Infraestruturas Hidráulicas no Forum de Pax Iulia (M. Conceição Lopes e Francesco K.B. Simi, 2024)

Capítulo de M. Conceição Lopes e Francesco K.B. Simi (CEAACP, Universidade de Coimbra), publicado como Estudio de caso 9.2 no volume colectivo coordenado por Jesús Acero Pérez e Oliva Rodríguez Gutiérrez. O argumento central é que a água — como recurso sagrado, ritual e de abastecimento — é o fio condutor da história do espaço do fórum desde a Idade do Ferro até à Antiguidade Tardia, não havendo rutura de lugar mas sucessivas resignificações do mesmo espaço.

Pax Iulia nunca teve aqueduto. O abastecimento foi integralmente resolvido pelos níveis freáticos do planalto — abundantes, perenes e de boa qualidade — com poços, cisternas e canalizações subterrâneas, activos desde época pré-romana e ainda em uso parcial no séc. XX.1

1. O Povoado Pré-Romano

O edifício público da Idade do Ferro (final séc. V / 1.ª metade séc. IV a.C.) é uma estrutura tripartida: dois compartimentos rectangulares de 3,48m × 1,10m enquadrando um espaço central aberto que se prolonga para sudoeste. Paredes de gabros e dioritos (de média e grande dimensão, sem ligante, separados por finas camadas de placas de xisto horizontal); fundações conservadas em 2,5m de altura; obras de manutenção entre o final do séc. II e início do séc. I a.C. (materiais: recipientes de armazenagem estampilhados, ânforas mediterrâneas, itálicas e gaditanas, cerâmicas turdetanas).

Função: os autores lêem-no como templo num recinto sagrado do aglomerado pré-romano — a forma compósita (edifício com espaço central + dois compartimentos laterais) não é suficiente para o identificar como capitólio (para o que a cronologia é demasiado antiga). Paralelo formal: templo A de Pyrgi (Hércules, 1.ª metade séc. V a.C.).

Hipótese Conistorgis: Lopes & Simi ponderam a possibilidade sugerida por Políbio (10.7.4) de que o aglomerado pré-romano de Beja seja a capital dos Conii aliada dos romanos — tomada em 153 a.C. pelos Lusitanos sob Cauceno (App. Iber. 56-57) — onde Galba, após derrota perto de Carmona, passou o inverno três anos depois. Ver Conistorgis.

2. O Forum Republicano (meados séc. I a.C.)

Ao lado do templo indígena, em posição paralela mas ligeiramente avançada e afastada 2,2m para Este, foi construído um tanque/reservatório retangular:1

  • Dimensões: 12,6m × 5,4m; 2,4m de profundidade interna
  • Capacidade: 163.296 m³
  • Construção: paredes de 96cm em opus caementicium fino e compacto; revestimento interior de opus signinum com meia-cana de rebordo; fundo em fragmentos de mármore triturado e cal (efeito de espelhamento e brilho); bordos semicirculares ligados à parede com capa fina de opus signinum; ângulos exteriores revestidos de tégulas
  • Acesso: escada no canto sudeste, com degraus de tijolo revestidos de opus signinum
  • Evacuação: cano no fundo ao centro da parede noroeste, ligando a uma canalização de descarga orientada NW (destino não apurado)

Dois tanques pequenos articulados (um parcialmente destruído e deslocado, outro intacto mas revirado por colapso): 2,65×2,95m, 1,10m de profundidade; cano de chumbo a meio da parede + cano de cerâmica (18cm de diâmetro) no fundo do canto NE.

Poços e cisternas identificados no espaço de escavação:1

  • Dois poços (um anterior à ocupação islâmica; outro de datação inconclusiva)
  • Uma grande cisterna anterior ao séc. XVI (evoluída de poço antigo; captação de freáticos)
  • Uma cisterna de séc. XVII-XVIII que recebia água por canais da anterior

Significado cultual: a associação de tanque monumental + templo é interpretada à luz de paralelos mediterrânicos — santuário de Portonaccio em Veio (Minerva/Apolo; séc. VI a.C.: templo de tripla cella + tanque lateral paralelo); santuário Fontile de Marzabotto (edifício monumental + sistema de captação de nascente subterrânea + poço de decantação); templo de Ashmune/Astarté em Sidon (piscina sagrada alimentada por canais). A adição do tanque em época republicana seria uma monumentalização de um espaço sagrado já associado às águas subterrâneas, não uma novidade absoluta.

