Forum e Dinâmicas Urbanas da Colónia de Pax Iulia (M. Conceição Lopes, 2025)
Síntese arqueográfica dos resultados das escavações no Logradouro do Conservatório Regional do Baixo Alentejo aplicada às dinâmicas de formação e transformação da cidade de Pax Iulia. A metodologia é a análise arqueogeográfica (paisagem urbana como sistema adaptativo complexo e resiliente), que rejeita a leitura da cidade como palimpsesto e os métodos de análise regressiva ou semiológica como suficientes para compreender a dinâmica de construção urbana.
1. A Questão da Fundação: Numismática e Debate
As emissões monetárias (RPC 52 e 52A) apresentam no anverso uma cabeça masculina sem barba (interpretada como Octaviano; uma delas com a legenda CAESAR) e no reverso PAX IULIA, com figura feminina de Pax (sentada ou de pé, com caduceu e cornucópia). A. Marques de Faria argumentava:1
- A designação PAX encaixa no contexto ideológico pós-Actium (31 a.C.) (como Fréjus e Aleria)
- Os cidadãos inscreveram-se na tribo Galeria (fundações cesarianas → tribo Sergia)
- Datação de 31–27 a.C. situa a fundação entre Actium e a reforma provincial
- Conclusão: colónia fundada por Octaviano, não por Júlio César
Lopes recusa a moeda como argumento suficiente mas usa-a como enquadramento do debate sobre os inícios.
2. A Civitas
«A civitas não é uma coisa. Nem mesmo um espaço. A civitas é um corpo onde se reconhecem vários espaços — espaço socio-político, espaço político-administrativo, espaço socio-cultural, espaço económico, espaço de cultivo, etc. — cada um deles com a sua escala temporal (a do tempo da sua construção) e os seus ritmos de funcionamento.»1
Pax Iulia não foi fundação ex nihilo — progride no espaço de um antigo aglomerado urbano de dimensões assinaláveis, acolhido dentro de uma robusta muralha. Esta continuidade espacial criou condições para uma simbiose entre a nova ordem e as formas pré-existentes.
3. O Aglomerado Pré-Romano (sumário)
Ver Infraestruturas Hidráulicas no Forum de Pax Iulia (M. Conceição Lopes e Francesco K.B. Simi, 2024) para os dados completos. Edifício religioso da Idade do Ferro (final séc. V / 1.ª metade séc. IV a.C.), 15,30×18,3m, fundações em gabro e diorito.
4. A Cidade Romana Republicana
Tanque/reservatório: 12,60×5,40m, 2,40m de profundidade, 163.296 m³ (ver Logradouro do Conservatório Regional do Baixo Alentejo para detalhes de construção).1
Interpretação dos pequenos tanques: os dois tanques pequenos (articulados ao reservatório principal) e o pedestal de estátua escavado em frente ao templo pré-romano constituiriam uma fonte monumental integrada num complexo sagrado associado às águas subterrâneas — reconfiguração de um culto antigo relacionado com as águas.
5. O Programa Augustano
Templo augustano: 20,3×13,9m; fundações do podium conservadas em 3,75m de altura, 2,75m de largura; sem vestígio do podium em si — os estratos de enchimento que cobrem as fundações correspondem à terra retirada para lançar as fundações tiberianas. Hipótese: o templo augustano pode não ter sido concluído, tal como se verificou no fórum augustano de Nîmes (Gros 1987).1
O pórtico (muro E4, NW) tinha colunas de tijolo com estuques pintados e caleira interna de opus signinum. Estende-se para NE de modo a integrar no mesmo recinto tanto o templo augustano como o edifício pré-romano.
A reforma augustana desfuncionalizou o complexo de tanques sem o desmantelar completamente: tanque principal ficou intacto no interior da fundação; os tanques pequenos foram removidos (um parcialmente, por interferir com a frontaria do novo templo; o outro ficou intacto mas revirado por colapso).
6. O Culto Imperial (Tibério)
Aterro: até 1,9m em alguns pontos. Templo: 32,40×16,20m (hexástilo, Templa Rostrata), fundações com 4m de profundidade, 2,5m de largura nas frentes e lados, 3,75m nas traseiras. Entrada voltada a SW.
Tanque em P: rodeia o templo nos três lados (lateral e posterior):1
- Largura lateral: 4m
- Largura posterior: 4,75m
- Profundidade média: 90cm
- Paredes: 80cm de largura; revestidas de opus signinum
Epigrafia (já em Forum de Pax Iulia):
- Marco Aurélio — flâmine de Tibério César Augusto (Encarnação & Feio 2012, Conimbriga 51: 75–92)
- Gaio Júlio Pedão (IRCP 239) — duúnviro e flâmine dos divinos imperadores; auxiliou o aprovisionamento de víveres
Basílica: a sudoeste do templo, identificada pelo muro com pedestais de estátuas (E57); estrutura possivelmente desafetada com a reforma tiberiana.1
Silhares da Rua dos Infantes: Abel Viana interpretou-os como “calçada” (Viana 1950: 40); correspondem a uma parede monumental de silhares rectangulares, orientada NE/SO, que se prolonga para a Rua dos Infantes e a Rua do Touro (eixo principal Porta de Mértola → entrada do fórum). Neste artigo descrita como “granito” (nota: Lopes & Simi 2024 identificam-nos como mármore de Trígaches — possível correcção posterior).1
7. Da Antiguidade Tardia ao Séc. XVI: Longas Durações
Séc. VI: baptistério (7m de diâmetro, paredes de 1,4m, 1m de altura conservada; destruído por fossas islâmicas; paralelo Tipasa). Apríngio de Beja inaugurou o bispado em 531.
Período islâmico: as criptas dos templos de Augusto e Tibério foram usadas como espaços de armazenamento de produtos.1
Séc. XVI (D. Manuel): as criptas foram divididas para acolher as instalações dos moedeiros da Casa da Moeda de Beja. A partir do séc. XIII, o templo e outros edifícios do fórum foram desmantelados para levantar as igrejas e capelas da cidade — particularmente Santa Maria e S. Sebastião.1
Praça Nova de D. Manuel: o rei mandou construir uma nova praça “ali mesmo ao lado” (= Praça da República). Nessa praça, que apenas recebeu arcadas no lado nascente, D. Manuel mandou construir banhos e um chafariz alimentados pela água subterrânea, captada por um poço que datava da época romana ou anterior.1
Pax Iulia nunca teve aqueduto — abastecimento pelos freáticos do planalto (poços e minas, como os do Hostel Bejense).1
Como citar
Lopes, M. C. (2025). Forum e dinâmicas urbanas da colónia de Pax Iulia (Lusitânia). In [volume a confirmar] (pp. 145–163). [Editora a confirmar].
Fontes relacionadas
- Logradouro do Conservatório Regional do Baixo Alentejo — local das escavações
- Forum de Pax Iulia — contexto urbano
- Infraestruturas Hidráulicas no Forum de Pax Iulia (M. Conceição Lopes e Francesco K.B. Simi, 2024) — artigo complementar com dados hidráulicos
- A Colónia Romana de Pax Iulia — Balanço de um Percurso de Investigação (M. Conceição Lopes, 2025) — revisão do percurso de investigação
- Apríngio de Beja — bispo de 531
- Praça da República (Beja) — praça nova manuelina com chafariz
- Casa da Moeda de Beja — instalada nas criptas do fórum no séc. XVI