O Acompanhamento Arqueológico das Obras da EMAS de Beja (Jorge Feio, 2026)

Artigo de Jorge Feio (arqueólogo da Câmara Municipal de Beja) que dá conta do acompanhamento arqueológico das aberturas de valas da EMAS - Empresa Municipal de Águas e Saneamento de Beja - entre Fevereiro de 2023 e Fevereiro de 2025 (67 intervenções). Relato primário recente da arqueologia urbana da cidade. Publicado na revista Al-Madan Online (Centro de Arqueologia de Almada).

🏛️ Foco: gestão de património em obra pública, com dois achados de relevo - uma camada de destruição do séc. X (possível cerco de 929) e a confirmação da necrópole romana noroeste de Pax Iulia.


O problema e a solução

  • Até finais de 2022, a arqueologia urbana de Beja vivia momentos críticos: valas abertas por várias empresas sem acompanhamento, motivando queixas à Direcção Regional de Cultura do Alentejo.
  • Após uma situação grave em Dezembro de 2022, na Rua da Moeda, a Câmara Municipal passou a acompanhar todas as aberturas de valas da EMAS em zonas sensíveis.
  • Elaborou-se um mapa de sensibilidade arqueológica da cidade, entregue às grandes firmas que operam no espaço público. Integra uma proposta de urbanismo romano (teatro, anfiteatro, fórum segundo Jorge de Alarcão, possível circo e possível “segundo senado”, necrópoles e mausoléus) e o sistema defensivo do séc. XVII desenhado por Nicolau de Langres.
  • Resultado: 67 acompanhamentos (Fev 2023-Fev 2025), com vestígios de interesse em 26 e 29 registos; obrigou também outras empresas a contratar arqueologia, incluindo extramuros.

Rua Dr. Manuel de Arriaga: uma destruição do séc. X

  • Em obras junto à Igreja de Santa Maria (Setembro de 2023, substituição de colector), registou-se um contexto bem preservado de destruição violenta por incêndio, datado do primeiro terço do séc. X. Ver Rua Dr. Manuel de Arriaga.
  • A UE 1002 (cinzas e carvões, quase pulverizando as telhas) sugere um grande incêndio. Coloca-se a hipótese de o integrar num dos eventos do início do séc. X - nomeadamente a destruição de Beja em 929 por Abderramão III - sem descartar um incêndio ocasional.
  • Espólio: fragmento de bordo de ânfora Dressel 30 (Baía Gaditana), cerâmica de fabrico manual/torno lento tardo-visigótica e emiral, e um fragmento de candil do vale do Guadalquivir (1.º terço do séc. X). Ver Beja Muçulmana.

Largo de Dom Dinis: a necrópole romana noroeste

  • No Largo de Dom Dinis, n.º 3 (junto às Portas de Mértola), a demolição de parte de uma fachada (em zona de protecção do castelo e muralhas) pôs a descoberto um elemento arquitectónico de mármore de um mausoléu ou torre funerária e um sarcófago de mármore de Trigaches reutilizado como “decantador de vinho” numa antiga taberna; numa parede interior registou-se ainda o “miolo” da muralha.
  • O conjunto confirma a dimensão e a importância da necrópole romana a noroeste de Pax Iulia. O elemento foi recolhido para o Depósito de Arqueologia Municipal; o sarcófago ficou in situ. Comparação com o mausoléu da villa de Pisões. Ver Necrópoles de Beja.

Outros achados

  • Rua da Casa Pia, n.º 3: inscrições medievais sob as paredes das casas actuais.
  • Rua das Pedras: reconhecimento de contextos romanos e medievais destruídos por obras anteriores, informando a ocupação periurbana da cidade.

Entidades mencionadas

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Como citar

Referência (APA): Feio, Jorge (2026). A Resolução de um Problema: o acompanhamento arqueológico das obras desenvolvidas pela Empresa Municipal de Águas e Saneamento de Beja (2023 a 2025). Al-Madan Online, 2.ª série, 29(1), 84-88.

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Arqueologia Romano Islâmico Medieval