A Colónia Romana de Pax Iulia — Balanço de um Percurso de Investigação (M. Conceição Lopes, 2025)
Artigo de M. Conceição Lopes (CEAACP, Universidade de Coimbra) publicado na DigitAR, n.º 11 (2025), pp. 93–108. Propõe um balanço crítico de dois decénios de investigação sobre Pax Iulia (2000–2021), tendo como ponto de partida a tese de doutoramento publicada em 2003 (A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes)). Destaca a assimetria entre o avanço notável do conhecimento urbano e a relativa estagnação no mundo rural.
Mudança de paradigma metodológico
O artigo sistematiza a transição de um modelo baseado em achados avulsos e debate sobre estatuto jurídico para um modelo que articula escavações programadas, arqueogeografia e história da forma urbana em longa duração.
A ferramenta central é a arqueogeografia de G. Chouquer — análise morfológica das formas urbanas de Beja, lidas no plano da cidade actual como produto complexo de heranças sobrepostas, não como simples suporte cartográfico. O conceito de “transformission des formes” (Chouquer) permite ler o fórum como um dispositivo espacial que suporta, em sequência, diferentes programas simbólicos e políticos — do templo da Idade do Ferro ao baptistério paleocristão — sem ruptura de lugar.
A civitas é entendida como um “corpo híbrido de espaços e tempos” com vários sub-espaços (sóciopolítico, político-administrativo, sóciocultural, económico, de cultivo), cada um com a sua própria escala temporal.
O projecto “Arqueologia das Cidades de Beja”
- 1997 — início das escavações sistemáticas na área do fórum (logradouro do Conservatório Regional)
- Outubro de 2008 — incêndio no edifício dos serviços técnicos da Câmara Municipal de Beja, junto ao logradouro; o presidente da autarquia solicita a extensão da escavação para sul (zona ardida), despoletando a nova fase
- 2010 — alargamento substancial das escavações; início da “nova fase” do projecto
- 2021 — interrupção por razões de conjuntura política local; entretanto a empresa NOVARQUEOLOGIA realizou trabalhos de acompanhamento num projecto de valorização nunca aprovado pela tutela, incluindo destruição de estruturas e contextos arqueológicos
Os resultados entre 1997 e 2021 permitiram documentar a sequência completa de construção urbana: do edifício sacro da Idade do Ferro ao templo tiberiano do culto imperial.
Fórum de Pax Iulia: dados adicionais
Posição no tecido urbano
O fórum ocupa o ponto mais elevado do planalto, encostado à antiga muralha, em posição excêntrica relativamente ao cruzamento do cardo e do decumanus definidos pelas Portas de Évora e de Mértola. Lopes interpreta esta “irregularidade” não como desvio de um modelo abstracto, mas como decisão deliberada de manter no centro da vida cívica o lugar sagrado anterior, condicionando a malha urbana sem comprometer a imagem de Pax Iulia como capital do conventus.
Fórum tiberiano: extensão e paralelos
O templo tiberiano é hexástilo e pseudoperíptero, com fundações de mais de 3m de profundidade; o tanque em U que o rodeia em três lados confirma a articulação entre culto imperial e água. Parallelos arquitectónicos: Évora e Luni (Itália). O fórum tiberiano estendia-se até à Rua dos Infantes, onde a cave do restaurante “Os Infantes” conserva uma parede de silhares e um tambor de coluna, e de onde provém o enorme capitel compósito (>1m de altura) publicado por Leonel Borrela (2012).
Fases pós-romanas do espaço forense
Após o programa tiberiano, o espaço do fórum conheceu sucessivas reocupações:1
- Baptistério tardoantigo — edificado sobre e em torno do templo do culto imperial
- Estruturas islâmicas — documentadas nas escavações de 2010–2021
- Casa da Moeda de Beja (Época Moderna, séc. XVI) — instalada no edifício hoje conhecido como Rua da Moeda
- Pedreira — o espaço serviu de fonte de pedra para a construção da abside da Igreja de Santa Maria e das casas da Praça de D. Manuel (que evoluiu a Este do fórum)
Cabeças de Touro de Beja: dimensões e provenência
Lopes integra as cabeças de touro na reconstituição do fórum tiberiano:2
- Cabeça da Rua do Touro (Agosto de 2005): mármore de Trígaches, 90×50×62 cm, 700 kg — encontrada perto dos n.ºs 13-15, juntamente com um capitel coríntio semelhante ao dos Infantes.
- Duas cabeças da galeria exterior do Museu Rainha D. Leonor: provenientes da abside da demolida Igreja de S. João (orientada para a Rua do Touro).
- Cabeça pequena (MRB.01426): mármore branco, 22×28×28,4 cm, do espólio do Museu.
André de Resende documentou cabeças de touro em Beja desde o séc. XVI. A concentração na área da Rua do Touro e Rua dos Infantes apoia a hipótese de que pertenciam ao entablamento do grande complexo do fórum.
Território rural de Pax Iulia
As intervenções do Alqueva (construção da barragem e sistema de rega) acrescentaram sítios ao inventário:
- Necrópole dos Cinco Reis (Beringel) — ARRUDA, 2016
- Necrópole da Vinha das Caliças (Beja) — ARRUDA et al., 2016 Contudo, estes dados não alteraram o modelo de ocupação rural proposto na tese de 2003.
As centuriações rurais propostas por Vasco Mantas (cadastros A e B) são contestadas por Lavigne (2006) e Watteaux (2011), que demonstraram que muitas das formas interpretadas como romanas resultam de colonização agrária muito mais recente.
Como citar
Lopes, M. C. (2025). A colónia romana de Pax Iulia: Balanço de um percurso de investigação (2000–2021). DigitAR, 11, 93–108. https://doi.org/10.14195/2182-844X_11_5
Fontes relacionadas
- A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes) — tese de referência (2003)
- Pax Iulia — A Cidade Romana de Beja em Período Romano-Republicano (M. Conceição Lopes, 2024) — dados arqueológicos detalhados
- O Grande Capitel Adossado Compósito de Pax Ivlia (Leonel Borrela) — capitel e cabeças de touro
- Forum de Pax Iulia — evolução do fórum
Footnotes
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Pax Iulia — A Cidade Romana de Beja em Período Romano-Republicano (M. Conceição Lopes, 2024) e LOPES, 2020, 2024a. ↩
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Síntese a partir de LOPES, 2025 e O Grande Capitel Adossado Compósito de Pax Ivlia (Leonel Borrela). ↩