Epigrafia Paleocristã de Beja

Conjunto de inscrições cristãs da Antiguidade Tardia provenientes da cidade e do concelho de Beja. Complementa a Epigrafia Romana de Beja e documenta a transformação das fórmulas funerárias, da escrita e dos símbolos religiosos entre os séculos V e VI.

Monte da Robala

A Tampa de Sarcófago de Bardasco e Redento, encontrada na necrópole rural do Monte da Robala, conserva dois epitáfios separados por 82 anos:1

  • Bardasco, falecido em 484, cujo epitáfio começa por depositio. Os editores consideram-no provavelmente o exemplo datado mais antigo então conhecido na Península Ibérica a usar o vocábulo no início do texto.
  • Redento, falecido em 566, cujo epitáfio é antecedido por uma cruz e usa a fórmula famulus Dei. A restituição do nome Redemptus é provável, mas incompleta.

A sucessão das duas inscrições na mesma placa permite acompanhar a evolução epigráfica durante cerca de três gerações e constitui evidência directa da cristianização rural do território bejense no século V.1

Um possível símbolo cristão em Baleizão

O Tijolo com Possível Monograma Cristão do Monte Estrela 3, encontrado num alegado contexto funerário do Monte Estrela 3, conserva um X atravessado por um sulco vertical. Jorge Feio interpreta os sinais como as letras gregas iota e chi, iniciais de Jesus Cristo, e propõe uma datação no século IV ou nos inícios do século V.2

A leitura não é consensual. José D’Encarnação admite que o X possa ser apenas uma marca de oleiro, enquanto a associação à sepultura depende de testemunho oral. A peça constitui, por isso, um possível indício de cristianização rural, não uma inscrição cristã confirmada.2

Contexto artístico

Beja integra, com Évora e Mértola, o grupo de centros meridionais com epitáfios paleocristãos decorados. As cruzes vazadas de Beja e a hipótese de uma oficina escultórica local ligam a epigrafia funerária à produção artística reunida no Núcleo Visigótico do Museu Regional de Beja.34

Continuidade do formulário no século IX

O desaparecido Epitáfio de Tiberino, datado de 855 pela restituição de Jorge Feio, conserva um formulário de tradição paleocristã: nome único, cargo eclesiástico, idade e data exacta da morte. A designação servus Dei, em vez da mais comum famulus Dei, é relacionada pelo autor com a condição de confessor da fé atribuída ao presbítero moçárabe.5

Conhecido apenas por transcrições, o monumento não permite estudar directamente a paleografia ou o suporte. A proveniência da Igreja de Santa Maria da Feira e a leitura da era devem, por isso, ser distinguidas dos epitáfios conservados materialmente.5

Fontes

Tags

Arqueologia Epigrafia Religião Antiguidade tardia

Notas

  1. Duas Inscrições Funerárias Paleocristãs de Nossa Senhora das Neves (D’Encarnação e Feio, 2016) 2 3

  2. Possível Monograma em Forma de Crux Decussata do Monte Estrela 3 (Jorge Feio, 2023) 2

  3. A Iconografia dos Epitáfios Paleocristãos - Critérios Cronológicos (Jorge Feio, 2013) 2

  4. Marcas Arquitectónico-Artísticas da Cristianização do Território entre Évora e Beja (Jorge Feio) 2

  5. Epitáfio de Tiberino, Presbítero Moçárabe de Beja (Jorge Feio, 2023) 2