Duas Novas Estelas Funerárias Discoides de Beja
Estudo de duas estelas funerárias discoides medievais descobertas num aterro de uma habitação na zona sudoeste de Beja, fora das muralhas medievais. O achado ocorreu durante o acompanhamento arqueológico da ampliação da sede da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Beja e Mértola, na Rua D. Nuno Álvares Pereira n.os 1-9, Largo Duarte Pacheco n.º 12 e Travessa Almeida Garrett n.os 18-20.
Descoberta e contexto
Os trabalhos, dirigidos por Eduardo Porfírio e Eunice Pimpão, decorreram em Outubro de 2017 e em Outubro-Novembro de 2019. As movimentações de terra e demolições não revelaram outros contextos ou materiais arqueológicos. As duas estelas encontravam-se reutilizadas como material de enchimento e compactação, sem relação com o seu lugar funerário original.
O imóvel ocupa parte da área do antigo Convento da Esperança, fundado em 1541 e demolido a partir de 1897. A cronologia medieval das peças, a localização extramuros anterior à fundação do convento e a inexistência conhecida de uma necrópole medieval nas imediações excluem uma associação directa ao estabelecimento conventual.
As duas estelas
As peças são de mármore de Trigaches ou São Brissos, estão completas e conservam o disco e o espigão destinado a fixá-las no solo. Ambas exibem no anverso uma cruz de braços curvilíneos em baixo-relevo, enquadrada por cercadura circular:
- Estela 1: 68 cm de altura, 27 cm de largura, 11 cm de espessura e disco com 32 cm de diâmetro. Não apresenta decoração no reverso. Um ponto central e linhas incisas terão servido de guias à gravação.
- Estela 2: 63 cm de altura, 30 cm de largura, 14 cm de espessura e disco com 33 cm de diâmetro. No reverso tem gravado um arado radial, com rabiça, teiró, temão e dente, interpretado como símbolo do ofício de lavrador.
Os autores integram-nas na tumulária discoide de Beja e datam-nas genericamente da Baixa Idade Média, sem ultrapassar os inícios do século XVI. O estado de conservação é considerado razoável, apesar de lacunas por lascamento nas cercaduras.
Proveniência: uma hipótese
O artigo inventaria três grandes focos urbanos de estelas medievais: Igreja de Santo Amaro, antiga Igreja de São João Baptista e Igreja de Santa Maria. Pela proximidade, as novas peças poderiam provir das necrópoles de Santa Maria ou de São João Baptista, situadas a cerca de 250 e 290 metros do local do achado.
Os autores inclinam-se para São João Baptista por semelhança morfológica com onze estelas dali provenientes e pelo facto de a igreja ter sido demolida em 1919, durante a renovação urbana que poderá ter deslocado materiais para novos arruamentos e construções. Esta origem permanece, contudo, uma hipótese: as peças foram encontradas fora de contexto e o artigo considera especulativa qualquer identificação segura do local funerário original.
Depósito
Em 2021, as duas estelas encontravam-se nas reservas da Câmara Municipal de Beja.
Entidades mencionadas
- Pessoas: Miguel Serra · Eduardo Porfírio · Eunice Pimpão · Abel Viana · Marta Páscoa
- Locais: Estelas Funerárias Discoides da Rua D. Nuno Álvares Pereira · Beja · Convento da Esperança · Igreja de Santo Amaro · Igreja de São João Baptista · Igreja de Santa Maria da Feira · Ermida de São Sebastião · Convento de São Francisco · Palácio dos Alcoforados · Matadouro Municipal de Beja · Museu Rainha D. Leonor · Câmara Municipal de Beja · São Brissos e Trigaches
- Temas: Tumulária Medieval de Beja · Arqueologia Urbana de Beja
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Como citar
Serra, Miguel, Porfírio, Eduardo, & Pimpão, Eunice (2021). Duas novas estelas funerárias discoides de Beja. Al-Madan Online, II Série, 24(2), 155-158.