Do Mosaico para o Mármore - O Fuste de Vale de Aguieiro

Estudo de Jorge Feio sobre a representação do paraíso cristão em suportes pétreos da Antiguidade Tardia. Entre as três peças analisadas encontra-se o fuste de Vale de Aguieiro, proveniente do concelho de Beja e conservado no Museu Rainha D. Leonor.

O paraíso na arte paleocristã

O artigo parte do conceito de paradeisos, o jardim paradisíaco associado à Árvore da Vida, aos rios e à fonte da vida. Na arte cristã dos primeiros séculos, esta imagem podia ser expressa por jardins, árvores, flores, aves e outros animais. Os mesmos motivos circulavam entre mosaicos, pintura mural, sarcófagos e escultura arquitectónica.

O fuste de Vale de Aguieiro

A peça é um fuste de coluna em mármore branco, decorado em todo o perímetro. Ramos de videira, gavinhas e cachos de uvas cobrem a superfície; pequenas aves bicam alguns dos frutos. Numa das faces surge um cantharus com uvas e água. Sobre o vaso, duas pombas atacam uma serpente.1

Jorge Feio interpreta o conjunto como uma representação do paraíso cristão:

  • as pombas podem representar a alma do defunto, o Espírito Santo ou a comunidade cristã;
  • a serpente representa a morte vencida;
  • a videira e as uvas remetem para o povo de Deus, os cristãos e o sangue de Cristo;
  • o cantharus com água evoca o baptismo e a fonte da vida.

A decoração sugere que a coluna pertenceu a um espaço cristão rural. O autor admite que possa ter funcionado como pé de altar, mas apresenta esta função apenas como hipótese. As circunstâncias da descoberta e o contexto arqueológico original são desconhecidos.

Datação e paralelos

A decoração integral de colunas é rara, sendo estes temas mais frequentes em mosaicos e sarcófagos. O artigo aproxima a organização da peça de colunas de São Vital de Ravena, de cerca de 525-548, e de mosaicos norte-africanos de Cherchel e Uppenna. O cantharus encontra ainda paralelo num sarcófago da Sé de Braga.

Com base no caule duplicado da videira, no recorte pronunciado da folhagem e na forma do vaso, Jorge Feio propõe uma datação entre os finais do século V e os inícios do VI. A qualidade da composição e o trabalho de bisel revelam, segundo o autor, artesãos tecnicamente apurados.

Mármore e território

O estudo enquadra a peça numa região em que o mármore foi amplamente usado durante a Antiguidade Tardia. Entre as zonas de extracção conhecidas no antigo Conventus Pacensis contam-se Estremoz, Alvito, São Brissos e Trigaches. O artigo identifica o material do fuste apenas como mármore branco, sem determinar a pedreira de origem.

Valor e limites

O fuste constitui um testemunho raro da passagem da iconografia paradisíaca para a escultura arquitectónica cristã no território de Beja. A proveniência geral de Vale de Aguieiro é conhecida, mas faltam dados sobre o ponto exacto do achado, a estrutura a que pertenceu e a sua função original. A datação e a interpretação como pé de altar dependem de comparação estilística.

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Referência

FEIO, Jorge - “Do mosaico para o mármore: alguns casos de representação do paradeisos em suporte pétreo no conventus Pacensis entre os séculos IV e VIII”. In MACIEL, M. Justino; MOURÃO, Cátia, coord. - Imagens do Paradeisos nos Mosaicos da Hispania. Amsterdam: Adolf M. Hakkert Publisher, 2016, p. 105-119. Classical and Byzantine Monographs, vol. 85.

Tags

Arqueologia Arte Religião Antiguidade tardia

Notas

  1. Fuste Paleocristão de Vale de Aguieiro