Cupa do Torreão das Portas de Mértola (D’Encarnação e Serra, 2018)

Artigo de José D’Encarnação e Miguel Serra que publica um fragmento da cupa funerária atribuída a Júlia Crésima, reutilizado no Torreão Norte das Portas de Mértola, em Beja. O estudo corresponde à inscrição 636 do Ficheiro Epigráfico n.º 162.

Localização e identificação

O fragmento encontra-se no cunhal norte da face oriental do torreão, junto à Caixa Geral de Depósitos. Era conhecido por habitantes interessados no património local, mas permanecia sem publicação científica. Uma intervenção paisagística da Câmara Municipal de Beja, que cortou a sebe antes existente no local, permitiu observá-lo e registá-lo em pormenor.

O aparelho medieval das muralhas é formado sobretudo por blocos irregulares de gabro-diorito azul. Nos cunhais do torreão foram reutilizados silhares rectangulares bem aparelhados de mármore de Trigaches, entre os quais se encontra a epígrafe.

Monumento

A peça corresponde à parte esquerda do campo epigráfico de uma cupa funerária em mármore de Trigaches. Conserva, no lado esquerdo, uma moldura formada por uma ranhura de cerca de 1 cm, rebaixada em relação ao campo inscrito.

O fragmento visível mede cerca de 30 por 25 por 19 cm. A espessura total não pôde ser determinada porque a peça continua embutida na parede. O campo epigráfico conservado mede aproximadamente 19 por 19 cm.

Leitura

Os autores propõem a seguinte restituição:

[D(is) M(anibus) S(acrum)]
IV[LIA]
C·HR·ES[IMA]
[...]

Em português: “Consagrado aos deuses Manes. Júlia Crésima […]”

A consagração inicial aos deuses Manes não se conserva e foi reconstituída por comparação com outras cupae. A leitura Iulia é favorecida pela ausência de espaço para um praenomen à esquerda. O restante texto encontra-se oculto por pedras e cimento, pelo que não é possível saber se indicava a idade, o dedicante ou uma fórmula funerária final.

As letras visíveis medem cerca de 4 cm na primeira linha conservada e 3,5 cm na segunda. A paginação poderá ter seguido um eixo de simetria. Observam-se pontos de separação depois do C e, possivelmente, do R; o H é largo, o R foi gravado a partir de um P e do S conserva-se apenas a metade superior.

Onomástica e estatuto

O gentilício Iulia é o mais frequente na epigrafia de Pax Iulia. O cognome Chresima, de origem grega, significa “útil” ou “prestável”. A combinação levou os autores a considerar provável que Júlia Crésima tivesse origem servil e fosse uma liberta, mas a inscrição preservada não comprova directamente esse estatuto.

Datação

Os autores propõem o século II d.C. com base nos escassos dados paleográficos conservados. A própria publicação sublinha a fragilidade desta datação.

Entidades mencionadas

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Como citar

Referência (APA): D’Encarnação, José, & Serra, Miguel (2018). Cupa do torreão das Portas de Mértola, Beja (Conventus Pacensis). Ficheiro Epigráfico, (162), inscrição 636, 14-16.

Tags

Arqueologia Epigrafia Romano