A Eneida de Virgílio numa Pintura Mural da Rua do Sembrano (Leonel Borrela)

Artigo de Leonel Borrela (Diário do Alentejo, 3 de Julho de 2009) — registo de memória de um conjunto de pinturas murais já destruídas num imóvel da Rua do Sembrano (n.os 38-44), freguesia de S. João Baptista. Borrela alertara em vão o arqueólogo Jorge Feio (e-mail de Janeiro de 2009); seis meses depois as pinturas tinham desaparecido, deixando ele o testemunho “para a posteridade”.

O imóvel — Palácio dos Faria e Melo

  • Casa senhorial de dois pisos, base que ultrapassa a fortificação medieval (de implantação romana); muito modificada no séc. XIX. Ver Palácio dos Faria e Melo.
  • Pertenceu aos fidalgos Faria e Melo, cujos brasões desapareceram (um está na colecção “Zésinho Santos”, de Tavira).
  • Segundo o vizinho Francisco Lopes Pereira Guerreiro (n.º 36, casa estudada por Túlio Espanca), o palácio prolongava-se até à área do Desportivo de Beja.
  • Túlio Espanca (Inventário Artístico, 1992) descreve portais manuelinos (verga lobulada com pinhas estilizadas, 1.º terço do séc. XVI) nos n.os 38, 42 e 44.
  • Proprietária (2009): Construções Moinhos de Santa Maria, que pretendia convertê-lo em apartamentos T1/T2.

As pinturas murais (óleo sobre estuque)

Distribuíam-se por três salas; ver Pinturas Murais de Beja.

  • Sala 1 (1.º piso, n.º 42): paredes com “pilastras adossadas” em perspectiva (trompe l’œil), molduras fitomorfas (azul, terra de siena, vermelho), placas marmoreadas fingidas. Quase tudo picado para novo reboco.
  • Sala 2 (2.º piso, a mais importante): cinco painéis historiados com a apologia da origem de Roma — ninfas, cupidos, Dido (rainha de Cartago), um fauno e Eneias, com legendas em verso. Ilustra episódios da Eneida de Virgílio (fuga de Tróia, Dido, metamorfose de Dafne em loureiro, o fauno-rei do Lácio). Painéis de 70 a 235 cm; rodapé com mármore fingido azulado-esverdeado. Estilo de “artista popular” com boas noções académicas; lembra (mais pobre) os frescos de Pompeia/Herculano; provável 2.ª metade do séc. XVIII, com cópia de gravuras de livros ilustrados.
  • Sala 3: decoração de base ocre imitando papel de parede, a cal; já picada.

Conclusão de Borrela

As pinturas “já não existem, facto consumado”. Lamenta a perda das pontes culturais possíveis — nomeadamente a relação temática com o mosaico romano de Alter do Chão (descoberto por Jorge António, 2009), que representa o último canto da Eneida.

Entidades mencionadas

Leonel Borrela · Rua do Sembrano · Freguesia de S. João Baptista · Palácio dos Faria e Melo · Pinturas Murais de Beja · Túlio Espanca · Francisco Lopes Pereira Guerreiro · Jorge Feio · Muralhas de Beja

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Como citar

Referência (APA): Borrela, Leonel (2009). A Eneida de Virgílio numa Pintura Mural da Rua do Sembrano. Diário do Alentejo (Iconografia Pacense).

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