Terra Sigillata da Rua da Palma - A Necrópole Noroeste de Pax Iulia (Feio e Sousa, 2025)

Artigo de Jorge Feio (arqueólogo da Câmara Municipal de Beja) e Ana Gião Sousa que estuda um conjunto de fragmentos de terra sigillata itálica e sudgálica recolhido em 2008 na Rua da Palma n.º 3, e o aproveita para contextualizar a necrópole noroeste da Colonia Pax Iulia. Publicado na Al-Madan (Centro de Arqueologia de Almada).

🏺 Além das cerâmicas, o artigo faz a delimitação e diacronia da necrópole noroeste de Beja e reúne o rol da epigrafia funerária romana dessa área.


A necrópole noroeste de Pax Iulia

  • A Rua da Palma situava-se quase no limite sul da necrópole noroeste da Colonia Pax Iulia, junto às Portas de Évora (donde saía a via para Liberalitas Iulia Ebora) e a uma possível porta perto do Arco dos Prazeres (vias para Felicitas Iulia Olisipo/Scallabis a noroeste e para Miróbriga a ocidente).
  • Delimitação (>4 hectares): a norte, Rua de Olivença / Largo de Santo Amaro / Rua Antero de Quental; a sul, a muralha e o topo norte da Avenida Miguel Fernandes; a poente, Rua do Padre António Vieira; a nascente, Rua João de Deus / Rua General Teófilo da Trindade.
  • Ampla diacronia: de finais do séc. I a.C. aos sécs. XIV-XV. Aqui poderá ter existido uma basílica funerária visigótica, transformada pela comunidade moçárabe na estrutura que serve de base à actual Igreja de Santo Amaro; é também o local com o maior conjunto de estelas discóides medievais da cidade.
  • Frei Francisco de Oliveira regista que em 1664, ao fazer-se a nova fortificação, apareceram moedas com as efígies de Adriano, Antonino, Severo e Faustina - sinal de que a cidade se estendia extramuros em época romana.

As sigillatas

  • 25 fragmentos (19 com forma identificável): 8 itálicas e 11 sudgálicas.
  • Itálicas (produção de Arezzo e do Norte de Itália/Etrúria): formas Conspectus 12.3.1, 13.3.1, 14.1.2, 18.2.1, 21 e 22, e cálices R2; cronologia entre 15 a.C. e 80 d.C., com maior incidência até 30 d.C.
  • Sudgálicas (produção de La Graufesenque): sobretudo Drag. 27, Ritt. 8 e Drag. 33, além de uma Drag. 30? decorada com um quadrúpede in duplo circulo; do período flaviano e finais do séc. I.
  • Padrão: as itálicas importam-se até c. 30 d.C.; a partir de Tibério surgem as sudgálicas, que as substituem no período flaviano.
  • Significado: ainda que fora de contexto, as sigillatas servem de fóssil indicador para a datação mais antiga da necrópole: finais do séc. I a.C.

Epigrafia funerária da necrópole noroeste

O artigo reúne as inscrições funerárias associáveis a esta necrópole (numeração IRCP, José D’Encarnação 1984, e Ficheiro Epigráfico):

  • Candidilla (IRCP 253, séc. II; reutilizada na parede norte da )
  • Clodio Let(y…) (cupa, IRCP 255, sécs. II-III; da Torre de Menagem do Castelo)
  • TERTI (designado como ara nesta síntese; a publicação FE 863 descreve uma placa e admite Tertius, Tertia ou o genitivo Terti; 2.ª metade séc. I)
  • Cornelia Agate (ara, IRCP 257) e um anónimo (ara, IRCP 285) - Largo Dr. Lima Faleiro
  • Iulius Lucceianus (cupa, IRCP 266, fins séc. II-inícios III; torre no início da Rua da Guia)
  • Três desconhecidos da Rua de Mestre Manuel (IRCP 278, 279, 280)
  • Livínio Eutique (cupa, sécs. II-III, Rua Dom Manuel I; FE 464; o artigo grafa “Lavinio Eutiques”)
  • Sexti Numisi Avi (IRCP 245, cornija de mausoléu/monumentum) e Cássia Patrícia (provável placa, FE 483; o artigo de 2025 classifica-a como ara, mas a publicação original propõe uma placa e mantém o nome hipotético) - muralha junto ao Parque D. Manuel I
  • Pompeianus (IRCP 273, Rua das Pedras)

Ver Epigrafia Romana de Beja.


Entidades mencionadas

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Como citar

Referência (APA): Feio, Jorge & Sousa, Ana Gião (2025). Terra sigillata itálica e sudgálica da Rua da Palma, n.º 3, em Beja. Al-Madan, 2.ª série, (28), 72-78.

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Arqueologia Epigrafia Romano