Pax Iulia — A Cidade Romana de Beja em Período Romano-Republicano (M. Conceição Lopes, 2024)
Artigo de M. Conceição Lopes (CEAACP, Universidade de Coimbra) publicado na DigitAR, n.º 10 (2024), pp. 146–155, número comemorativo dos 40 anos do IRCP (Inscrições Romanas do Conventus Pacensis). Apresenta os dados arqueológicos mais recentes das escavações na área do Logradouro do Conservatório Regional do Baixo Alentejo, revisita a identificação do Busto de Júlio César de Pax Iulia e redefine a cronologia da fundação e monumentalização de Pax Iulia.
Posição estratégica de Beja
Pax Iulia situa-se num ponto nodal das vias que, desde antes dos Romanos, ligavam o Norte ao Sul e o Atlântico ao Mediterrâneo, a meio caminho entre o Guadiana e o Sado, com ligação ao Guadalquivir. A posição privilegiada num planalto proeminente determinou a continuidade de ocupação desde a Pré-história.
Ocupação pré-romana
Ao contrário da tese da fundação ex nihilo (ainda defendida na historiografia até aos anos 80 do séc. XX), as escavações científicas desde os anos 90 demonstraram ocupação muito anterior:
- Cerâmica campaniforme decorada (c. 2600-2200 a.C.) recolhida no logradouro do Conservatório Regional — os fragmentos mais antigos conhecidos do planalto de Beja.
- Ocupação da Idade do Ferro (final séc. VII a.C.) documentada na Rua do Sembrano, Praça de Armas do Castelo e logradouro do Conservatório Regional.
- Edifício religioso da Idade do Ferro (logradouro do Conservatório): orientação NE/SO, 15,30m de largura × 18,3m de comprimento, construído sobre alicerces de gabro e diorito (pedra de média e grande dimensão sem ligante, separadas por finas camadas de xisto). Cabeceira tripartida: dois “compartimentos” rectangulares de 3,48×1,10m enquadrando um espaço central aberto que se prolonga para sudoeste. Datado entre o final do séc. V e a 1.ª metade do séc. IV a.C., com obras de manutenção entre o final do séc. II e o início do séc. I a.C. Em 2024, as escavações apuraram fundações conservadas em 2,5m de altura.
Sobre o topónimo indígena: a autora não desiste de considerar possível que o planalto de Beja fosse a capital dos Conii (Conistorgis), apesar de trabalhos mais recentes apontarem para Medellín, em Espanha.
Transformação do oppidum em civitas: época de Júlio César (61 a.C.)
Contra a tese de Estrabão (que equiparava a fundação de Pax Iulia à de Emerita Augusta e Caesaraugusta, em época de Augusto), as escavações demonstram que a instalação das primeiras infraestruturas remonta ao governo de Júlio César na província da Ulterior, em 61 a.C.
Complexo hidráulico e foral do período cesariano
No recinto sagrado do aglomerado indígena, em posição paralela ao antigo templo de pedra, foi construído um equipamento hidráulico monumental:
- Tanque/reservatório principal: 14,90m de comprimento × 7,80m de largura × 2,50m de altura; capacidade de 163.296 m³ de água; paredes de 96cm em opus caementitium de cal e pedra miúda, revestidas de opus signinum fino e compacto incluindo meia cana de rebordo interno; fundo de mármore grosseiramente triturado e cal; escada de acesso no canto SE (degraus de tijolo com opus signinum); ligação por canalização a NW com destino indeterminado.
- Dois tanques pequenos: articulados com o principal por canos de chumbo (a meio da parede) e cerâmica (fundo do canto NE); um parcialmente destruído, o outro intacto mas revirado (2,65m × 2,95m × 1,10m de profundidade interna).
- Os tanques pequenos, alinhados com a fachada do antigo templo indígena, configurariam uma fonte monumental na frente do espaço sagrado.
- O pedestal de estátua escavado junto ao templo e os elementos decorativos confirmam a intenção de monumentalização do espaço sagrado antigo.
O fórum estaria terminado quando César saiu vitorioso da guerra contra Pompeu (49-45 a.C.) — a parede E80 da planta é o indicador cronológico. A estátua monumental de César terá sido então erigida no fórum, em frente ao templo.
O Busto de Júlio César de Pax Iulia: nova análise
A clarificação dos contextos republicanos de Beja permitiu reinterpretar o busto de mármore guardado no Museu Rainha D. Leonor.
Historial da peça: encontrada no 2.º baluarte da 2.ª ordem de muralhas, metida na vedação do Convento da Esperança, durante a demolição para o palácio das repartições públicas em 1990. Leite de Vasconcelos publicou-a em O Arqueólogo Português de 1902, após consulta a Salomon Reinach (que a datou do séc. I d.C.); em 1903, após deslocação a Beja, descreveu: “retrato que apresenta no lado direito do osso frontal uma cicatriz feita com instrumento cortante (provavelmente espada).”
