Epigrafia Romana de Beja

Conjunto de inscrições latinas provenientes de Pax Iulia (Beja) e do seu território, que constituem uma das principais fontes para o conhecimento da cidade romana.

Principais inscrições conhecidas

Epigrafia funerária da necrópole noroeste

Um conjunto expressivo de inscrições funerárias (aras, cupae e placas de monumenta) associa-se à necrópole noroeste, muitas reutilizadas nas muralhas, no Castelo e na : Candidilla (IRCP 253), Clodio Let(y…) (255), a placa FE 863, Cornelia Agate (257), Iulius Lucceianus (266), Livínio Eutique (FE 464), Sexti Numisi Avi (245), Cássia Patrícia (FE 483), Pompeianus (273) e vários desconhecidos.23101121

Corpus e investigadores

O bispo D. Fr. Manuel do Cenáculo Vilas Boas reuniu, no século XVIII, o mais antigo corpus sistemático de inscrições bejenses - conservado num álbum na Biblioteca de Évora e numa cópia na Biblioteca Municipal de Beja. Félix Caetano da Silva transcreveu-o nas Memórias Históricas das Antiguidades de Beja (ms.). Hübner publicou muitas peças no Corpus Inscriptionum Latinarum, vol. II. José D’Encarnação reviu e ampliou o inventário no Ficheiro Epigráfico (IRCP, 1984). Leite de Vasconcelos corrigiu in loco vários textos em 1895.24

O diário de Francisco Pérez Bayer documenta uma etapa intermédia decisiva desta tradição. Entre 3 e 6 de Novembro de 1782, o viajante copiou inscrições nas ruas, portas e muralhas de Beja e na colecção do Paço Episcopal, acompanhado por Félix Caetano da Silva e por Cenáculo. O relato distingue as peças vistas na cidade das que tinham sido reunidas no Paço a partir de Beja, dos arredores e de Lisboa.25

Continuidade paleocristã

As inscrições de Bardasco (484) e Redento (566), gravadas na mesma tampa de sarcófago, mostram a passagem dos formulários funerários romanos para a Epigrafia Paleocristã de Beja. O monumento rural do Monte da Robala conserva uma sequência excepcional de 82 anos.26

Monumentos anepígrafos

O Ficheiro Epigráfico publicou como FE 568 a Possível Cupa Inacabada de Porto de Peles, apesar de o bloco não ter inscrição. A hipótese de uma peça por terminar é relevante para compreender a preparação do suporte antes da gravação, mas não autoriza a tratá-lo como monumento epigráfico concluído.27

A FE 584 corresponde à Cupa Anepígrafa do Monte dos Pombais, identificada pela forma de meia pipa e pelos aros conservados nos topos. Também neste caso, a ausência de texto impede recuperar onomástica ou formular uma datação epigráfica.28

A FE 594 reúne os Fragmentos de Cupae do Parque Vista Alegre, identificados pela decoração, pelos aros e pelo possível soco, mas sem texto epigráfico publicado. O registo demonstra a reutilização de suportes funerários nas muralhas sem permitir identificar os defuntos ou o contexto sepulcral original.29

A FE 636 publica a Cupa de Júlia Crésima, ainda embutida no torreão norte das Portas de Mértola. A leitura parcial Iulia Chresima acrescenta um possível testemunho feminino e libertino à onomástica pacense, embora o estatuto não seja declarado no texto conservado.12

A FE 686 publica a Cupa de Vero, encontrada na Herdade do Paço do Conde. O texto recorda um jovem de 19 anos e a mãe que mandou colocar o monumento. A erosão permite, contudo, ler os nomes como Verus ou Vetus e Muste ou Exuste. A presença de outra cupa na herdade reforça a importância arqueológica do local, sem comprovar a natureza do estabelecimento romano ali existente.13

A FE 694 corresponde ao Fragmento de Cupa do Centro UNESCO, reconhecido pelos aros e pela curvatura do bloco. A fractura eliminou o campo epigráfico, pelo que a peça não conserva texto, nomes ou fórmula funerária. A publicação documenta a reutilização do suporte nas muralhas, não uma nova inscrição legível.30

A FE 747 revê a Cupa de Baleizão, anteriormente publicada sem leitura e sem proveniência conhecida. A nova investigação recuperou a origem em Baleizão e leu as fórmulas inicial e final. As propostas de um gentilício terminado em -rius e do cognome Flavus não permitem identificar a pessoa sepultada.14

A FE 764-766 reúne três monumentos conservados no Monte do Olival dos Frades, em Baleizão. Na ara funerária, a erosão eliminou a possibilidade de leitura, embora se conserve na face lateral a representação de uma lagoena. A base de coluna apresenta um V invertido e quatro hastes, interpretados com dúvida como o número nove; a marca pode ter servido à montagem do edifício ou ao trabalho de cantaria. A terceira peça é apenas identificada como base de ara ou de cipo. Nenhum dos contextos arqueológicos originais é conhecido.15

A FE 773 documenta a Ara Romana do Monte da Atouguia, monumento anepígrafo identificado em Baleizão. A ausência de letras impede conhecer a dedicação ou datar a peça por critérios epigráficos. A atribuição a uma possível villa próxima permanece conjectural.16

A FE 801 publica a Pedrinha com Inscrição da Villa de Pisões. A sequência ΠICT / O C é legível, mas o seu significado permanece desconhecido. A possível função de etiqueta, a leitura PISTOR e a associação a um ambiente paleocristão dependem de várias substituições gráficas e não constituem interpretações demonstradas.17

