Arqueologia Urbana de Beja
A prática de identificação, registo e salvaguarda do património arqueológico no tecido urbano de Beja, sobretudo no acompanhamento de obras de infra-estruturas que remexem o subsolo de uma cidade continuamente habitada desde a Antiguidade.
O problema da destruição em obra
Até finais de 2022, muitas valas eram abertas na cidade sem acompanhamento arqueológico, destruindo contextos e motivando queixas à Direcção Regional de Cultura do Alentejo.1 Grande parte dos contextos antigos já fora, aliás, destruída em meados do séc. XX, quando a colocação de infra-estruturas (água, luz, esgotos) ainda não obrigava a acompanhamento.1
O acompanhamento das obras da EMAS (2023-2025)
Após um incidente grave na Rua da Moeda em Dezembro de 2022, o arqueólogo municipal passou a acompanhar todas as aberturas de valas da EMAS - Empresa Municipal de Águas e Saneamento de Beja em zonas sensíveis.1 Elaborou-se um mapa de sensibilidade arqueológica da cidade, entregue às grandes firmas, com uma proposta de urbanismo romano e do sistema defensivo do séc. XVII de Nicolau de Langres.1 Foram feitos 67 acompanhamentos (Fev 2023-Fev 2025), com achados em 26 casos - de que se destacam a destruição do séc. X na Rua Dr. Manuel de Arriaga e a necrópole romana noroeste no Largo de Dom Dinis.1 O modelo obrigou outras empresas a contratar arqueologia, incluindo extramuros.1
Intervenção da Rua Dom Manuel I (2004)
Durante os trabalhos associados ao parque de estacionamento e jardim público da Rua Dom Manuel I, dirigidos por Miguel Serra, foi identificada a inscrição funerária FE 483 reutilizada no Torreão Sul das Muralhas da Rua Dom Manuel I. A remoção do reboco tornou visíveis a epígrafe e outros materiais romanos integrados na construção medieval.2
Achado numa casa da Rua Dom Manuel I
Mais de trinta anos antes de 2025, obras numa casa não identificada da Rua Dom Manuel I revelaram o fragmento de estela FE 908. A ausência de um endereço exacto e de um contexto arqueológico conhecido impede relacioná-lo com um lote específico ou com o lugar original da sepultura. A peça conserva-se numa colecção particular.3
Intervenção do Parque Vista Alegre (2015-2016)
O acompanhamento da reabilitação do Parque Vista Alegre, também dirigido por Miguel Serra, combinou acompanhamento de obra, sondagens de diagnóstico, levantamento arquitectónico e fotogrametria. Identificou uma porta romana, uma cloaca, os fragmentos FE 594 e numerosos materiais romanos e visigóticos reutilizados na muralha medieval.4
Registo nas Portas de Mértola
Uma intervenção paisagística junto à Caixa Geral de Depósitos tornou acessível para estudo a Cupa de Júlia Crésima, reutilizada na face oriental do Torreão Norte das Portas de Mértola. O caso mostra que elementos romanos permanecem por identificar ou publicar no aparelho visível das muralhas medievais.5
Intervenção do Centro UNESCO (2018)
A reabilitação do troço das muralhas entre o Centro UNESCO de Beja e o Parque Vista Alegre, acompanhada por Eunice Pimpão, permitiu identificar o Fragmento de Cupa do Centro UNESCO no paramento interior. A peça confirma a presença de outros monumentos funerários romanos reutilizados na fortificação, embora não conserve o campo epigráfico nem o contexto sepulcral original.6
Estelas medievais em aterro (2017 e 2019)
O acompanhamento de obras na Rua D. Nuno Álvares Pereira revelou duas estelas funerárias discoides medievais reutilizadas como material de enchimento. A ausência de outros contextos arqueológicos e a posição secundária das peças impedem determinar a necrópole de origem; a atribuição à antiga Igreja de São João Baptista é apenas uma hipótese tipológica e urbanística.7
Fontes
- O Acompanhamento Arqueológico das Obras da EMAS de Beja (Jorge Feio, 2026)
- Inscrição Funerária Romana nas Muralhas de Beja (D’Encarnação e Serra, 2013)2
- Fragmentos de Cupae nas Muralhas de Beja (Miguel Serra, 2017)4
- Cupa do Torreão das Portas de Mértola (D’Encarnação e Serra, 2018)5
- Novo Fragmento de Cupa na Muralha de Beja (Miguel Serra, 2019)6
- Fragmento de Epitáfio Romano em Pax Iulia (Miguel Serra, 2025)3
- Duas Novas Estelas Funerárias Discoides de Beja (Serra, Porfírio e Pimpão, 2021)7
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Notas
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O Acompanhamento Arqueológico das Obras da EMAS de Beja (Jorge Feio, 2026) ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6
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Inscrição Funerária Romana nas Muralhas de Beja (D’Encarnação e Serra, 2013) ↩ ↩2
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Fragmento de Epitáfio Romano em Pax Iulia (Miguel Serra, 2025) ↩ ↩2
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Fragmentos de Cupae nas Muralhas de Beja (Miguel Serra, 2017) ↩ ↩2
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Cupa do Torreão das Portas de Mértola (D’Encarnação e Serra, 2018) ↩ ↩2
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Novo Fragmento de Cupa na Muralha de Beja (Miguel Serra, 2019) ↩ ↩2
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Duas Novas Estelas Funerárias Discoides de Beja (Serra, Porfírio e Pimpão, 2021) ↩ ↩2