Visita de Pérez Bayer a Beja

Edição por Leite de Vasconcelos do diário da viagem arqueológica que o erudito espanhol Francisco Pérez Bayer realizou em Portugal em 1782. O manuscrito consultado pelo editor pertencia à Biblioteca Nacional de Lisboa e era uma cópia oitocentista de outro exemplar da colecção de José Cornide de Saavedra. A passagem dedicada a Beja ocupa as páginas 113-130 e constitui um testemunho directo da cidade entre 1 e 7 de Novembro de 1782.1

Chegada a Beja

Pérez Bayer chegou ao pôr do Sol de 1 de Novembro, vindo de Moura pelo Pedrógão. Entrou na cidade pela Porta de Moura e instalou-se numa hospedaria na Corredoura, em frente da porta que designou como “Porta Nova dos Prazeres”. A antiga Corredoura corresponde à área da actual Avenida Miguel Fernandes, no exterior das muralhas.2

Na manhã seguinte celebrou três missas pelos Fiéis Defuntos na igreja do Convento da Conceição. Explicou que se desviara da estrada habitual por Badajoz tanto para observar as antiguidades romanas de Beja como para conhecer pessoalmente o bispo Manuel do Cenáculo. Como o prelado se encontrava em visita pastoral em Ourique, foi recebido pelo irmão deste, Frei António Martínez da Piedade.2

Félix Caetano da Silva e a identidade de Pax Iulia

Frei António apresentou-lhe Félix Caetano da Silva, que levou à hospedaria a história manuscrita que escrevera sobre Beja. Pérez Bayer leu vários capítulos e considerou muito sólida a demonstração de que Beja correspondia à antiga colónia e sede de convento jurídico de Pax Iulia, depois chamada Pax Augusta. Destacou ainda a defesa de Apríngio de Beja como bispo de Beja, e não de Badajoz.3

Este encontro documenta a circulação, ainda durante a vida do autor, das investigações manuscritas de Félix Caetano e mostra como a identificação de Beja com Pax Iulia era apresentada a um antiquário estrangeiro no final do século XVIII.

Um percurso pelas antiguidades da cidade

Na tarde de 3 de Novembro, Félix Caetano guiou Pérez Bayer por vários monumentos epigráficos e escultóricos:

  • na Praça Maior, viu embutida nas Casas da Câmara a Inscrição de Lúcio Vero (IRCP 291), dedicada pela colónia de Pax Iulia e encimada por uma cabeça de touro colocada noutra pedra;
  • contou pelo menos seis cabeças de touro, incluindo exemplares na torre de Santa Maria, atrás da Igreja de S. João Baptista e na Rua do Touro;
  • na Porta de Mértola, copiou a inscrição funerária de Quinto Petício Rufo e considerou romano o arco exterior;
  • na antiga Rua do Esquível registou uma inscrição funerária muito fragmentária;
  • numa torre das muralhas voltada a nordeste copiou um fragmento em letras semi-unciais e propôs, com incerteza, completar a linha final como magister Larum Augusti;
  • no pátio descoberto do Paço Episcopal copiou, entre outras, as inscrições de Gaio Blóssio Saturnino e de Sulpícia Juliana.4

No dia seguinte observou a Porta de Évora, que descreveu como parcialmente romana e composta em grande medida por pedras e fragmentos antigos. Registou também, nas portas de Évora e de Mértola, a inscrição da Imaculada Conceição mandada colocar no reinado de D. João IV, hoje integrada na história das Lápides da Imaculada Conceição de Beja.5

Os desenhos e transcrições devem ser lidos como registos antiquários do século XVIII. O próprio diário distingue as peças vistas na cidade das inscrições guardadas no Paço Episcopal, entre as quais havia exemplares provenientes de Beja, dos arredores e até de Lisboa.

