As Antiguidades da Lusitânia (André de Resende) — conteúdo de Beja
Libri quatuor de antiquitatibus Lusitaniae, de André de Resende (obra fundadora da arqueologia/antiquária portuguesa, publicada postumamente em 1593). É o texto que fixou a identificação de Beja com a romana Pax Iulia. Esta nota extrai apenas as passagens sobre Beja (ed. crítica de Rosado Fernandes, UC).
⭐ A “pedra de toque” de toda a historiografia bejense posterior: foi Resende quem provou, contra a tese castelhana, que Pax Iulia era Beja e não Badajoz.
A identificação de Beja = Pax Iulia (Livro IV)
Resende escusa-se a descrever longamente Pax Iulia “siue Augusta” por já o ter feito na sua epístola a João Vaseu, Pro colonia Pacensi (“Em Defesa de Beja”) e no opúsculo a Francisco Nunes. Pontos-chave:
- Beja é a cidade “que vulgarmente se chama Bexa, por corrupção do nome pelos Mouros”
- Situada entre os Célticos da Lusitânia (Estrabão) ou no confim entre Célticos e Turdetanos (Ptolomeu)
- Foi colónia e segundo conventus (convento jurídico) da Lusitânia
- Relata como a dignidade pontifícia (bispado) foi transferida dali para Badajoz — o agravo no centro da reivindicação posterior
As glórias de Beja
- Apríngio, bispo erudito, cujo Comentário ao Apocalipse Isidoro de Sevilha preferia ao de todos os antigos
- Isidoro Pacense (“Isidoro, o Pacense”), autor de opúsculos de “linguagem difícil e pouco cuidada”
- O jovem Sisenando, mártir em Córdova, e o presbítero Tiberino
Inscrições romanas nas muralhas (Livro IV)
Resende transcreve epígrafes dispersas pela cidade — base do corpus epigráfico de Pax Iulia (hoje cotejadas com a IRCP de José D’Encarnação):
- Junto às Portas de Moura: C. IVLIVS C.F. II VIR BIS… (Gaio Júlio, duúnviro) · EQVIT PRAEF FABRVM (cavaleiro, prefeito dos artífices) · um cipo com FLAMIN TI CAESARIS AVG (flâmine de Tibério César)
- Do outro lado das Portas de Moura: CVRIAE PONT FLAM PACIS IVLIAE — “Pontífices da Cúria, Flâmines de Pax Iulia” (a inscrição que nomeia a colónia)
- Junto às Portas de Mértola: dedicatória a Q. Peticius Rufus
- Nos degraus da sé: PAX IVLI… Q. PETRON… (a dedicar a Quinto Petrónio)
A rede viária e o território (Livro III + Escólios)
- As estradas do Itinerário de Antonino de Esuri (Castro Marim) a Pax Iulia, via Balsa, Ossonoba, Serpa, Arucci — e o atalho por Myrtilis (Mértola)
- O marco de fronteira (terminus) entre Pacenses e Eborenses, da época de Diocleciano e Maximiano (sob o governador Públio Daciano), achado junto a Oriola — delimitava o território de Beja do de Évora
- Na tabela toponímica: Pax Iulia = Beja; os Turdetanos (Algarvios) estendiam-se entre o Guadiana, o Oceano e Pax Iulia, ocupando o Campo de Ourique
Entidades mencionadas
- Pessoas: André de Resende (autor) · Apríngio de Beja · Isidoro Pacense · S. Sisenando · José D’Encarnação
- Locais: Portas de Moura · Porta de Mértola · Muralhas de Beja
- Temas: Pax Iulia — Roma em Beja · Bispado Visigótico de Beja · Historiografia de Beja e a Reivindicação do Bispado
Documentos relacionados
- A História como Base para a Reivindicação Política — o Caso de Beja (Marta Páscoa, 2023) — Resende como ponto de partida da reivindicação
- Inscrição Monumental de Pax Iulia (José D’Encarnação) — a epigrafia moderna que confirma Resende
- A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes) — a arqueologia que retoma estas questões
Como citar
Referência (APA): Resende, André de (1593). As Antiguidades da Lusitânia (ed. crítica de R. M. Rosado Fernandes). Universidade de Coimbra.
Tags
romano pax-iulia epigrafia historiografia idade-moderna beja