Trigaches

Localidade do concelho de Beja, conhecida pela sua pedreira de mármore branco (calcário cristalino) amplamente utilizado em obras históricas da cidade - portais, molduras, elementos escultóricos. Exemplos: o portal gótico da Sala Capitular (Convento da Conceição) é em “mármore de Trigaches”.

Sepulturas da Idade do Bronze

Em 1892, foram descobertas em Trigaches (num ferragial do Sr. João dos Santos Júnior, freguesia de Beringel) duas sepulturas da Idade do Bronze com tampas de xisto esculpidas em alto-relevo (painéis de armas: espada, instrumentos indeterminados), actualmente no Museu Municipal de Beja (Sala “Gomes Palma”, n.ºs 22 e 27).1

Ocupação romana

Em Março e Abril de 2008, uma escavação de emergência nas traseiras da Rua do Poço Novo (Trigaches) revelou as termas de uma villa romana. Foram identificados um praefurnium, parte do hypocaustum e uma canalização em opus signinum.2

Nas proximidades são conhecidos os sítios Trigaches 1, que poderá corresponder à mesma villa, Monte da Canada, com uma barragem romana, e Trigaches 5, onde foi escavada outra canalização. As relações entre estes vestígios não foram demonstradas.2

Uma ara e duas cupae dos séculos II-III foram atribuídas a uma possível necrópole rural da área. A associação destas epígrafes à villa da Rua do Poço Novo é provável para os escavadores, mas não assenta num contexto arqueológico conservado.2

Mármore de Trigaches na Antiguidade

O mármore cinzento de Trigaches foi também usado numa cupa funerária romana proveniente de Beja, hoje no Museu Municipal Santos Rocha.3

Outra peça no mesmo material é a Placa Funerária de Gaio Coscónio, encontrada na Fonte dos Frades, em Baleizão, e datada dos finais do século I a.C.4

O mármore de Trigaches foi igualmente usado na Cupa de Livínio Eutique, dos séculos II-III, encontrada reutilizada na Rua Dom Manuel I n.º 23, em Beja.5

O fragmento da Placa Funerária de Cássia Patrícia, reutilizado num torreão das Muralhas de Beja, foi também talhado neste mármore.6

A Tampa de Sarcófago de Bardasco e Redento, encontrada no Monte da Robala, é igualmente uma placa de mármore de grão médio de São Brissos/Trigaches. O sarcófago fragmentado associado foi produzido no mesmo material.7

A Possível Cupa Inacabada de Porto de Peles é outro bloco do mesmo mármore. A hipótese de se tratar de uma peça funerária por concluir sugere que parte da produção podia sair da pedreira apenas sumariamente afeiçoada e receber o acabamento nas oficinas lapidárias da área de Pax Iulia.8

A Cupa Anepígrafa do Monte dos Pombais, com veios cinzentos, foi igualmente talhada em mármore de São Brissos/Trigaches. O exemplar conserva a forma de meia pipa e aros simples nos topos, mas não apresenta inscrição.9

Os Fragmentos de Cupae do Parque Vista Alegre, reutilizados nas muralhas medievais, são também de mármore de São Brissos/Trigaches. Um conserva duplo aro de aduela e decoração lateral; o segundo poderá corresponder a uma base com soco.10

A Cupa de Júlia Crésima, reutilizada no Torreão Norte das Portas de Mértola, foi igualmente talhada em mármore de Trigaches. O fragmento conserva parte do campo epigráfico com o provável nome Iulia Chresima.11

O Fragmento de Cupa do Centro UNESCO, reutilizado na face interior das muralhas, é também de mármore cinzento de Trigaches/São Brissos. Conserva aros de aduela, mas perdeu o campo epigráfico.12

Os três monumentos romanos conservados no Monte do Olival dos Frades, em Baleizão, foram igualmente talhados em mármore de veios cinzentos de São Brissos/Trigaches: uma ara funerária, uma base de coluna epigrafada e uma base de ara ou cipo.13

A Ara Romana do Monte da Atouguia, monumento anepígrafo associado a outro monte de Baleizão, foi também talhada em mármore de veios cinzentos de São Brissos/Trigaches.14