Manuel do Cenáculo, as bibliotecas e o monetário

Cenáculo regressou a Beja na noite de 4 de Novembro. As conversas entre os dois eruditos ocuparam longos serões e abrangeram livros, ensino, universidades e o projecto intelectual de Pérez Bayer. No dia 5, o bispo mostrou-lhe duas bibliotecas instaladas no Paço Episcopal.6

A primeira era uma biblioteca pública destinada aos ordinandos e a outros leitores interessados. Reunia obras de humanidades, filosofia, teologia, história e disciplina eclesiásticas, liturgia, catequese, retórica sagrada e história antiga e moderna. A biblioteca privada ocupava três salas e incluía grandes colecções impressas, manuscritos em pergaminho, bíblias, livros litúrgicos e cinco volumes da tradução castelhana da Crónica de Eusébio atribuída a Afonso de Madrigal.6

No monetário, Cenáculo mostrou moedas que ainda não estavam organizadas com as colecções de ouro e prata. Ofereceu a Pérez Bayer uma moeda metálica não identificada e declarou-lhe que podia escolher qualquer outro livro ou moeda útil aos seus estudos. O episódio revela tanto a amplitude das colecções reunidas em Beja como o modo pessoal e erudito de Cenáculo as comunicar.7

Epigrafia no Paço Episcopal

Durante os dias 5 e 6 de Novembro, Pérez Bayer copiou numerosas inscrições guardadas no pátio e em caixas do Paço. Entre elas desenhou o epitáfio cristão do presbítero Severo, falecido em 584. A visita mostra que o Paço Episcopal funcionava já como lugar de concentração e estudo de antiguidades antes da abertura pública do museu de Cenáculo em 1791.8

O diário não permite atribuir proveniência bejense a todas as inscrições desta colecção: Pérez Bayer afirma expressamente que algumas vinham da cidade, outras das suas imediações e outras de Lisboa. O seu testemunho é, contudo, essencial para reconstruir a localização e o estado de várias peças em 1782.

O bispado, a educação e o concerto

Numa conversa privada, Cenáculo explicou a Pérez Bayer as suas ideias para o bispado restaurado. Sublinhou a importância de valorizar o clero e, em particular, os párocos, cuja formação considerava decisiva para a educação das populações, a indústria, as artes, as ciências, o comércio e a agricultura.9

Na noite de 6 de Novembro, o Paço acolheu um concerto formado sobretudo por jovens eclesiásticos e alunos de Cenáculo. Um cantor italiano vindo de Lisboa interpretou a parte aguda; um dos violinistas era leigo e os restantes músicos eram clérigos. Entre as peças, o professor de Retórica pronunciou uma breve oração latina e o de Poesia recitou um epigrama. Pérez Bayer, então com cerca de setenta anos, tocou violino numa sinfonia e acompanhou uma ária. Cenáculo explicou que promovia a música fora das horas de estudo como recreação formativa dos seus alunos.10

Partida

Pérez Bayer deixou Beja às seis e meia da manhã de 7 de Novembro. Cenáculo foi buscá-lo à hospedaria, levou-o na sua sege e acompanhou-o durante cerca de uma légua. Félix Caetano, que se encontrava em Cuba, entregou-lhe em nome do bispo doces, biscoitos e rosquilhas para a continuação da viagem.11

Valor documental

O diário oferece uma rara descrição quotidiana de Beja no final do século XVIII. Além de localizar inscrições, esculturas e portas antigas, documenta a rede erudita formada por Cenáculo, Félix Caetano e Pérez Bayer, o funcionamento das bibliotecas e colecções episcopais, a formação cultural do clero e a sociabilidade musical do Paço.

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Como citar

Pérez Bayer, Francisco (1920). Viagem de Pérez Bayer em Portugal, em 1782. Edição de José Leite de Vasconcelos. O Arqueólogo Português, 24, 108-176.

Tags

Arqueologia Cultura Epigrafia Idade moderna

Notas

  1. Introdução de Leite de Vasconcelos, pp. 108-111.

  2. Diário, pp. 113-115. 2

  3. Diário, pp. 115-116.

  4. Diário, pp. 116-118.

  5. Diário, pp. 118-119.

  6. Diário, pp. 119-123. 2

  7. Diário, p. 123.

  8. Diário, pp. 123-128.

  9. Diário, p. 126.

  10. Diário, pp. 128-130.

  11. Diário, p. 130.