Marcas Arquitectónico-Artísticas da Cristianização do Território entre Évora e Beja (Jorge Feio)

Dissertação de mestrado de Jorge Feio (História da Arte da Antiguidade, orientação de Manuel Justino Maciel, FCSH-UNL, 2010) sobre as marcas arquitectónico-artísticas da cristianização do território entre Liberalitas Iulia Ebora (Évora) e Pax Iulia (Beja), na Antiguidade Tardia (séc. IV-VIII).

A tese estuda todo o espaço entre Évora e Beja. Para a história pacense, documenta o Conventus Pacensis e a diocese de Pax Iulia, a rede viária que converge na cidade e o grupo escultórico de Beja como centro artístico de referência do período.


Beja capital do Conventus Pacensis

  • A Lusitânia dividia-se em três conuentus iuridici: o Scalabitanus (Santarém), o Emeritensis (Mérida) e o Pacensis, com capital em Pax Iulia (Beja) - circunscrição judicial e também religioso-administrativa, com culto imperial na capital.
  • A criação dos conuentus, tradicionalmente atribuída aos Flávios, é aqui recuada ao principado de Augusto (c. 13 a.C.), com base em documento epigráfico descoberto na Galiza e na leitura de Carlos Fabião e Jorge de Alarcão.
  • Os limites conventuais não estão fixados por fontes, mas seguiriam os das ciuitates: o Pacensis abrangeria quase todo o território português a sul do Tejo (excepto a ciuitas Ammaiensis).

As dioceses paleocristãs: Pax Iulia

  • A lista Ovetensis (do Escorial) atribui ao conuentus Pacensis três dioceses: Pace (Pax Iulia, Beja), Ossonoba (Faro) e Ebora (Évora) - três das cidades imperiais privilegiadas do espaço.
  • A diocese de Pax Iulia correspondia à quase totalidade do actual Baixo Alentejo, incorporando as ciuitates de Sirpa (Serpa), Myrtilis (Mértola), Mirobriga (Santiago do Cacém) e Arandis (Castro Verde), além de povoados como Ad Fines (Vila Verde de Ficalho), Sinus (Sines), Vipasca (Aljustrel), Alfundão, Moura e Alvalade do Sado.
  • A fronteira entre as dioceses de Évora e Beja situar-se-ia na ribeira de Odivelas / Serra do Mendro, seguindo pela via de Vera Cruz de Marmelar ao Guadiana.
  • O conuentus Pacensis é o que reúne mais evidências de paleocristianismo de todo o território português (mais de dois terços das inscrições funerárias paleocristãs; a única inscrição fundacional quase completa, dos Santos Justo e Pastor, em São João dos Azinhais, Torrão), com influências norte-africanas e ravenático-bizantinas.

A rede viária que converge em Pax Iulia

  • Via Liberalitas Iulia EboraPax Iulia - uma das principais do Sul; ausente do Itinerário de Antonino mas documentada por vestígios. Passaria por Nossa Senhora d’Aires, ponte de Vila Ruiva, um possível uicus «Cupa» (Cuba), Faro do Alentejo e São Brissos, até Beja. O troço servia de limite de concelho já em 1251.
  • Miliário de Flávio Júlio Crispo (milha XIX), datado de 317-326 por José D’Encarnação (IRCP), associado a esta via junto ao Monte do Cavalete.
  • Via Salacia Urbs ImperatoriaPax Iulia: por Torrão, Odivelas, Alfundão (importante uicus com ponte) e Ferreira do Alentejo até Beja; continuou em uso em época islâmica.
  • Via Montemor-o-Novo → Beja: reconstituída a partir da carta de delimitação do Couto de Alvito (1261), que menciona a via que venit de Monte maiorj novo pro ad begiam.

O grupo escultórico de Beja

  • Beja funciona como centro artístico de referência da escultura arquitectónica paleocristã/visigótica do território: a «forte influência do grupo escultórico de Beja» chega a Marmelar, Vera Cruz de Marmelar, Mértola, Moura, Alfundão, Sines e Alvalade do Sado.
  • As peças estão reunidas no Núcleo Visigótico da Igreja de Santo Amaro; a obra de referência citada é o catálogo Núcleo Visigótico do Museu Regional de Beja (coord. Cláudio Torres, Museu Regional de Beja). Feio compara elementos de outros sítios com peças concretas do catálogo (n.os 31 e 32, com trifólios em semicírculos inscritos em quadrados).
  • Estes paralelos sustentam a hipótese, já sugerida noutras fontes, de uma oficina escultórica sediada em Pax Iulia (aproveitando os mármores de Trigaches e São Brissos). Ver Beja Visigótica.

Continuidade islâmica: a kora de Beja

  • Com a ocupação islâmica, o antigo conuentus Pacensis foi dividido em duas koras: a de Beja e a de Faro. A kora de Beja abarcava todo o actual Alentejo e parte da Estremadura espanhola, com povoações dependentes como Elvas, Évora, Alcácer do Sal, Moura, Serpa, Aroche e Mértola.
  • O prestígio de Beja mantém-se: geógrafos árabes (Al-Muqaddasi, séc. X; Al-Bakri, séc. XI) citam-na, a sul do Tejo, a par de Santarém e Faro, omitindo mesmo Lisboa.

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Como citar

Referência (APA): Feio, Jorge Manuel da Palma Moreira (2010). Marcas arquitectónico-artísticas da cristianização do território entre Évora e Beja [Dissertação de mestrado, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa].

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Arqueologia Arquitetura Religião Antiguidade tardia