Roteiro Literário — Mariana Alcoforado (Marta Páscoa, 2023)

Estudo de Marta Páscoa (2023) sobre Mariana Alcoforado, a freira do Convento da Conceição a quem se atribui a autoria das Lettres Portugaises (1669). Combina crítica documental rigorosa (separando a figura histórica do mito) com um roteiro territorial e sentimental pelos lugares de Beja ligados à sua memória.

⭐ A síntese mais completa e crítica sobre Mariana Alcoforado nesta base — distingue o que é facto arquivístico do que é construção literária e nacionalista.


A figura histórica

  • Baptizada na Igreja de Santa Maria da Feira em 22 de Abril de 1640 (padrinho: o conde da Vidigueira); filha de Francisco da Costa Alcoforado (homem da governança) e de Leonor Mendes
  • Nasceu, ao contrário da tradição (que aponta a Rua do Touro), na Rua de Manuel Sacoto (depois Rua da Cisterna / Rua da Casa Pia), freguesia de Santa Maria
  • Prole numerosa; várias mulheres da família Alcoforado foram freiras na Conceição (até ao séc. XIX). Irmão mais velho: Baltazar Vaz Alcoforado (fez campanhas da Restauração — pôde ter conhecido Chamilly)
  • Entrou no convento por volta dos 11 anos, professou aos 16; foi escrivã do cartório conventual; faleceu no convento em 1723, aos 83 anos
  • Entre a sua morte (1723) e 1888 ninguém a destacou — a sua celebridade é totalmente póstuma

A questão da autoria das Lettres Portugaises

  • 1669 — publicação em Paris (editor Claude Barbin); cinco cartas de amor de uma freira portuguesa a um oficial francês ausente
  • Edições ilegais identificam o destinatário como o Conde de Chamilly e o tradutor como “Cuilleraque”
  • 1810 — Nota Boissonade: nota manuscrita num exemplar de 1669 dá o nome “Mariane Alcaforada, religiosa em Beja”, e o cavaleiro como o conde de Chamilly — foi o que “colocou Beja no mapa das Cartas”
  • 1888 — Luciano Cordeiro, Soror Mariana a freira portugueza: prova documentalmente que existiu mesmo uma freira chamada Mariana Alcoforado em Beja (mas não que escreveu as Cartas, nem o romance)
  • 1926 — F. C. Green descobre o registo de privilégio (1668) atribuindo a obra a “Cuilleraques”; 1962 — Deloffre e Rougeot identificam-no como Guilleragues (Gabriel-Joseph de Lavergne, 1628-1685) e defendem que foi ele o autor — tese hoje dominante na academia
  • Defensores portugueses da autoria (séc. XX, ligados a Beja): Manuel Ribeiro, António Belard da Fonseca e Leonel Borrela
  • Conclusão de Páscoa: a questão é inconclusiva; o texto dificilmente reflecte a mente de uma freira bejense de Seiscentos, mas uma Mariana real viveu ali, e algo (uma paixão entre freira e militar francês, c. 1666-67) pode tê-lo inspirado

O contexto: por que Beja precisou de Mariana

  • A “descoberta” de Cordeiro insere-se no nacionalismo do final do séc. XIX (Conferência de Berlim, Ultimato inglês de 1890): Portugal afirmava-se pela grandeza histórica e pelos seus “grandes homens” — e uma “grande mulher” autora de obra mundial servia o mesmo discurso (Teófilo Braga)
  • Mariana foi útil à I República e ao Estado Novo (painel de Jorge Barradas na Exposição do Mundo Português, 1940, ano do seu 3.º centenário)
  • Em Beja, mantém-se “vibrante como símbolo de transgressão e resistência feminina” — metáfora de uma cidade que resiste à insignificância

Roteiro territorial e sentimental

  1. Rua da Casa Pia (ex-Rua de Manuel Sacoto / da Cisterna) — provável local de nascimento; ruínas da antiga Casa Pia de Beja (incêndio de 1977)
  2. Igreja de Santa Maria da Feira — baptismo; antigo centro da vila medieval (tradição da 1.ª sé visigótica e mesquita)
  3. Rua do Touro — casa da família desde 1647; perto da Igreja de S. João Baptista (demolida 1919) e do Palácio dos Alcoforados (junto ao Cine-teatro Pax-Júlia; estudado por Leonel Borrela)
  4. Convento da Conceição — onde viveu enclausurada; topografia reconstituída (portaria, grades, dormitórios velho e novo)
  5. Portas de Mértola — as “Duas Irmãs” (torres), entre as quais se abriam as portas (retiradas em 1876)
  6. Janela de Mértola — o “balcon d’où l’on voit Mertola” das Cartas; ponto final do roteiro

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Como citar

Referência (APA): Páscoa, Marta (2023). Roteiro Literário – Mariana Alcoforado. Fundação Casa de Bragança.

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