A História como Base para a Reivindicação Política — o Caso de Beja (Marta Páscoa, 2023)
Artigo de Marta Páscoa (Fundação Casa de Bragança, 2023) com uma tese de meta-historiografia: ao longo de séculos, a escrita da história de Beja foi sobretudo um instrumento político ao serviço de um objetivo concreto — a restauração do bispado perdido. A quantidade de “histórias de Beja” escritas entre os séculos XVI e XIX não é proporcional à importância da cidade, mas sim um esforço para reconquistar essa importância.
🧭 Documento-chave para entender a Historiografia de Beja e a Reivindicação do Bispado: contextualiza praticamente todos os cronistas de Beja já presentes nesta base.
O fio condutor: o bispado perdido
- Beja foi sede de bispado desde o séc. IV (1.º bispo conhecido: Apríngio de Beja, séc. VI, a partir de Santo Isidoro de Sevilha) — ver Bispado Visigótico de Beja
- Mártir bejense S. Sisenando (Córdova, séc. IX) durante a ocupação muçulmana
- Após a reconquista de 1166, o bispado não foi restaurado (excepção entre as antigas dioceses)
- 1255 — Badajoz, ao restaurar a sua sé, apropria-se do título “Pacense” (de Pax Julia), que mantém desde então; o novo bispado de Beja (1770) chamar-se-ia “bejense”, não “pacense”
- Séc. XVI — André de Resende prova, na epístola Pro Colonia Pacensi, que Pax Julia = Beja (e não Badajoz); esta prova torna-se a “pedra de toque” de todas as histórias de Beja seguintes e dos pedidos de restauração
- 1770 — o bispado é finalmente (re)criado, no âmbito de uma reforma que cria seis novas dioceses — não pelos argumentos históricos, mas por uma reorganização maior; 1.º bispo: D. Fr. Manuel do Cenáculo (instalado em 1777)
Catálogo dos historiadores de Beja (instrumentos da reivindicação)
A maioria não eram “historiadores” nem “antiquários” — eram homens da governança (vereadores, juízes, militares), homens cultos mas com agenda política, que não usavam documentos de cartório nem achados arqueológicos:
- Vasco Freire — Livro das Antiguidades da cidade de Beja (1609), dedicado a Filipe II, em período de sé vacante
- Jerónimo do Carvalhal Freire — Memórias Históricas da Cidade de Beja (1609); manuscrito não localizado
- Cristóvão Rebelo de Macedo — Diálogos que tratão da História… da cidade de Beja (1625)
- Diogo de Gouveia Barradas — Apologia por Beja, ou Pax Julia Ilustrada e Antiguidades da cidade de Beja (1660)
- Marçal de Avelar da Costa — História de Beja (1660), copiada e anotada por Fr. Francisco de Oliveira
- Fr. Francisco de Oliveira — o único verdadeiro antiquário, interessado na história por si própria, imitando Resende, sem agenda política (tema do livro de Marta Páscoa, 2023)
- Baltazar Vaz Alcoforado (1645-1716) — irmão de Mariana Alcoforado; proposta de financiamento do futuro bispado (1691)
- Cristóvão Xavier da Silva Ganhoteiro — Memórias Históricas de Beja e Mértola (perdidas)
- Manuel Mestre de Sousa (n. 1703) — Béja Illustrada ou Pax Julia Ennobrecida (paradeiro desconhecido)
- José Gago da Silva (1684-1763?) — Notícia das antiguidades da cidade de Beja (1745), escrita barroca e laudatória
- Mateus Dias Marinho — Notícias da Famoza Cidade de Beja (1759), dirigida a D. José pedindo o restabelecimento do bispado
- Gonçalo Xavier da Alcáçova (?-1785) — Dissertação… se a cidade de Beja foi a que antigamente se chamou Pax Julia (1759); exemplar anotado por Félix Caetano da Silva
- Félix Caetano da Silva (1740-1820) — Memórias Históricas da Cidade de Beja, já depois da restauração (1770), incentivado por Cenáculo como mecenas
Lógica das datas e dedicatórias
As obras eram dedicadas aos monarcas em momentos estratégicos (sé vacante de Évora, nomeação de novo arcebispo) — Évora era a rival directa, e o bispado emanciparia Beja face a ela. O espanhol Vicente Barrantes (1865) compilou toda esta bibliografia numa entrada “Pax Augusta, Pax Julia”.
Entidades mencionadas
Pessoas
- Marta Páscoa (autora) · André de Resende · Apríngio de Beja · S. Sisenando · D. Fr. Manuel do Cenáculo Vilas Boas · Félix Caetano da Silva · Fr. Francisco de Oliveira
- Cronistas: Vasco Freire · Jerónimo do Carvalhal Freire · Cristóvão Rebelo de Macedo · Diogo de Gouveia Barradas · Marçal de Avelar da Costa · Baltazar Vaz Alcoforado · Cristóvão Xavier da Silva Ganhoteiro · Manuel Mestre de Sousa · José Gago da Silva · Mateus Dias Marinho · Gonçalo Xavier da Alcáçova · Mariana Alcoforado
Temas
- Historiografia de Beja e a Reivindicação do Bispado · Bispado de Beja · Bispado Visigótico de Beja · Pax Iulia — Roma em Beja · Reconquista de Beja
Documentos relacionados
- Relatorio das Couzas Notáveis desta Cidade de Beja (Marta Páscoa) — da mesma autora
- Beja no Anno de 1845 (José Silvestre Ribeiro) — herdeiro desta tradição historiográfica
- Inscrição Monumental de Pax Iulia (José D’Encarnação) — as “lápides alusivas” que confirmaram a tese de Resende
Como citar
Referência (APA): Páscoa, Marta (2023). A História como base para a reivindicação política – o caso de Beja (pp. 127-139). Fundação Casa de Bragança.
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