Convento da Conceição

Convento de Clarissas Observantes fundado em 1459 (breve do Papa Pio II) pelos Infantes D. Fernando e D. Beatriz, duques de Beja — pais de D. Manuel I. Situado junto ao Paço dos Infantes (ligado por dois passadiços). Hoje é o Museu Regional de Beja. Monumento Nacional (1922).

Fundação e construção

  • 1459 — breve de Pio II; o primeiro convento feminino de observância, erguido sobre um recolhimento de Terceiras dirigido por Soror Ousanda (1.ª abadessa); 1.ª pedra pelos próprios reis1
  • Construção ao longo de três reinados (Afonso V, D. João II — Sala do Capítulo, oratório de Santo António; D. Manuel I — Dormitório da Regra); João de Arruda presente em Beja em 14851
  • Significado: igreja “gótica batalhina”, apontada como uma das primeiras manifestações do manuelino (Watson, Chicó); portais da Sala do Capítulo e Portaria; azulejaria hispano-árabe (séc. XVI) e de Policarpo de Oliveira Bernardes (1741)1

Importância histórica

  • Panteão dos Duques de Beja: D. Fernando e filhos em túmulo de mármore na capela-mor; D. Beatriz em campa rasa à entrada do claustro1
  • Casa de Mariana Alcoforado (presumível autora das Lettres Portugaises, séc. XVII)2
  • Ligado à origem do Ducado de Beja
  • Demolido em grande parte no séc. XIX (Paço dos Infantes em 1895) — ver Demolições do Séc. XIX em Beja; o que restou alberga o Museu desde 19271

Heráldica

O convento é o maior repositório da heráldica pacense, incluindo a Sala dos Brasões do Museu: empresas e escudos da fundadora (empresa em Y), de D. Fernando (empresa em “prumo”), de D. Manuel I (esfera armilar) e de D. João II (pelicano) — incluindo o belo escudo sobre o portal da sala capitular. Ver Heráldica Pacense II-VI — A Heráldica do Convento da Conceição (Leonel Borrela).

Abóbada da capela-mor

Por detrás da talha dourada barroca, a capela-mor esconde uma abóbada de dois tramos, estrelada e nervurada, precoce e complexa, com nervuras de perfis distintos conforme a função estrutural (“caso raríssimo, senão único”) — ver A Abóbada Nervurada da Capela-Mor da Conceição (Leonel Borrela). Borrela lembra que Beja é cidade maneirista (não barroca), com a capela do Rosário (1584) demolida em 1926/27.

Vestígios romanos

Sob o convento e no Paço dos Infantes contíguo identificaram-se:

  • “Casas subterrâneas” descritas nas fontes medievais
  • Colunas de tijolo romanas
  • Mosaicos
  • Canalizações romanas O convento ocupa parte da área proposta por Jorge de Alarcão para o forum de Pax Iulia (rectângulo 80×160 m).3

Demolições no séc. XIX e tentativa de catedral

As demolições do final do séc. XIX destruíram quatro quintos do edifício — incluindo a demolição total do Paço dos Infantes contíguo (1893-1895). O núcleo sobrevivente foi alvo de tentativa frustrada de conversão em catedral (obras interrompidas em 1906 com a morte do bispo D. António Xavier de Sousa Monteiro),4 envolvendo demolição dos coros e raspagem das pinturas murais das abóbadas, acabando por ser a Igreja de S. Tiago a acolher a Sé em 1932.5 O convento cresceu organicamente desde meados do séc. XV até ao séc. XVII, atingindo quatro pisos sobrepostos e o triplo da área actual.5

As duas janelas mudéjares geminadas (arcos de ferradura) do último piso do Paço dos Infantes foram incorporadas na frontaria da futura Sé e constituem hoje o alçado principal do Museu Regional.4

Edícula tumular do Infante D. Fernando

Em 1982/83, a partir de observações de Abel Viana, Borrela publicou uma primeira reconstituição da edícula tumular gótica do Infante D. Fernando, 1.º Duque de Beja. Em Março de 1990 foram encontrados novos elementos decorativos aquando de obras de condutas na área da antiga capela-mor.5

O Infante D. Fernando faleceu a 18 de Setembro de 1470 em Setúbal, sepultado provisoriamente no Mosteiro de S. Francisco da Observância; os restos foram depois transladados para a capela-mor. A arca actual — mármore da região de Alvito, estilo clássico, anepígrafe — é de fins do século XVI e não é a original. Os dois escudos na edícula referidos como “dos fundadores” são, segundo Borrela, armas da Infanta D. Brites, não de D. Fernando.6

Sala Capitular

Ver Sala Capitular (Convento da Conceição): portal gótico em mármore de Trigaches com 4 arquivoltas, monstros alegóricos e caracol nas bases, escudo de D. João II sopraporte; interior com coluna toscana central, azulejaria hispano-árabe e 8 pinturas a têmpera (S. João Evangelista, S. Sebastião, Baptismo de Cristo, Expansão Franciscana, Três Ordens Franciscanas, Inquisidor Dominicano). Documentada por foto de 1890 de Luciano Cordeiro.5

Fontes

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Footnotes

  1. Convento da Conceição de Beja — Arquitectura num Período de Transição (Nicole Martins) 2 3 4 5

  2. Roteiro Literário — Mariana Alcoforado (Marta Páscoa, 2023)

  3. A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes) — vestígios romanos sob o convento.

  4. À volta do Palácio dos Infantes (Leonel Borrela, 2009) 2

  5. O Real Mosteiro da Conceição — série 1997 (Leonel Borrela) 2 3 4

  6. Real Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição — A Igreja e a Capela Mor (Leonel Borrela)