A Cupa Anepígrafa 1 do Monte da Fuzeira e a Cupa Anepígrafa 2 do Monte da Fuzeira, encontradas em São Matias, foram igualmente produzidas neste mármore. A primeira poderá estar inacabada; a segunda conserva aros de aduela e foi datada, por comparação tipológica, dos séculos II-III.15

A Ara Anepígrafa da Torre da Cardeira, em Baleizão, foi também talhada em mármore de veios cinzentos de São Brissos/Trigaches. A peça romana poderá ter sido reutilizada como suporte de altar cristão durante a Antiguidade Tardia.16

A Árula a Júpiter de Beja (FE 950), provavelmente datada do século II ou dos inícios do III, foi igualmente talhada em mármore cinzento de São Brissos/Trigaches.17

A base do Altar do Monte do Arcediago e outros elementos do mesmo conjunto paleocristão foram igualmente produzidos em mármore cinzento de São Brissos/Trigaches, demonstrando a continuidade do uso desta matéria-prima na Antiguidade Tardia.18

As pedreiras de São Brissos/Trigaches integravam uma das zonas de extracção de mármore usadas no antigo Conventus Pacensis durante a Antiguidade Tardia. O Fuste Paleocristão de Vale de Aguieiro é de mármore branco, mas a sua pedreira de origem não foi determinada.19

A inscrição CIL II 49, monumento honorífico do reinado de Tibério, foi talhada em mármore cinzento de São Brissos/Trigaches. Os cortes provocados pelas reutilizações eliminaram partes das faces e algumas letras.20

Durante os trabalhos de electrificação da villa romana de Pisões, foi encontrado junto à fundação de um poste um elemento de mármore de Trigaches. A peça, possivelmente parte de uma ombreira ou verga, foi depositada no centro de interpretação da villa.21

Fontes

Tags

Arqueologia Mundo rural Património Romano

Notas

  1. Sepulturas da Idade do Bronze em Santa Vitória, Ervidel e Beringel (Leite de Vasconcelos, 1906) 2

  2. Intervenção de Emergência numa Villa dos Arredores de Pax Iulia (Serra e Porfírio, 2009) 2 3 4

  3. Fragmento de Cupa Epigrafado (Maria Miguel Lucas, 1988) 2

  4. Placa Funerária da Fonte dos Frades (Alfenim e D’Encarnação, 1997) 2

  5. Cupa de Eutiches, Beja (Dias e Gaspar, 2013) 2

  6. Inscrição Funerária Romana nas Muralhas de Beja (D’Encarnação e Serra, 2013) 2

  7. Duas Inscrições Funerárias Paleocristãs de Nossa Senhora das Neves (D’Encarnação e Feio, 2016) 2

  8. Uma Possível Cupa em Neves (Jorge Feio, 2016) 2

  9. Cupa Anepígrafa do Monte dos Pombais (Jorge Feio, 2016) 2

  10. Fragmentos de Cupae nas Muralhas de Beja (Miguel Serra, 2017) 2

  11. Cupa do Torreão das Portas de Mértola (D’Encarnação e Serra, 2018) 2

  12. Novo Fragmento de Cupa na Muralha de Beja (Miguel Serra, 2019) 2

  13. Epígrafes do Monte do Olival dos Frades (Jorge Feio, 2021) 2

  14. Ara Romana do Monte da Atouguia (Jorge Feio, 2021) 2

  15. Duas Cupae do Monte da Fuzeira (Jorge Feio, 2022) 2

  16. Ara Anepígrafa da Torre da Cardeira (Jorge Feio, 2023) 2

  17. Árula a Júpiter de Beja (Campos e Feio, 2026) 2

  18. Monte do Arcediago - Um Possível Monasterium (Feio e Costa, 2025) 2

  19. Do Mosaico para o Mármore - O Fuste de Vale de Aguieiro (Jorge Feio, 2016) 2

  20. Um Flâmine de Tibério em Pax Iulia (D’Encarnação e Feio, 2014) 2

  21. Novos Dados para o Conhecimento da Villa Romana de Pisões (Miguel Serra, 2007) 2