Inscrição Monumental de Pax Iulia
Autor: José D’Encarnação
Publicado em: Ficheiro Epigráfico, n.º 29, 1988
Instituto de Arqueologia, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
ISSN: 0870-2004
Tipo: Artigo de epigrafia romana (4 páginas)
O achado (1879)
O jornal [O Bejense](O Bejense) (28 Jun 1879, ano XX, n.º 965) noticiou a descoberta de uma lápide com inscrição romana “nas imediações da Porta de Avis”, junto à muralha, durante obras de desaterro. O fragmento foi removido para o edifício da Câmara Municipal de Beja, na Praça da República (Beja).
Na mesma ocasião apareceram também “restos de capitéis, mármores finíssimos de pavimentos e uma moeda romana de prata” (nota de rodapé, informação de Jorge Alarcão).
Transcrição de O Bejense (1879)
IVSTVS + PATERIA
OTES XXI COLON
TVRRES | ORTAS
(transcrita por redactores sem conhecimentos epigráficos, copiando apenas o mais legível)
Destino do fragmento
A epígrafe parecia ter desaparecido:
- Em 11 Jun 1892 (n.º 1640), O Bejense noticia um novo achado de lápide semelhante (IRCP 292) sem estabelecer relação com o de 1879
- Em 18 Set 1940 (Diário do Alentejo), Abel Viana refere a lápide IRCP 292 “que servia de marco no parapeito da Fonte dos Frangãos” — oferecida ao museu pela Direcção de Obras Públicas do Distrito de Beja
Revisão de 2022: o fragmento B-31 é a mesma pedra
No artigo de 2022 (O Imperador Augusto deu a Beja um Grande Presente! (José D’Encarnação, 2022)), D’Encarnação propõe que o fragmento B-31 do Museu Rainha D. Leonor — a parte superior da inscrição, estudada por Leite de Vasconcelos em 1903 (que o dava como vindo de Quintos, lendo [Au]gustus… [trib. p]otest. XX…) — é a mesma placa da inscrição de 1879. Ou seja, a parte superior sobrevive no museu (= IRCP 292); a pedra ter-se-á partido e parte dela foi levada para o museu. Reconstituição de José Luís Madeira: a placa mediria 4,50 m × 0,90 m.
Análise epigráfica de D’Encarnação
Identificação do imperador
- A palavra PATER (→ Pater Patriae) e a terminação -VSTUS (→ Augustus) estão grafadas por extenso
- POTES(tate) XXI = 21.ª potestade tribunícia — só dois imperadores a atingiram: Augusto e Tibério; o contexto aponta inequivocamente para Augusto
- O imperador aparece em nominativo como promotor directo da obra — não um magistrado municipal — seguindo o modelo de CIL XII 3151 (Nîmes)
Natureza da inscrição
- O fragmento representa sensivelmente a parte média de uma placa monumental
- Colocada à entrada da cidade romana (Porta de Avis)
- Comparáveis: CIL XII 3151 (Nîmes, Augusto oferece portas e muralhas à colónia, 16–15 a.C.); CIL II 6021 (Sagunto, duúnviros reparam muros e torres)
Reconstituição proposta
IMP(erator) · CAESAR · DIVI · F(ilius) · AVGVSTVS · PATER PA[TRIAE]
[PONT(ifex)] · MAX(imus) · TRIB(unicia) · P]OTES(tate) · XXI (vigesima prima) · COLONI[AE PAC(is)]
IUL(iae) / [MVROS] · TVRRES · E[T P]ORTAS [· DAT vel D(ono) · D(at, edit)]
Tradução
“O imperador César Augusto, filho do Divino, pai da Pátria, pontífice máximo, com o 21.º poder tribunício, dá (ou deu) as muralhas, as torres e as portas da colónia de Pax Iulia.”
Datação
Entre 1 de Julho de 3 a.C. e 30 de Junho de 2 a.C. (correspondente ao 21.º poder tribunício de Augusto)
Significado histórico
“Saliente-se, por conseguinte, a enorme importância do texto: datado do período compreendido entre 1 de Julho de 3 e 30 de Junho do ano 2 a. C., atestaria inequivocamente uma atenção específica do imperador Augusto para com a cidade.” — D’Encarnação, 1988
Esta inscrição confirma:
- O nome oficial da colónia romana: Colonia Pacis Iuliae (abreviado Pac. Iul. ou Pac. Jul.)
- Augusto ofereceu ou financiou pessoalmente as muralhas, torres e portas de Beja
- A cidade tinha importância estratégica e administrativa suficiente para merecer atenção imperial directa
- A Porta de Avis era provavelmente a entrada principal/monumental da cidade romana
Referências cruzadas na base de conhecimento
- Pax Iulia — Roma em Beja — este artigo é a prova epigráfica mais directa da denominação oficial
- Muralhas de Beja — as muralhas, torres e portas mencionadas na inscrição são o mesmo sistema defensivo romano
- André de Resende — séc. XVI; identificou Beja com Pax Iulia com base em outras inscrições
- Beja no Anno de 1845 (José Silvestre Ribeiro) — cita inscrição diferente (L. Aelio Aurélio Cómodo, séc. II d.C.); este artigo documenta uma inscrição mais antiga (séc. I a.C., época de Augusto)
- Abel Viana — não conheceu esta epígrafe mas referiu outra semelhante (IRCP 292)
- O Imperador Augusto deu a Beja um Grande Presente! (José D’Encarnação, 2022) — revisitação de 2022 do mesmo autor (identifica o fragmento B-31 do museu como a parte superior desta inscrição)
Como citar
Referência (APA): D’Encarnação, José (1988). Inscrição monumental de Pax Iulia. Ficheiro Epigráfico, (29).
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