e recebeu uma adenda no fascículo 250.
A Torre da Cardeira
Na Torre da Cardeira foi identificada uma das mais importantes villae romanas do território de Pax Iulia. A ocupação prolongou-se até uma fase tardia, com vestígios de culto cristão durante a Antiguidade Tardia e a Alta Idade Média.
O sítio conserva testemunhos distintos. A ara anepígrafa FE 848 não deve ser confundida com a ara votiva dedicada a Atégina, também proveniente da Torre da Cardeira e publicada como IRCP 287.
Entrega do espólio
Em Fevereiro de 2023, Alexandra Leandro contactou os técnicos da Câmara Municipal de Beja para entregar várias peças arqueológicas recolhidas pelo pai, já falecido, nos montes onde trabalhara, sobretudo na Torre da Cardeira.
Uma equipa municipal formada por Rui Aldegalega, Tânia Matias e Teresa Aroche recolheu o conjunto na Horta do Cano, em Beja. Entre os materiais encontravam-se a ara e um fuste em dois fragmentos.
A ara
A peça foi talhada em mármore com veios cinzentos de Trigaches e mede 68 por 31 por 19 cm. Não apresenta inscrição gravada, embora Jorge Feio admita a possibilidade de ter recebido uma inscrição pintada.
Pela forma e pelas dimensões, aproxima-se da Ara Romana do Monte da Atouguia, outro monumento anepígrafo encontrado na área rural de Baleizão.
Transformação tardia
O focus das libações e os toros laterais foram partidos. O topo recebeu uma forma tronco-piramidal regular que poderá ter funcionado como encaixe numa mesa de altar. A saliência da base, originalmente destinada ao compartimento das cinzas, poderá ter sido adaptada a uma lipsanoteca colocada sob o altar.
Jorge Feio considera provável que a ara romana tenha sido transformada em suporte de altar de um edifício cristão durante a Antiguidade Tardia. A função exacta não está demonstrada, porque o edifício e o contexto da reutilização não foram identificados.
O fuste recolhido com a ara apresenta dois encaixes de transennae executados depois da produção da peça. Este elemento reforça a hipótese de reutilização num edifício religioso cristão, sem a confirmar.
Adenda e percurso da peça
Depois da publicação inicial, Jorge Feio reconheceu que Maria da Conceição Lopes tinha fotografado e descrito brevemente a ara em A Cidade Romana de Beja (2003). O registo confirma o percurso moderno do monumento: a investigadora observou-o na Torre da Cardeira e a equipa municipal recolheu-o mais tarde na Horta do Cano.
Entidades mencionadas
- Pessoas: Jorge Feio · Alexandra Leandro · Rui Aldegalega · Tânia Matias · Teresa Aroche · M. Conceição Lopes
- Locais: Torre da Cardeira · Ara Anepígrafa da Torre da Cardeira · Fuste Reutilizado da Torre da Cardeira · Horta do Cano · Baleizão · Câmara Municipal de Beja · Trigaches · Ara Romana do Monte da Atouguia
- Temas: Ficheiro Epigráfico · Epigrafia Romana de Beja · Villae Romanas do Território Pacense · Beja Visigótica · Atégina
Documentos relacionados
- A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes) - publicação anterior da fotografia da ara e enquadramento da villa
- Ara Romana do Monte da Atouguia (Jorge Feio, 2021) - ara anepígrafa formalmente próxima
- Marcas Arquitectónico-Artísticas da Cristianização do Território entre Évora e Beja (Jorge Feio) - cristianização do território rural de Pax Iulia
Como citar
Referência (APA): Feio, Jorge (2023). Ara da Torre da Cardeira, Baleizão, Beja (Conventus Pacensis). Ficheiro Epigráfico, (248), inscrição 848, 14-16.
Adenda: Feio, Jorge (2023). Ad n. 848. Ficheiro Epigráfico, (250), 4.