Inscrição Funerária Romana nas Muralhas de Beja (D’Encarnação e Serra, 2013)

Artigo de José D’Encarnação e Miguel Serra que publica um fragmento de provável placa funerária romana, encontrado reutilizado no torreão sul das muralhas junto à Rua Dom Manuel I, em Beja. O estudo corresponde à inscrição 483 do Ficheiro Epigráfico n.º 112.

Descoberta

A epígrafe foi detectada durante a intervenção arqueológica realizada entre Julho e Agosto de 2004 no âmbito do projecto do parque de estacionamento e jardim público da Rua D. Manuel I, integrado no BejaPolis. Os trabalhos, da responsabilidade da DEGEBE, foram dirigidos cientificamente por Miguel Serra, da empresa Palimpsesto.

A peça encontrava-se reutilizada no aparelho exterior do torreão sul, numa zona não abrangida pela intervenção. A parede estivera totalmente rebocada e o local era pouco acessível antes das obras, circunstâncias que poderão explicar por que não fora identificado por Abel Viana. O acesso fazia-se por uma porta aberta numa parede contemporânea acrescentada às muralhas, formando um pequeno quintal.

Na mesma área observavam-se outros materiais romanos reutilizados, incluindo blocos de opus caementicium e um fragmento de fuste de coluna em gabro-diorito.

Monumento

Trata-se da parte esquerda do campo epigráfico de uma provável placa funerária em mármore de Trigaches. A moldura combina uma garganta encastada, uma ranhura e um toro arredondado e liso. A superfície plana levou Susana Correia a rejeitar a identificação inicial como fragmento de cupa.

O fragmento visível mede cerca de 32 por 22 por 20 cm, embora a espessura total não pudesse ser medida por estar incrustado. O campo epigráfico conservado mede aproximadamente 29 por 18 cm e as letras têm 4,8 cm.

Leitura proposta

Os autores apresentam uma restituição muito incompleta:

D(is) M(anibus) [S(acrum)]
CAS[SIA? ... PATRI?]
CIA ... [ANN(orum) ...?]
H(ic) S(ita) [E(st) S(it) T(ibi) T(erra) L(evis)]
...

Em português: “Consagrado aos deuses Manes. Aqui jaz Cássia (?) Patrícia (?), de … anos (?). Que a terra te seja leve.”

O início da consagração aos deuses Manes e parte da fórmula funerária final são reconhecíveis. A identificação como mulher é sugerida pela terminação -cia e pela ausência de praenomen, mas nem Cássia nem Patrícia estão integralmente conservados. A terceira linha poderá ter indicado a idade ou o dedicante. Uma quinta linha é considerada pouco provável.

Onomástica, estatuto e datação

Cassia e Patricia são antropónimos latinos compatíveis com a onomástica de Pax Iulia. Os autores admitem a possibilidade de se tratar de uma liberta identificada por dois nomes, mas o fragmento não permite comprovar esse estatuto.

Os poucos caracteres conservados têm escrita actuária. Pela comparação formal com outros monumentos da cidade, os autores propõem a segunda metade do século II d.C., salientando que a datação paleográfica é especialmente hipotética.

Uma síntese de 2025 associou a inscrição à Necrópole Noroeste de Pax Iulia, apresentou o nome sem interrogações e classificou o monumento como ara. A publicação primária sustenta apenas uma provável placa funerária e mantém incertas as restituições Cassia e Patricia.

Entidades mencionadas

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Como citar

Referência (APA): D’Encarnação, José, & Serra, Miguel (2013). Inscrição funerária romana nas muralhas de Beja. Ficheiro Epigráfico, (112), inscrição 483, 3-6.

Tags

Arqueologia Epigrafia Romano