Beja Medieval — Os Silos da Avenida Miguel Fernandes (A. Martins, C. Neves, V. Aldeias, 2007)

Artigo (revista Vipasca — Arqueologia e História, n.º 2, 2007) sobre a intervenção arqueológica de emergência de 2004 no Parque Subterrâneo da Avenida Miguel Fernandes, que identificou um conjunto de 137 silos medievais. Equipa da empresa Crivarque Lda., no âmbito do programa BejaPolis (projecto do arquitecto João Santa-Rita).

⭐ Primeiro documento da base sobre a Beja medieval/moderna cristã (não-romana) — complementa a vertente romana (Pax Iulia) e a religiosa (séc. XVIII).

Nota de edição: a mesma escavação teve publicação científica completa em “Sobre um conjunto de silos em Beja: a Avenida Miguel Fernandes” (A. Martins, C. Neves, C. Costa, G. Lopes), Revista Portuguesa de Arqueologia, vol. 13, 2010, pp. 145-165mesma obra, não foi criada nota separada. Esta versão de 2010 detalha ainda a estratigrafia multi-período do Parque Subterrâneo: vestígios da Idade do Ferro; estruturas romanas com pavimento de opus signinum (possíveis edifícios monumentais, perto do fórum de Pax Iulia); e níveis islâmicos dos séc. IX-XIII — sob os quais se abriram os silos medievais.

“O povo conhece-os pelos nomes de matmôrras, matamôrras, masmorras, matmôras, covas e covelas, designações em que liga à ideia de esconderijo a de prisão”Abel Viana (1946)


A intervenção (2004)

  • 137 silos identificados, na zona NO e SE do parque (sob a antiga estrada), fora das muralhas (freguesias de S. João Baptista e Santiago Maior)
  • 109 escavados integralmente, 15 parciais, 13 só registados; 7 meses de trabalho em contexto de obra
  • Três linhas de silos próximas da muralha; distribuição linear; sem estruturas residenciais ou de apoio associadas
  • Substrato geológico brando (barros) → favoreceu silos grandes e numerosos
  • Desactivação: tampados (frequentemente com mós reutilizadas), depois colmatados com entulho

Cronologia

  • Abertura/uso primário (armazenagem de cereais): provavelmente sécs. XIV–XV, alguns podendo recuar ao séc. XIII
  • Preenchimento da maioria: transição Medieval→Moderna (sécs. XV–XVI); alguns colmatados no séc. XVII
  • Desactivação ligada à criação do Celeiro Comum de Beja (29 Ago 1579, pelo Cardeal Rei D. Henrique), que proibiu os lavradores de “encovar” cereais
  • Função secundária: lixeiras domésticas / despejos de açougues e matadouros (até à 1.ª metade do séc. XX)

Função dos silos

Estruturas negativas para armazenar cereais (sobretudo trigo), frutos secos e líquidos; boa conservação, espaço reduzido, permitiam ocultar as colheitas. Junto aos campos de cereal e às hortas que rodeavam a cidade.


Espólio recolhido

Malacofauna

Predomínio de amêijoa (Tapes decussatus) e ostra (Ostrea edulis) — moluscos comestíveis comuns (não de luxo), trazidos por rotas comerciais; sustentam a hipótese de uso secundário dos silos como “lixeira”.

Cerâmica

  • Comum (sécs. XIV–XVII): caçoilas, panelas, testos, alguidares, púcaros, jarros, cântaros, candeias, penicos, mealheiros, medidas; vidrados a partir do séc. XVI
  • Importação de luxo (o crescimento económico do séc. XV deu a Beja poder de compra):
    • Valencianas (Manises, Paterna) — reflexos metálicos, azul, verde e manganés; um alfardon (azulejo hexagonal), meados séc. XV
    • Teruel — azul e verde-vinoso
    • Sevilhanas — pratos onfalóides, corda seca e aresta (fins séc. XV–1.º quartel séc. XVI)
    • Granadinas (nasris) — início séc. XV; muito raras em Portugal (só Palmela e Tavira) — importantes para as rotas comerciais
    • Comum alto-alentejana (Montemor, Estremoz, Nisa) e faiança portuguesa (sécs. XVII–XVIII)

Numismática

Colecção abundante: 449 da 1.ª Dinastia, 442 da 2.ª Dinastia, 412 ilegíveis; predomínio de meados séc. XIV a fins séc. XV.

Espólio diverso

  • Bélico: noz de besta, punhais (cabo de osso decorado), espadas, fragmento de cota de malha, dedeiras, projécteis
  • Ofícios: moldes de botões (osso), plaina de marcenaria, 7 safras em osso de ferreiro (para picar foicinhas de gume serrilhado)
  • Quotidiano/têxtil: agulhas, cardadeiras, fusos, cossoiros, torre de roca
  • Lazer: dados, malhas de jogo
  • Adorno pessoal: brincos, anéis, contas, botões; um pendente em concha (gastrópode Zonaria pyrum, espécie exógena mediterrânica — prova de rotas comerciais internacionais)

Enquadramento histórico: Beja medieval

  • Sécs. XI–XII: cidade praticamente destruída e abandonada; saída maciça da população para Mértola e Sevilha; estagnação até fins séc. XIII / início séc. XIV
  • Sécs. XIV–XV: prosperidade e crescimento populacional; vinda de elites ribatejanas (Santarém) que pedem a D. Afonso III o foral de Santarém para Beja; dinheiro e contactos comerciais
  • Foral de D. Afonso III (séc. XIII) já incentivava a agricultura
  • D. Manuel (início séc. XVI): Beja entre as cidades mais ricas a sul do Tejo (com Évora, Portalegre, Elvas), sustentada na produção agrícola
  • “Pão” (trigo, cevada, centeio, milho) como moeda de troca; Beja sempre requisitada por cereais (ex.: Verão de 1651)

Rotas comerciais

Beja no centro de duas rotas que ligavam ao Atlântico por estuários:

  • NO: estuário do Sado (entrada por Alcácer do Sal, com estaleiros navais) → Lisboa / Norte da Europa
  • SE: estuário do Guadiana (entrada por Mértola; portos de Castro Marim e Tavira) → Costa Sul e Mediterrâneo

Outros silos de Beja (registados por Abel Viana)

Abel Viana (1946, 1954) registou silos por toda a cidade, dentro e fora da muralha: Rua da Conceição (sob o refeitório do Convento da Conceição, abandonados c. 1506), Rua da Torrinha, Rua do Conde da Boavista, Rua de Santo António/das Lojas, Rua do Mestre Manuel, Travessa do Padre Plácido, Praça da República, recinto do Castelo, Rua do Touro, Rua da Misericórdia, Rua dos Prazeres, Praça de Miguel Fernandes, Rua de Lisboa. Em 1987 escavou-se um silo na Rua das Portas de Moura (materiais modernos, islâmicos e romanos).


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Como citar

Referência (APA): Martins, Andrea, Neves, César, & Aldeias, Vera (2007). Beja medieval – os silos da Avenida Miguel Fernandes. Vipasca – Arqueologia e História, 2.ª série, (2), 600-609.

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