A FE 809-810 reúne a Cupa Anepígrafa 1 do Monte da Fuzeira e a Cupa Anepígrafa 2 do Monte da Fuzeira, encontradas reutilizadas nas fundações de um armazém em São Matias. Nenhuma conserva inscrição. A primeira poderá ser um monumento inacabado; a segunda mantém aros de aduela e recebeu uma datação tipológica nos séculos II-III.31

A FE 821 publica o Tijolo com Grafito da Herdade das Barbas de Lebre, recolhido num contexto de dispersão de materiais romanos ou tardo-romanos em Baleizão. A leitura M I(?) conserva apenas uma letra segura e um segundo traço incompleto. A sugestão de uma marca de contagem não pode ser confirmada.19

A FE 848 publica a Ara Anepígrafa da Torre da Cardeira, proveniente de uma importante villa de Baleizão. A ausência de letras gravadas impede tratá-la como inscrição conservada; a possibilidade de um texto pintado não pode ser verificada. As alterações do topo e da base sustentam a interpretação provável de uma reutilização como suporte de altar cristão.20

A FE 863 publica a Placa Funerária do Castelo de Beja (FE 863), reutilizada na barbacã nordeste. A sequência TERTI admite as leituras Tertius, Tertia ou o genitivo Terti, pelo que não permite atribuir uma identidade segura. A idade de trinta anos, a consagração aos deuses Manes e a fórmula final são legíveis ou restituíveis; a datação na segunda metade do século I permanece provável.21

A FE 950 publica a Árula a Júpiter de Beja (FE 950), pequeno altar votivo provavelmente datado do século II ou dos inícios do III. A inscrição regista que Publius F(…) R(…) cumpriu um voto de Marcus Agrius Macrinus a Júpiter. O nome do executor não pode ser restituído com segurança. A proveniência original em Pax Iulia é muito provável para os editores, mas o possível lugar num templo do fórum permanece hipotético.32

Fontes

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Arqueologia Epigrafia Romano

Notas

  1. Um Flâmine de Tibério em Pax Iulia (D’Encarnação e Feio, 2014) 2

  2. Estela Funerária de Ruga (Manuela Alves Dias, 1982) 2

  3. Epitáfio de Marco Júlio Avito (Manuela Alves Dias, 1983) 2

  4. Cipo Funerário de Mombeja (Manuela Alves Dias, 1983) 2

  5. Cipo Funerário do Lamarim (Manuela Alves Dias, 1983) 2

  6. Fragmento de Cupa Epigrafado (Maria Miguel Lucas, 1988) 2

  7. Ara Funerária de Asínia Priscila (Rafael Alfenim, 1988) 2

  8. Placa Funerária da Fonte dos Frades (Alfenim e D’Encarnação, 1997) 2

  9. Placa Funerária de Santa Maria (D’Encarnação e Lopes, 2001) 2

  10. Cupa de Eutiches, Beja (Dias e Gaspar, 2013) 2 3

  11. Inscrição Funerária Romana nas Muralhas de Beja (D’Encarnação e Serra, 2013) 2 3

  12. Cupa do Torreão das Portas de Mértola (D’Encarnação e Serra, 2018) 2 3

  13. Cupa da Herdade do Passo do Conde (D’Encarnação e Feio, 2019) 2 3 4

  14. Cupa de Baleizão (Dias et al., 2020) 2 3

  15. Epígrafes do Monte do Olival dos Frades (Jorge Feio, 2021) 2 3 4 5

  16. Ara Romana do Monte da Atouguia (Jorge Feio, 2021) 2 3

  17. Pedrinha com Inscrição da Villa de Pisões (D’Encarnação e Lopes, 2022) 2 3

  18. Fragmento de Dolium com Inscrição do Monte do Montinho (Jorge Feio, 2022) 2

  19. Tijolo com Grafito da Herdade das Barbas de Lebre (Miguel Serra, 2022) 2 3

  20. Ara Anepígrafa da Torre da Cardeira (Jorge Feio, 2023) 2 3

  21. Inscrição Funerária do Castelo de Beja (Jorge Feio, 2023) 2 3 4

  22. Fragmento de Epitáfio Romano em Pax Iulia (Miguel Serra, 2025) 2

  23. Terra Sigillata da Rua da Palma - A Necrópole Noroeste de Pax Iulia (Feio e Sousa, 2025)

  24. Museu de Beja e Inscrições Latinas (Leite de Vasconcelos, 1895) 2

  25. Visita de Pérez Bayer a Beja (Leite de Vasconcelos, 1920) 2

  26. Duas Inscrições Funerárias Paleocristãs de Nossa Senhora das Neves (D’Encarnação e Feio, 2016) 2

  27. Uma Possível Cupa em Neves (Jorge Feio, 2016) 2

  28. Cupa Anepígrafa do Monte dos Pombais (Jorge Feio, 2016) 2

  29. Fragmentos de Cupae nas Muralhas de Beja (Miguel Serra, 2017) 2

  30. Novo Fragmento de Cupa na Muralha de Beja (Miguel Serra, 2019) 2

  31. Duas Cupae do Monte da Fuzeira (Jorge Feio, 2022) 2

  32. Árula a Júpiter de Beja (Campos e Feio, 2026) 2