Árula a Júpiter de Beja (Campos e Feio, 2026)

Artigo de Ricardo Campos e Jorge Feio sobre a árula votiva FE 950, encontrada em circunstâncias modernas na Rua Cidade de São Paulo, em Beja. A peça foi publicada como inscrição 950 do Ficheiro Epigráfico n.º 290.

Conhecimento e circunstâncias do achado

Jorge Feio recebeu notícia da existência da peça em 14 de Abril de 2026 e obteve autorização para a observar e estudar no dia 20. O monumento encontrava-se há cerca de 30 anos na posse de Mário José Fernandes Vicente, que o tinha encontrado dentro de uma mochila abandonada numa casa em obras da Rua Cidade de São Paulo.

Mário José Fernandes Vicente cedeu a peça para estudo e exposição. A sua irmã, Isabel Maria Vicente Romão, informou os autores da existência do monumento. José D’Encarnação apoiou a preparação do artigo.

As condições do achado não permitem estabelecer o contexto arqueológico original. Os autores consideram, contudo, muito provável que a árula provenha da própria cidade romana de Pax Iulia.

Descrição e datação

A árula mede 27,5 por 13 por 13 cm e foi talhada em mármore cinzento de Trigaches. A execução é grosseira e ligeiramente assimétrica. No topo conserva um foculus circular com cerca de 8,5 cm de diâmetro na abertura e 7 cm na base.

As letras têm entre 1,5 e 3,5 cm, apresentam características actuárias e variam muito de tamanho. As serifas onduladas, a irregularidade e a falta de planeamento levaram os autores a propor uma datação provável no século II, talvez já nos inícios do século III.

Inscrição e tradução

Leitura publicada:

[I(oui)] · O(ptimo) · M(aximo) / P(ublius) · F(…) · R(…) / EX · VO(to) / MAR(ci) / AGR(ii) · MA/CRINI / A(nimo) · L(ibens) · V(otum) · S(oluit) ·

Tradução dos autores:

A Júpiter óptimo máximo, Publius F(…) R(…), de acordo com o voto de Marcus Agrius Macrinus, cumpriu o voto de livre vontade.

A invocação a Júpiter ocupa o capitel, as iniciais do executor aparecem na moldura superior e o restante texto distribui-se irregularmente pelo corpo e pela moldura inferior. As palavras, na maioria abreviadas, são separadas por pontos triangulares.

As duas pessoas mencionadas

O executor do voto apresenta-se apenas como Publius F(…) R(…). Os autores admitem que o gentilício possa ser Fabius ou Flavius e que o cognome possa ser Rufus ou Rufinus, mas nenhuma destas restituições é segura.

O beneficiário, Marcus Agrius Macrinus, é identificado pelos três nomes. O gentilício Agrius encontra paralelos no Conventus Pacensis e o cognome Macrinus está documentado em Olisipo. A diferença entre os gentilícios exclui que os dois homens fossem pai e filho ou irmãos.

O texto demonstra que Publius cumpriu o voto em nome de Marco Ágrio Macrino. A possibilidade de serem amigos ou outros familiares e a hipótese de Publius ter sido pago para executar a promessa são interpretações propostas pelos autores, não relações comprovadas pela inscrição.

Culto e possível lugar de colocação

O monumento acrescenta um testemunho do culto de Júpiter no Ocidente peninsular. Campos e Feio sugerem que o cumprimento de um voto em representação de alguém impedido de se deslocar a Pax Iulia poderia ter ocorrido num templo urbano, talvez no fórum.

Esta colocação é hipotética. O local moderno onde a peça apareceu não permite ligá-la arqueologicamente ao fórum nem a qualquer edifício religioso concreto.

Entidades mencionadas

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Como citar

Referência (APA): Campos, Ricardo, & Feio, Jorge (2026). Árula a Júpiter de Beja (Conventus Pacensis). Ficheiro Epigráfico, (290), inscrição 950, 13-16.

Tags

Arqueologia Epigrafia Religião Romano