Fragmentos de Cupae nas Muralhas de Beja (Miguel Serra, 2017)
Artigo de Miguel Serra sobre dois fragmentos de monumentos funerários romanos reutilizados na face externa das muralhas medievais de Beja. As peças foram identificadas durante a intervenção arqueológica de 2015-2016 associada à reabilitação do Parque Vista Alegre e publicadas como inscrição 594 do Ficheiro Epigráfico n.º 145.
Intervenção arqueológica
Os trabalhos decorreram entre Setembro de 2015 e o final de 2016, no âmbito do projecto municipal de reabilitação do Parque Vista Alegre. A empresa Palimpsesto, Lda. realizou o acompanhamento da empreitada, sondagens arqueológicas de diagnóstico e levantamentos fotogramétricos, sob direcção científica de Miguel Serra.
A área extramuros assegura uma ligação pedonal entre a Rua do Sembrano, no interior da cerca, e a Rua Capitão João Francisco de Sousa, no exterior. Já tinha sido transformada em espaço ajardinado por obras dos finais da década de 1990 e inícios do século XXI, depois integradas no enquadramento do Programa Polis de Beja.
O pano medieval que limita o lado norte da intervenção é composto por dois lanços rectilíneos interrompidos por três torreões quadrangulares. Apresentava sectores degradados e alterações provocadas por construções habitacionais acumuladas ao longo dos séculos.
Materiais reutilizados na muralha
A empreitada não previa intervir directamente na muralha. A possibilidade de impactes indirectos levou, contudo, à realização de um levantamento arquitectónico, à identificação de patologias e ao registo digital de ocorrências.
Foram reconhecidos numerosos materiais de várias épocas. Entre os elementos romanos predominavam blocos de opus caementicium usados no preenchimento das juntas e diversos elementos arquitectónicos. O pano conservava ainda pilastras visigóticas e uma cabeça de touro romana embutida num dos torreões. A atribuição desta cabeça à época de Augusto e a proposta de que teria coroado uma porta de Pax Iulia ou decorado o fórum são interpretações, não proveniências comprovadas.
Os dois fragmentos de cupae
Os fragmentos apareceram próximos um do outro no sector este da muralha, numa zona com uma grande lacuna e aluimento pontual.
Fragmento 1
Bloco de mármore cinzento azulado de Trigaches, com manchas mais escuras. Não conserva soco e apresenta um duplo aro de aduela em alto-relevo, com 5 cm de largura. A face lateral tem uma decoração em quadrante, com um motivo circular gravado no interior.
As dimensões visíveis são 21 por 29 cm, com uma profundidade máxima embutida de 29 cm.
Fragmento 2
Bloco igualmente produzido em mármore de Trigaches. Miguel Serra classifica-o com prudência como uma possível base de cupa, com soco saliente.
As dimensões visíveis são 15 por 26 cm, com uma profundidade máxima embutida de 26 cm.
Nenhum dos fragmentos apresenta texto epigráfico publicado. A identificação depende da forma, dos aros e do soco, e o contexto funerário original perdeu-se quando os blocos foram reutilizados na muralha medieval.
Conjunto mais amplo
O autor assinala vestígios semelhantes noutros pontos das muralhas. Na alcáçova do Castelo de Beja seriam observáveis algumas dezenas de fragmentos de cupae, reconhecíveis pelas decorações laterais em meia circunferência com arcos interiores e por aros de uma ou duas aduelas. Serra defende a necessidade de um levantamento sistemático futuro.
Entidades mencionadas
- Pessoas: Miguel Serra
- Locais: Fragmentos de Cupae do Parque Vista Alegre · Parque Vista Alegre · Muralhas de Beja · Rua do Sembrano · Rua Capitão João Francisco de Sousa · Castelo de Beja · Trigaches · Câmara Municipal de Beja
- Temas: Ficheiro Epigráfico · Cupae Romanas de Beja · Epigrafia Romana de Beja · Arqueologia Urbana de Beja · Cabeças de Touro de Beja · Pax Iulia - Roma em Beja · Programa Polis de Beja
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Como citar
Referência (APA): Serra, Miguel (2017). Fragmentos de cupae nas muralhas de Beja (Conventus Pacensis). Ficheiro Epigráfico, (145), inscrição 594, 13-16.