Cabeças de Touro de Beja
Conjunto de cabeças de touro esculpidas em mármore provenientes de Pax Ivlia — elementos decorativos (friso/entablamento) de um grande edifício romano, hoje dispersas pelo Museu Regional e reaproveitadas na cidade.
Continuidade iconográfica taurina
A simbologia do touro em Beja não começa com os romanos: o Touro de Cinco Reis (séc. VII a.C., Idade do Ferro) e um pequeno touro de cerâmica da Idade do Ferro recolhido num templo da área da Praça da República (Beja) mostram que o touro era já símbolo local antes da chegada romana. As cabeças de mármore romanas inserem-se nessa continuidade.1
Colóquio internacional “Bezerros, Bois e Touros: perspectivas culturais em Beja e no Mediterrâneo” — realizado em Beja em Fevereiro de 2023 (organizado por Conceição Lopes, Universidade de Coimbra), com participação de investigadores de Espanha, Itália e Portugal.1
Registo histórico
- As Memórias Paroquiais de 1758 (via Dicionário Geográfico) registam “várias cabeças de touro que diz a tradição ser obra daquele tempo [de Júlio César]” — a associação popular a César reflecte a memória da romanidade de Pax Iulia2
- André de Resende registou 10 em tempo de D. Sebastião (1593); 7 ainda existiam em 184531
- O padre Pires Nolasco (1734) listou várias, chamando-lhes “cabeças de boi a que chamam brasão”3
- Borrela noticia uma cabeça inédita descoberta na Rua do Touro em Agosto de 20053
- Inventário (2012): duas no Museu Regional, a da Rua do Touro, uma na torre sineira camarária, a da Rua do Cativo, e um fragmento do antigo Paço Episcopal (Maio 1995)4
- Cabeça na Igreja de Santa Maria da Feira (localização confirmada)1
- Cabeça na fábrica Vista Alegre (localização confirmada)1
Dimensões e provenência (Lopes 2025)
Lopes integra as cabeças de touro na reconstituição do fórum tiberiano, pela sua concentração na área da Rua do Touro e Rua dos Infantes:5
- Cabeça da Rua do Touro (Agosto de 2005): mármore de Trígaches, 90×50×62 cm, 700 kg — junto aos n.ºs 13-15, acompanhada de um capitel coríntio semelhante ao dos Infantes.
- Duas cabeças embutidas na galeria exterior do Museu Rainha D. Leonor: provenientes da abside da demolida Igreja de S. João (orientada para a Rua do Touro).
- Cabeça pequena (MRB.01426): mármore branco, 22×28×28,4 cm, do espólio do Museu.
Interpretação (Borrela)
Relaciona as cabeças de touro com o culto de Serápis e Ísis e com o culto mitraico; integra-as no friso do hipotético arco triunfal.3
Reutilização heráldica e brasão de Beja
Algumas cabeças de touro romanas foram reaproveitadas como suporte de escudos de armas — caso do escudo de 1674 do Chafariz do Cano e do de 1639 (Filipe III).6
O brasão actual de Beja (com touro) foi aprovado em 1928, redesenhado em 1937 e novamente em 1938.1 O escultor Jorge Vieira (bejense, séc. XX) realizou peças escultóricas relacionadas com a iconografia taurina de Beja.1
Fontes
- O Último Grande Edifício Romano de Beja (Leonel Borrela)
- Pax Iulia — Roma em Beja
- Heráldica Pacense VII-XI — Armas Reais, Castelo e Chafariz do Cano (Leonel Borrela)
- Notas Arqueológicas sobre Beja — Vol. 2 (1896-97)2
- A Colónia Romana de Pax Iulia — Balanço de um Percurso de Investigação (M. Conceição Lopes, 2025)5
- Os Touros de Beja (Bruno Ferreira, O Atual, 2023-2024)1
Tags
romano religiao arte arqueologia
Footnotes
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Os Touros de Beja (Bruno Ferreira, O Atual, 2023-2024) ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6 ↩7 ↩8
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O Último Grande Edifício Romano de Beja (Leonel Borrela) ↩ ↩2 ↩3 ↩4
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O Grande Capitel Adossado Compósito de Pax Ivlia (Leonel Borrela) ↩
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A Colónia Romana de Pax Iulia — Balanço de um Percurso de Investigação (M. Conceição Lopes, 2025) ↩ ↩2
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Heráldica Pacense VII-XI — Armas Reais, Castelo e Chafariz do Cano (Leonel Borrela) ↩