Notas Arqueológicas sobre Beja — O Arqueólogo Português, Vol. 2 (1896–97)
Três breves artigos do Volume 2 da Série 1 d’O Arqueólogo Português (1896–97) com conteúdo directamente relacionado com Beja.
1. Sepulturas antigas descobertas em Beja — “Informações Colhidas” (pp. 54–55)
Transcrição de notícias publicadas em O Bejense (Fevereiro de 1896), reportando achados de sepulturas romanas no rocio de Ao-Pé-da-Cruz (junto à Igreja de Nossa Senhora do Pé da Cruz).1
- Primeira sepultura (Sábado de 15 Fev. 1896): encontrada por trabalhadores durante obras; oferecida ao Museu Arqueológico pelo Sr. José Pereira — seis tijolos com signas (marcas) que forravam as paredes laterais. Orientação cabeceira a Norte, caixão cavado na rocha e forrado de tijolo. Os ossos desfizeram-se ao contacto com o ar.
- Segunda sepultura (22 Fev. 1896): descoberta em escavações do Sr. Inácio Gomes; forrada de lajes de mármore; dimensões — comprimento 2 m, altura 0,70 m, cabeceira 0,50 m de largura; tampo assente em três varões de ferro; ossos desfeitos.
Nota de Leite de Vasconcelos: estas sepulturas são idênticas às que tinham aparecido anteriormente na Rua Nove de Julho, aquando da construção da agência do Banco de Portugal.
2. Inscrição árabe do Museu Distrital de Beja — “Cousas Árabo-Portuguesas” (pp. 205–206)
Segunda parte de um artigo de autoria não identificada sobre inscrições árabes em Portugal. A inscrição de Beja é a peça n.º 2 do artigo, com referência prévia em O Arh. Port., II, 176.2
A estela, em mármore, conservada no Museu Distrital de Beja, tem bordos danificados e uma quebra no ângulo superior direito. A inscrição é em cúfico e bem gravada. Texto e tradução:
Em nome de Deus clemente, misericordioso; e Deus abençoe Maomé. Esta sepultura é de Maomé, filho de… filho de Hude. Deus tenha compaixão d’ele. Morreu numa segunda-feira do [mês de] Rabí Primeiro, do ano um e sessenta e quinhentos [561 H.].
O ano 561 da Hégira corresponde ao início de Janeiro de 1166 d.C. — portanto quatro anos após a tomada cristã de Beja (1162). A estela prova a sobrevivência de comunidade muçulmana na cidade sob domínio cristão. O autor remete para Alexandre Herculano, História de Portugal, I, p. 399.
3. Beja nas Memórias Paroquiais de 1758 — “Extractos Arqueológicos” (pp. 305–306)
Extracto do item 63 da série de “Extractos arqueológicos das Memórias Paroquiais de 1758”, publicado n’O Arqueólogo Português. Contém três informações sobre Beja retiradas do Dicionário Geográfico do P. Luís Cardoso (baseado nas Memórias Paroquiais).3
a) Inscrição latina na Ermida de S. Sisenando (1679)
Na porta da igreja dedicada a S. Sisenando (construída sobre a sua casa natal) existia um jásper com a inscrição:
DIVO SEZINANDO PATRONO AC ALUMNO SUO PRO CHRISTI NOMINE DIE VIGESIMA QUINTA IULII CORDUBAE IUGULATO, HAC EADEM DOMO, IN QUA NATUS EST, TEMPLUM HOC IN MEMORIAM TANTI NATALITII SEMPITERNAM ERECTUM PAX JULIA DEDICAT ET CONSECRAT. ANNO DOMINI MILLESIMO SEXCENTESIMO SEPTUAGESIMO NONO.
Tradução: A Pax Julia dedica e consagra este templo em memória eterna do seu patrono e filho S. Sisenando, levita e mártir, degolado em Córdova por amor de Cristo no dia 25 de Julho, [erguido] nesta mesma casa em que nasceu. Ano do Senhor de 1679.
b) Lápides e cabeças de touro romanas
“Deste tempo (de Júlio César) se conservam ainda nesta Cidade diferentes Lápides, dando-lhe o nome de Pax Julia, e várias cabeças de touro, que diz a tradição ser obra daquele tempo.”
Há também menção a uma lápide do tempo do Imperador Cómodo (filho de Marco Aurélio, morreu em 193 d.C.) existente na cidade — inscrição não transcrita.
c) Padrão de Oriola (fronteira Beja–Évora)
“No tempo de Diocleciano e Maximiano houveram grandes contendas entre Évora e os de Beja a respeito dos limites, as quais veio compor Daciano, Presidente das Espanhas, e para não haver mais dúvida mandou por um padrão que ainda hoje existe na Oriola.”
Daciano era governador romano da Hispânia sob Diocleciano — o mesmo magistrado a quem a tradição atribui a perseguição de S. Sisenando. O padrão delimitador da fronteira entre os territórios de Pax Iulia e de Évora seria um marco miliário ou similar, cuja localização em Oriola (próximo de Moura) é referenciada no século XVIII.
Entidades mencionadas
Locais: Igreja de Nossa Senhora do Pé da Cruz · Museu Rainha D. Leonor · Ermida de S. Sisenando · Pax Iulia — Roma em Beja
Pessoas: Leite de Vasconcelos · S. Sisenando · Alexandre Herculano
Temas: Necrópoles de Beja · Beja Muçulmana · Cabeças de Touro de Beja · Epigrafia Romana de Beja · Reconquista de Beja
Documentos relacionados
- Museu de Beja e Inscrições Latinas (Leite de Vasconcelos, 1895) — mesma série, Vol. 1
- Materiais Islâmicos do Sítio da Rua do Sembrano (Helena Casmarrinha) — Beja Muçulmana
- Memórias Paroquiais da Cidade de Beja, 1758 (transcrição de Marta Páscoa) — fonte completa dos extractos paroquiais
- Relatorio das Couzas Notáveis desta Cidade de Beja (Marta Páscoa) — Sisenando e cabeças de touro
Como citar
Leite de Vasconcelos, J. (1896). Informações arqueológicas — Sepulturas antigas descobertas em Beja. O Arqueólogo Português, 2, 54–55.
Anónimo. (1896). Cousas árabo-portuguesas — Inscrição lapidar árabe existente no Museu Distrital de Beja. O Arqueólogo Português, 2, 205–206.
Anónimo. (1897). Extractos arqueológicos das Memórias Paroquiais de 1758 — 63. Beja. O Arqueólogo Português, 2, 305–306.
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romano islamico beja arqueologia
Footnotes
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Leite de Vasconcelos, J. (1896). Informações arqueológicas — Sepulturas antigas descobertas em Beja. O Arqueólogo Português, 2, 54–55. ↩
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Anónimo. (1896). Cousas árabo-portuguesas — 2. Inscrição lapidar árabe existente no Museu Distrital de Beja. O Arqueólogo Português, 2, 205–206. ↩
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Anónimo. (1897). Extractos arqueológicos das Memórias Paroquiais de 1758 — 63. Beja. O Arqueólogo Português, 2, 305–306. ↩