Baluartes da Fé e da Disciplina (José Pedro Paiva, 2011)
Estudo de José Pedro Paiva sobre as relações entre a Inquisição e os bispos em Portugal, entre 1536 e 1750. As passagens sobre Beja documentam processos judiciais, a colaboração de oficiais eclesiásticos com o Santo Ofício e a doutrinação obrigatória dos cristãos-novos reconciliados.
Gaspar Lopes: da justiça episcopal à Inquisição
Nas pp. 32-33, Paiva reconstitui o processo de Gaspar Lopes, clérigo de missa, cristão-novo e residente em Beja. Em Novembro de 1569, foi denunciado por sodomia perante a justiça episcopal de Évora. Foi preso e, em Janeiro de 1570, o promotor apresentou um libelo acusatório.
Em meados de Fevereiro de 1570, o procurador do réu protestou contra a ocultação do nome de uma testemunha. Dois dias depois, o arcebispo remeteu as culpas à Inquisição, reservando a sua jurisdição ordinária. O processo inquisitorial acrescentou acusações de práticas judaizantes e outras. Segundo o autor, Gaspar Lopes foi relaxado ao braço secular em Dezembro de 1572, isto é, entregue à justiça secular. A passagem não especifica o dia nem o modo da execução.
Paiva interpreta esta transferência como exemplo das diferenças entre os procedimentos episcopais e inquisitoriais. As imputações judiciais são acusações históricas, não demonstrações de que o acusado praticou os actos descritos.
Referência documental indicada: Torre do Tombo, Inquisição de Évora, processo 11340, fls. 3, 7-9, 11 e 14-18v (notas 61-64).
O meirinho eclesiástico de Beja em 1573
Na p. 172, nota 507, o autor cita uma provisão de D. Henrique, de 18 de Maio de 1573, que manda ao tesoureiro do confisco de Évora pagar vinte cruzados ao meirinho do eclesiástico de Beja pelas diligências e prisões efectuadas ao serviço do Santo Ofício. A passagem não identifica o meirinho pelo nome.
Referência documental indicada: Torre do Tombo, Conselho Geral do Santo Ofício, livro 323, fl. 9.
Doutrinação dos reconciliados em 1575
Na p. 173, nota 510, transcreve-se um registo de 3 de Maio de 1575 relativo a uma carta de D. Henrique para o vigário da Igreja de S. Tiago, Belchior Cota. Determinava-se que este e um mestre chamado Manuel Feo alternassem na doutrinação dos cristãos-novos reconciliados que viviam em Beja. O vigário e o meirinho deviam obrigá-los a comparecer.
O episódio reaparece nas pp. 291-292. A primeira transcrição apresenta o apelido Cota; a segunda, Costa. Ambas remetem para o mesmo fólio. O livro não esclarece esta divergência. Também não identifica expressamente mestre Manuel Feo como o prior do Salvador Manuel Feio conhecido pela Bibliotheca Lusitana.
Referência documental indicada: Torre do Tombo, Conselho Geral do Santo Ofício, livro 442, fl. 41v (notas 510 e 940).
Uma denúncia de Beringel
Na p. 339, nota 1112, Paiva menciona um caso relativo a um homem de Beringel que teria afirmado que dormir com duas mulheres solteiras não era pecado. O exemplo surge no contexto dos casos remetidos à Inquisição pelo arcebispo D. Teotónio de Bragança a partir das visitas pastorais. A passagem não indica o nome do denunciado, uma data exacta ou o desfecho do processo.
Referência documental indicada: Torre do Tombo, Inquisição de Évora, livro 215, fls. 22-23.
Entidades mencionadas
Documentos relacionados
- Bibliotheca Lusitana - Manuel Feio (Diogo Barbosa Machado, 1752) - biografia do prior do Salvador; a identidade com mestre Manuel Feo não está demonstrada nesta obra
- Estudo Etnográfico, Cultural e Linguístico da Cidade de Beja (Mariana Correia) - história da comunidade judaica e da perseguição inquisitorial
Como citar
Paiva, José Pedro (2011). Baluartes da fé e da disciplina: O enlace entre a Inquisição e os bispos em Portugal (1536-1750). Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra. Passagens sobre Beja e Beringel: pp. 32-33, 172-173, 291-292 e 339.
Edição disponibilizada pela Universidade de Coimbra.