Reexame em 2017: retirada do nicho onde estava encaixada, a peça revelou uma curta cabeleira de ondas bem desenhadas na parte posterior (anteriormente invisível), confirmando que a imagem de “calvo” era errónea. Na parte posterior inferior e lateral da cabeça reconhecem-se pequenas convexidades que parecem servir para ajustar uma coroa — detalhe novo com implicações iconográficas importantes.
Identificação com Júlio César: comparação com o retrato-tipo de Tusculum (Castillo di Aglie, descoberto 1804, hoje no Museu de Turim) e com o busto do Ródano/Arles (2007, anunciado mas contestado). As semelhanças com Tusculum incluem: rugas profundas e assimétricas, sulco nasolabial, covas do rosto, lábios, sobrancelhas arqueadas, pata de galinha, queixo e maçã de Adão salientes, tratamento do cabelo sobre a orelha.
A descrição de Suetónio — “homem alto, claro rosto um pouco cheio e olhos escuros e muito vivos e calvo, mas, para disfarçar, puxava para a testa os poucos cabelos que ainda tinha” — aplica-se melhor ao busto de Beja do que ao de Tusculum, segundo Margarida Campos Rodrigues (1999) e a própria Lopes.
Conclusão: o busto pertenceria a uma estátua monumental colocada no fórum de Pax Iulia em frente ao templo, durante o período cesariano (sem legenda identificativa, mas com os fartos elementos de filiação no tipo Tusculum).
Época de Augusto
- Muralha da Praça de Armas do Castelo: terminus ante quem no início do último quartel do séc. I a.C. (materiais das escavações).
- Inscrição das muralhas (FE 29, 1988, n.º 131; 3–2 a.C.): Augusto dota Pax Iulia de muralhas, torres e portas — ver Muralhas de Beja.
- Novo templo augustano (25–15 a.C.): orientação NE/SO (mesma do templo indígena), 20,3m × 13,9m, fundações conservadas em 3,75m, cella tripartida, frente alinhada com o templo ancestral. A construção deste templo implicou a desfuncionalização do complexo de tanques do período cesariano.
- Basílica: construída no lado oposto ao do templo no fórum augustano.
- Augusto manteve e integrou o contexto já existente, por conservadorismo em termos de construção anterior.
Época de Tibério: reforma total do fórum
Após a morte de Augusto (14 d.C.), iniciou-se sob Tibério (14-37) um vasto programa de monumentalização:
- Aterro com ~1m de espessura sobre todos os edifícios anteriores.
- Templo de culto imperial: orientação NO/SE, 32,40m × 16,20m (dimensões próximas do de Emerita Augusta); paredes de 2,5m em pedra miúda e rolada com forte argamassa (cofragem); tipologia Templa Rostrata (sem escadaria frontal). Tanque de opus signinum rodeando o templo em três lados (4m × 4,75m × 0,90m de profundidade) — provável enquadramento do conjunto escultórico da família imperial.
- Elementos hoje visíveis: capitel monumental compósito no Museu Rainha D. Leonor; paredes e coluna no restaurante “Os Infantes” (cave).
- Epigrafia tibérica: Marco Aurélio como flâmine de Tibério; IRCP 239 — Gaio Júlio Pedão como duúnviro, flâmine dos imperadores e benemérito por ter administrado bem a república e apoiado o aprovisionamento de víveres.
Fase tardia e continuidade
- As villae do território começam a instalar-se nos primeiros anos de Augusto; pico dinâmico no séc. II (programas de ampliação e materiais importados).
- C. Cosconius (FE n.º 259) relacionado com villa.
- São Cucufate — matriz para estudo das villae da região; dinâmica expressiva no séc. IV.
- Apríngio (531 d.C.) — bispo nomeado para a diocese de Pax Iulia; Isidoro de Sevilha descreve-o como “escritor eloquente de grande erudição científica”; faz crítica à Hispânia visigoda ariana da metade do séc. VI.
- Baptistério: construído em frente ao templo do culto imperial — o principal espaço sagrado manteve-se intacto.
- No período medieval, a pedra do fórum romano foi desmontada e reaproveitada nas igrejas do novo poder.
Como citar
Lopes, M. C. (2024). Pax Iulia: A cidade romana de Beja em período romano-republicano. DigitAR, 10, 146–155. https://doi.org/10.14195/2182-844X_10_11
Fontes relacionadas
- O Busto de Júlio César de Pax Iulia (M. Conceição Lopes, 2018) — estudo anterior sobre o busto
- A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes) — tese de doutoramento (2003), referência base
- A Rede de Cloacas em Pax Iulia (Miguel Serra, 2025) — urbanismo romano
- Inscrição Monumental de Pax Iulia (José D’Encarnação) — inscrição das muralhas (FE 29)
- Forum de Pax Iulia — fórum romano de Beja