Duas Inscrições Funerárias Paleocristãs de Nossa Senhora das Neves (D’Encarnação e Feio, 2016)
Artigo de José D’Encarnação e Jorge Feio sobre duas inscrições paleocristãs gravadas, com 82 anos de intervalo, na mesma tampa de sarcófago. A peça foi encontrada no Monte da Robala, perto de Porto de Peles, na freguesia de Nossa Senhora das Neves, concelho de Beja, e publicada como inscrições 560 e 561 do Ficheiro Epigráfico n.º 134.
Descoberta e contexto arqueológico
A tampa foi descoberta cerca de quarenta anos antes da publicação, durante trabalhos agrícolas no Monte da Robala. O ponto de achado situa-se aproximadamente cem metros a sul de uma villa romana, cujas estruturas monumentais permaneciam visíveis à superfície em 2014. A área integra uma extensa necrópole da Antiguidade Tardia.
Em Maio e Junho de 2014, Jorge Feio coordenou uma escavação arqueológica de emergência na necrópole. O sarcófago liso, também em mármore de Trigaches, encontrava-se muito fragmentado.
Depois da descoberta, a tampa e os fragmentos do sarcófago foram transportados para o Monte do Rato. Em 26 de Maio de 2014, António Gabriel informou os investigadores da existência de uma pedra com palavras que se dizia datar de 600. O seu pai, Manuel Gabriel, facultou-lhes o acesso imediato ao monumento.
A tampa
A tampa é uma placa de mármore de grão médio de São Brissos/Trigaches, com 156 cm de comprimento, 55 cm de largura e 7 cm de espessura. Conserva duas inscrições funerárias.
O primeiro epitáfio ocupa apenas uma pequena área preparada no topo da placa, deixando espaço livre para eventuais inscrições posteriores. O segundo foi gravado 6 cm abaixo do primeiro, 82 anos depois. Esta distância cronológica sugere uma reutilização do monumento quando a memória do primeiro defunto já se teria esbatido, mas não permite demonstrar qualquer parentesco entre os dois indivíduos.
Inscrição 560 - Bardasco
DEPOSITIO BAR
DASCI QVI VIXIT
ANNO(s) XX RECESSIT IN PACE D(ie) XVII KAL(endas) SEP
TEMB(res) ERA DXXIIEm português: “Sepultura de Bardasco, que viveu 20 anos. Descansou em paz no 17.º dia antes das calendas de Setembro da era de 522 [14 de Agosto de 484].”
O epitáfio ocupa um campo de 24 por 32 cm e tem letras maioritariamente com 4 cm de altura. A paginação é cuidada, embora sem linhas auxiliares visíveis, e combina caracteres de tradição capital com formas cursivas, letras incluídas e nexos.
Segundo os autores, esta poderá ser a mais antiga inscrição datada da Península Ibérica conhecida até então a começar pelo vocábulo depositio. Ao contrário de epitáfios contemporâneos de Mértola, não usa famulus Dei nem famulus Christi.
O antropónimo latino Bardascus, aqui traduzido como Bardasco, não tinha paralelos identificados. Os autores consideram mais verosímil, mas apenas como hipótese, uma origem em substratos linguísticos norte-africanos, atendendo às relações entre as primeiras comunidades cristãs dos dois lados do Estreito de Gibraltar.
Inscrição 561 - Redento
[crux] RE[DEMP]TVS FAMVLVS DEI
VIXIT AN(n)OS XI REQVIEVIT
IN PACE D(omi)NI III (die tertia ante) IDVS IVNIAS
ERA DCIIIIEm português: “Redento, servo de Deus, viveu 11 anos. Descansou na paz do Senhor no terceiro dia antes dos idos de Junho da era de 604 [11 de Junho de 566].”
O texto ocupa um campo de 15 por 35 cm e apresenta letras de cerca de 3 cm, mais regulares do que as do epitáfio anterior. Uma pequena cruz antecede o nome. A fórmula famulus Dei integra-o num uso bem documentado na epigrafia cristã do Conventus Pacensis.
O arado que revelou a tampa atingiu precisamente a zona do nome. Os traços conservados permitem aos autores propor a restituição Redemptus, em português Redento, mas a leitura não é integralmente segura. O nome significa “resgatado” e poderá ter sido escolhido no baptismo cristão. O segundo N de annos foi omitido por falta de espaço e poderá ter sido assinalado por um traço oblíquo ascendente, solução que os autores consideram possivelmente inédita na epigrafia portuguesa.
Importância histórica
O enterramento de Bardasco, em 484, constitui um indício directo da cristianização de um ambiente rural ainda no século V, junto da villa onde viveria. A inscrição de Redento, de 566, confirma a continuidade do uso funerário cristão da área.
A reutilização da mesma tampa depois de 82 anos permite observar, num único monumento, mudanças no formulário, na escrita e nos sinais cristãos durante cerca de três gerações. Os autores comparam o caso com sepulturas sucessivas de Silveirona, Mértola e Mérida, mas não concluem que Bardasco e Redento fossem familiares.
Entidades mencionadas
- Pessoas: José D’Encarnação · Jorge Feio · Bardasco · Redento · António Gabriel · Manuel Gabriel
- Locais: Tampa de Sarcófago de Bardasco e Redento · Monte da Robala · Porto de Peles · Nossa Senhora das Neves · Monte do Rato · Trigaches
- Temas: Ficheiro Epigráfico · Epigrafia Paleocristã de Beja · Beja Visigótica · Necrópoles de Beja · Villae Romanas do Território Pacense · Conventus Pacensis
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Como citar
Referência (APA): D’Encarnação, José, & Feio, Jorge (2016). Duas inscrições funerárias paleocristãs (Nossa Senhora das Neves, Beja). Ficheiro Epigráfico, (134), inscrições 560-561, 7-14.