Convento da Conceição de Beja — Arquitectura num Período de Transição, Séc. XV-XVI (Nicole Martins, 2019)

Dissertação de Nicole Martins (FCSH-UNL, 2019; orientação de Nuno Senos) sobre o Convento da Conceição de Beja — monografia centrada na fundação e construção primitiva (séc. XV-XVI) e no seu lugar na transição gótico → manuelino. Hoje o convento é o Museu Regional de Beja.

⭐ O estudo mais aprofundado da arquitectura do convento. Reconstitui a planta primitiva (muito reduzida pelas demolições do séc. XIX) e discute a categorização estilística do edifício.


Fundação

  • 1459 — breve do Papa Pio II autoriza os duques de Beja, infante D. Fernando e Infanta D. Beatriz, a fundar um mosteiro de Clarissas Observantes (o primeiro convento feminino de observância, com apoio de D. Afonso V) — ver discussão da data (1459 vs. o segundo breve de Paulo II, 1469, que aligeirou a regra da pobreza)
  • Erguido sobre um recolhimento pré-existente de Terceiras dirigido por Soror Ousanda, que se tornou a 1.ª abadessa
  • Construído junto ao Paço dos Infantes, ligado a ele por dois passadiços; expressão do poder dos duques
  • 1473 — entrada das primeiras freiras + trasladação do corpo de D. Fernando (de Setúbal) para a capela-mor
  • Espaço funerário dos duques: D. Fernando e filhos em túmulo de mármore na capela-mor; D. Beatriz em campa rasa à entrada do claustro; o testamento de D. Beatriz (1507) doou joias, prata e relíquias (dos cinco mártires de Marrocos) à capela
  • O convento impulsionou a reforma dos mosteiros femininos, fornecendo fundadoras a outros conventos (Maltesas de Estremoz, Chagas de Vila Viçosa, Santa Clara do Funchal)

Cronologia da construção (por reinado)

  • D. Afonso V (até 1481) — início da obra (c. 1459); quadra/capela de S. João Evangelista
  • D. João II (1481-95) — portal da Sala do Capítulo; oratório de Santo António (breve de Sisto IV, 1482; concluído 1489); João de Arruda presente em Beja (1485) para avaliar casas para ampliar o Paço
  • D. Manuel I (1495-1521) — carta de D. Beatriz a D. Manuel (1504) agradecendo a continuação da obra; Dormitório da Regra (1506); D. Manuel compra casas para o mosteiro
  • Campanhas posteriores: Capela de S. Francisco + retábulo de Cristóvão de Morais (1567); Capela de N.ª Sra. do Rosário (1584); azulejos atribuídos a Policarpo de Oliveira Bernardes (1741)

Significado arquitectónico

  • Igreja devedora do gótico de Batalha (“gótico batalhino”) — apontada por Walter Crum Watson e Mário Chicó como uma das primeiras (se não a primeira) manifestações da arte manuelina (pináculos torsos, motivos que perduram nos reinados de D. Manuel e D. João III)
  • Elementos: portais da Sala do Capítulo e da Portaria (estudados por Vieira da Silva no Tardo-Gótico no Alentejo, 1989); motivos de alcachofra; heráldica dos fundadores (flutuadores de cortiça de D. Fernando + serras com o “y” de D. Beatriz); janelas geminadas (provenientes do Paço dos Infantes, hoje no Museu)
  • Paralelos: igreja de Santiago de Palmela (também patrocínio dos Duques de Beja), Jesus de Setúbal, Pópulo das Caldas, S. João Baptista de Moura

Do convento ao museu (declínio e demolições)

  • 1834: contexto da extinção das ordens; 1891: morte da última abadessa
  • 1892 — a igreja é destinada a Sé Catedral; objectos de valor enviados ao Museu Nacional de Belas Artes; demolições para alargar as Ruas do Conde da Boavista e da Fábrica (Largo de Morais Sarmento)
  • 1894-95 — convento entregue à Câmara; demolição do Paço dos Infantes e de grande parte do convento (ver Demolições do Séc. XIX em Beja)
  • 1922 — classificado Monumento Nacional; 1923 — Biblioteca Municipal; 1927 — instalação do Museu Regional de Beja; 1958-1999 — intervenções da DGEMN

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Como citar

Referência (APA): Martins, Nicole Alexandra Faias (2019). Convento da Conceição de Beja – Arquitectura num período de transição [Dissertação de mestrado, FCSH – Universidade Nova de Lisboa].

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