Atégina: inscrição em ara proveniente de Torre da Cardeira (IRCP, 287) e outra em crátera — que os autores associam sugestivamente a rituais com água — testemunham a veneração de Atégina no séc. I em Pax Iulia. Levanta-se a hipótese de que, na fundação da cidade ou na promoção a colónia, o culto ancestral associado ao espaço sagrado tenha sido assimilado por esta divindade ou equivalente romano.

3. A Reforma Augustana (25-15 a.C.)

O templo (20,3×13,9m, cella tripartida, orientação NW-SE, fundações conservadas em 3,75m) desinstala o complexo hidráulico sem desmantelá-lo: o lançamento do muro da cella apenas destruiu parte da parede Este e o tanque/reservatório foi “condenado” — os pequenos tanques foram colapsados ou parcialmente removidos. A parede frontal do templo augustano foi alinhada intencionalmente com a do templo pré-romano.

Um pórtico (parede E4 a NW), com colunas de tijolo revestidas de estuque pintado e caleira de opus signinum no interior, delimitava o recinto que integrava tanto o novo templo como o velho edifício pré-romano.

Paralelo com Nîmes: o augusteum que enquadra a Fontaine integrando o santuário indígena (Roth-Congès & Gros 1983). O programa augustano em Pax Iulia pode ter ficado incompleto — sem podium preservado para o templo — semelhante às interrupções documentadas em outros fora augustanos da Gália (Célié & Monteil 2009).

4. O Culto Imperial (a partir de Tibério)

Reforma radical: aterro de ~1,5m sobre todos os edifícios anteriores; novo templo (32,4m × 16,2m; hexástilo e pseudoperíptero, 6 colunas nos lados menores e 11 nos maiores; entrada a SW) com fundações de 4m de profundidade; tanque em U em três lados.

A epigrafia documenta o envolvimento das elites:1

  • Marco Aurélio — flâmine de Tibério César Augusto (inscrição “outrora tomada como duvidosa”)
  • Gaio Júlio Pedão (IRCP, 239) — duúnviro e flâmine dos divinos imperadores; auxiliou com dinheiro o aprovisionamento de víveres à cidade

Paralelos: Luni (Itália), Évora e Beja partilham a solução de tanque contornando três lados do templo, próximos do sistema de Nimes (Gros 1984).

Silhares da Rua dos Infantes

No subsolo de uma casa particular da Rua dos Infantes: muro de silhares de mármore de Trígaches (90×45×45 cm), com tambor de coluna embutido. Orientação perpendicular à Rua dos Infantes, prolongando-se sob a rua e para o lado da Rua do Touro — eixo principal que ligava a Porta de Mértola à entrada do fórum. Identificado como parede do fórum (não calçada, como Abel Viana supunha). Maioria dos touros acha dos no séc. XVIII nesta área.

5. O Baptistério (531 — Apríngio)

Escavado em 2016, no lado sudoeste da frente do templo de Tibério: estrutura de base circular, 7m de diâmetro externo, paredes de silharia aparelhada ligada por argamassa (com materiais reaproveitados), 1,4m de espessura, desnível em patamares conservado em 1m. Bastante destruída por fossas islâmicas. Afinidades com o baptistério de Tipasa (dimensões, forma, materiais).

Em 531, Apríngio de Beja inaugurou a sede do Bispado de Pax Iulia. Citação de Isidoro de Sevilha (vir. ill. 17): “bispo da Igreja Pacense das Hispânias, eloquente no uso da língua e erudito no saber, interpretou o Apocalipse do Apóstolo João com subtileza e estilo brilhante, quase melhor do que parece terem-no feito os antigos comentadores eclesiásticos. Escreveu ainda outras obras que, todavia, chegaram a nossos olhos apenas em mínima parte. Brilhou no tempo de Teudis príncipe dos Godos.”

Os autores sugerem: Apríngio chegou à Hispânia no momento da ascensão mediterrânica do Império Bizantino; a referência de Santo Agostinho deixa subentendida a sua origem na nobilitas, possivelmente de origem bizantina; formação provável numa estrutura monástica (já bem difundida no séc. VI).

Como citar

Lopes, M. C., & Simi, F. K. B. (2024). Infraestruturas hidráulicas no forum de Pax Iulia. In J. Acero Pérez & O. Rodríguez Gutiérrez (Coords.), Aquae Urbium: El ciclo urbano del agua en la Hispania romana (pp. 422–435). Editorial Universidad de Sevilla. ISBN 978-84-472-2793-8.

Fontes relacionadas

Footnotes

  1. Lopes, M. C., & Simi, F. K. B. (2024). Infraestruturas hidráulicas no forum de Pax Iulia. In J. Acero Pérez & O. Rodríguez Gutiérrez (Coords.), Aquae Urbium (pp. 422–435). Editorial Universidad de Sevilla. 2 3 4