A Rede de Cloacas em Pax Iulia (Miguel Serra, 2025)
Capítulo de Miguel Serra no volume Aquae Urbium (Univ. de Sevilla, 2025). É a primeira sistematização da rede de cloacas (esgotos) romanos de Pax Iulia — até hoje nunca estudada de forma específica —, reunindo os vestígios detetados em escavações dos últimos ~20 anos. Ver Cloacas de Pax Iulia.
🏛️ Importante para o Urbanismo Romano de Pax Iulia: as cloacas confirmam o traçado das vias principais da cidade romana.
Enquadramento
- Beja ergue-se numa colina (~285 m) sem cursos de água permanentes próximos (apenas os barrancos do Poço dos Frangos, do Vale de Mértola e da Quinta)
- Oppidum pré-romano confirmado por um troço de muralha na Rua do Sembrano (após séc. IV a.C.; ocupação da Idade do Ferro já no séc. VII a.C.)
- Pax Iulia: fundação augustana (M. Conceição Lopes 2003), com ocupação possivelmente recuável ao período republicano (Lopes 2018, à luz das escavações no forum)
Antecedentes documentais
- Félix Caetano da Silva e Abel Viana (1945, 1946, 1957) registaram “canos romanos” de opus signinum em muitas ruas (Aljustrel, Moeda, Esquível, Cadeia Velha, Rua Ancha, Portas de Moura…) e três “canos” que desaguavam fora da cidade (Pé da Cruz, Alcaçarias, Poço do Pelame — estes últimos talvez medievais/modernos, ligados às fábricas de curtumes do Bairro do Pelame e à Mouraria)
- Dois grandes fragmentos das galerias de esgoto foram levados no fim do séc. XIX para o Museu Arqueológico Municipal
Os troços documentados (escavações recentes)
- Rua da Lavoura — dois troços adossados (um romano abobadado, outro remodelado em época moderna); atravessava uma necrópole romana (séc. I-II d.C.)
- Rua Conde da Boavista (2006-07) — ~40 m; alinhamento SE-NO coincidente com um eixo romano principal (Portas de Mértola → Rua do Touro → forum), identificado como kardo maximus por Jorge de Alarcão / decumanus por Vasco Mantas; 1,74 m de altura interior
- Rua General Teófilo Trindade (2015-16) — vários troços; um aponta para a Rua do Arco de Aviz e o Beco de Camá junto à Praça da República (possível kardo maximus de Mantas)
- Parque Vista Alegre (2015-16) — cloaca + uma porta/postigo romano (desativado ainda em época romana), junto ao troço sul das muralhas, entre as Portas de Mértola e a Rua Dr. Brito Camacho
Conclusões
- Sistema hierarquizado: duas cloacas principais por eixo — uma entre o forum e a Porta de Mértola, outra entre a Porta de Mértola e a Porta de Moura — e colectores secundários menores
- Construção: cloacas abobadadas (opus incertum ou tijolo) e de cobertura horizontal com lajes
- Dotação provável logo após a fundação (séc. I a.C.) e durante o programa urbano do século seguinte
- Reforça o enigma do abastecimento: como drenava a cidade tanta água sem aqueduto, captando-a apenas em poços? (ver Pax Iulia — Roma em Beja)
Entidades mencionadas
- Pessoas: Miguel Serra (autor) · M. Conceição Lopes · Abel Viana · Félix Caetano da Silva · Jorge de Alarcão · Vasco Mantas · Eduardo Porfírio
- Locais: Parque Vista Alegre · Rua do Sembrano · Porta de Mértola · Portas de Moura · Rua do Touro · Praça da República (Beja) · Convento da Conceição
- Temas: Cloacas de Pax Iulia · Urbanismo Romano de Pax Iulia · Pax Iulia — Roma em Beja
Documentos relacionados
- A Cidade Romana de Beja (M. Conceição Lopes) — a base para o traçado urbano
- O Busto de Júlio César de Pax Iulia (M. Conceição Lopes, 2018) — o debate sobre a ausência de aqueduto
- Materiais Islâmicos do Sítio da Rua do Sembrano (Helena Casmarrinha) — o mesmo sítio do oppidum
Como citar
Referência (APA): Serra, Miguel (2025). A rede de cloacas em Pax Iulia. In J. Acero Pérez & O. Rodríguez Gutiérrez (Eds.), Aquae Urbium. El ciclo urbano del agua en la Hispania romana (Estudio de Caso 12.1). Editorial Universidad de Sevilla.